terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Poema de Joaquim Marques

Um Grito

Do silêncio se faz um grito
o corpo todo me dói
deixai-me chorar um pouco
aqui me falta uma luz
aqui me falta uma estrela.

Há sempre uma companheira
uma profunda amargura,
ai solidão,
ai quem fora escorpião
que te mordera a cabeça a Deus,
já foi para além da vida
e o que fui já não sou.
O mundo já me esqueceu,
sombra triste
encostado a uma parede.
Ó Deus, vida que tanto duras
Ó morte que tanto tardas
Ai solidão quase loucura.


Joaquim Marques (1920-2018)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

DANOS MAIORES, O LANÇAMENTO








Programa FEIO - 2018 - sábado, dia 15/12/2018.
14h30 – Abertura
15h00 – Álvaro Laborinho Lúcio / Cristina Maria Ovídio Baptista.
15h20 – *Apresentação de livros: Poemanifesto 2.0.18 – João Pedro Azul(org)/ João Silveira.
15h40 – Luis O Brito.
15h50 – Hugo Mezena.
16h00 – Pedro Proença.
16h10 – Andrea Zamorano.
16h20 – Rita Taborda Duarte.
16h30 – *Apresentação de livros: Danos Maiores de Ana Marques.
17h00 – Fernando Pinto do Amaral (Fernando PA).
17h20 – Valério Romão.
17h30 – Paulo José Miranda.
17h40 – João Paulo Cotrim.
18h00 – José Gardeazabal.
18h10 – Nelson Nunes.
18h20 – Patricia Portela.
18h30 – Joana Bértholo.
18h50 – *Apresentação de livros: Tenham Uma Boa Vida de Francisco Resende (apresentação também da “Colecção Crateras”, promovida pela EC.ON).
19h20 – Encerramento.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Séneca senão Seixas









Séneca senão
Seixas
Séneca sacando a cruz
contra o espírito hesitante
o que existe sem ritmo próprio
o que se retrai em casa
expandindo-se na rua
Séneca denunciando a vida
como um jogo ilícito
a farsa da variedade de atitudes
e terás de querer e não querer
sempre a mesma coisa
ó projecto de sábio

Seixas senão
Séneca
Seixas cancela a cruz
que prega o homem à sua identidade
Seixas constrói as próprias histórias
diariamente se instila
no ambulatório da metamorfose
uma estrela amanhã brilha
e hoje se apaga
É tão chato ter aquela velha
opinião formada sobre tudo
sobretudo sobre o Amor
e sobre tudo tudo tudo

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Neutro Aniversário




Nem bem
nem mal
neutro
neutro aniversário
votos de um eterno
inverno
chuva miudinha
ténue
vento cortante
neutro
nevoeiro
smog ligeiro
tosse
ruído branco
geada santa
poeta do bloqueio
rio seco
mar da tranquilidade
lunar
para sempre
o bolo não foi
desmesuradamente
mau
mas
tem sido um grande
prazer
esquece-lo

Barbi Presa

Pintura de Félix Labisse



Uma Barbi presa
nas fotos montra
à  vigilância do vício
a imagem encosta
presa fácil
uma Barbi presta
ao encontro do Mestre
que dedicado monta



Uma fé sem freio
a nascer de baixo
apontando à foto
da medida plástica
o fetichista empresta
o domínio pronto
disposta ao mundo
está a Barbi aberta



Uma fé manifesta
no derrame do esperma
o fetichista ao leme
da luta de espera
as imagens caindo
são farpas de esperança
cobrindo as fotos
da Barbi fera










quinta-feira, 22 de novembro de 2018

18 Anos



18 anos
noutra terra atrás
a Fortuna tenra
urdia ainda as suas teias
a meu favor diria o estóico
percebi pelo meio das montanhas
que umas pernas se  abriam ao signo
da palavra vida
uivos para
uma outra vinda
quase pronta
toda troca
nutrientes por tesouros
leite por lótus
calor por candura
uma alma amanhecendo
na tarde dolorida
carris paralelos
principiando a viagem
do comboio sem freio
na urgência
do Amor










segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O Grande Escultor




O Tempo
desbravando a carne
supérflua
direito aos ossos
libertando o esqueleto:
a escultura no interior
do corpo

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

MOJAVE




De certo o deserto
desacerto
de película pouco credível
a luta entre dois galos
era o início
a malignidade gratuíta
o verbo
a propensão para a fantasia
um Burning Man

he looked like Jesus
não o nazareno
mas o ícone ocidental
personagem pseudo principal

o Diabo queria ser Hamlet
(deserto ou não deserto?)
luta de verbos
corpos cravejados de vocábulos
sacos de químicos explosivos
no fim
morreu o que mais sofria
de excesso de literatura
o homem de Shakespeare:
projecto de belzebu
baleado à  traição
por pseudo Jesus o
verdadeiro satanista




domingo, 4 de novembro de 2018

espúria

Gravura de Konstantin Kalynovych



é uma pena meu irmão
executivo
vociferas
alvísseras à execução
sendo eu filha espúria
mordendo-me a mão
segues
desde tenra idade
na era do bruxismo
cedes
já Sansão era capital
esconsa
e cabeleira esquecida
a pesquisa à cadeira
electrica chamada em vão
desejo meu irmão
como pena espúria
Dalila foi idem
danosa capital
consultados documentos
de pitéus e predicados
a última ceia é nula
vazio vai o estômago
para a grande noite
cegos
em cela fundo e escuro
é o poço onde se joga
à bajulação heráldica
no corredor da morte
cresce a urina no chão
os deuses não esperam
tergiversam abundantes
o meu espúrio coração
mordendo menos um dente
rosnas meu irmão
sede
trabalhos humedecem
sebes
morde quem não sabe beijar
servos sempre
olhos no chão









quarta-feira, 31 de outubro de 2018

GRANDE SERTÃO: VEREDAS


GRANDE SERTÃO: VEREDAS (Spoiler alert)





Riobaldo: viver é muito perigoso.
Diadorim: carece de ter muita coragem.

Este pequeno diálogo entre os protagonistas, que se repete ao longo do livro,é o núcleo duro da história, representa a relação entre os dois protagonistas, em redor do qual tudo vai girar.

É logo no início que nos é revelado o grande amor de Riobaldo pelo jagunço Diadorim. A par das descrições maravilhosas das belezas naturais da região, o velho Riobaldo (o narrador) vê-se a si mesmo deixando-se levar por um sentimento de grande delicadeza e ao mesmo tempo de uma força incomum, que nos toca profundamente.
Pensei, com perplexidade, que o livro era uma espécie de Brokeback Mountain brasileiro passado no Sec. XIX. Mas não.
Esta não é uma história de amor gay, não no sentido clássico do termo. Embora haja um homem que ama outro homem. Um homem de orientação heterossexual que se apaixona por um homem, que afinal era uma mulher. Mas ele só descobre a mulher depois da morte desta. O amor por Diadorim é sempre o amor por um homem.

Este não é um romance sobre o Género. Esta é uma história sobre Identidade.

Uma história sobre o Amor. E como o Amor, essa força avassaladora, pode ameaçar a construção frágil que é a Identidade de uma pessoa.

 Até metade do livro nunca desconfiei, nem por um instante, que o Diadorim não fosse homem. Achei esta luta interior do Riobaldo uma coisa extraordinária, que dilema, que drama, que guerra consigo próprio, que maravilha de revolução pessoal íntima! E quanto a mim, a história não precisava da revelação final, fazia sentido igual manter Diadorim homem. Mas percebo que fosse muito ousado para os anos 50. Ainda assim, fico curiosa sobre a reacção do público na altura. Abandonavam o livro a partir das primeiras dezenas de páginas ou adivinhavam logo o enredo final, sendo que dois homens amarem-se seria mais bizarro que ficção científica, entendiam logo que se tratava de uma mulher transvestida?

Tive então a triste ideia de ir espreitar ao Youtube a série da TV Globo, de 1985, haviam-me dito que era muito boa. Eu só queria ver um pouco do início, para ver o ambiente da coisa. Não passei do elenco: protagonistas: Tony Ramos e... Bruna Lombardi, ó merda, é uma mulher! E pronto, vi logo tudo, caldo entornado.

Claro que me choca muito o facto da história ficar toda deturpada na mini série (e no filme de 1965 é igual, é uma tal de Maria Clara a fazer de Diadorim). Já não é uma linda história de amor entre dois jagunços como é no livro. A homofobia é uma desmancha prazeres, em sentido lato.

Mas lá consegui continuar a ler o verdadeiro enredo do amor maior entre dois seres do mesmo sexo, do ponto de vista do Riobaldo. Diadorim sabia a verdade.

Comecei então a pensar que esta seria o argumento ideal para um realizador de cinema (e escritor, ele é escritor também, desde 2014, que boa notícia) chamado David Cronenberg, um tipo que tem como um dos pilares básicos da sua temática cinematográfica a Identidade.

Diz o Cronenberg numa entrevista que se pode encontrar no YouTube (Cronenberg on Cronenberg) : “Somos criadores na nossa própria identidade, embora se possa crer que é algo que nos foi dado,  temos de nos reconstruir todos os dias.”
E diz Riobaldo, a páginas tantas:
“ O senhor... Mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas- mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.”
e ainda:
“Para a gente se transformar em ruim ou em valentão, ah basta se olhar um minutinho no espelho-caprichando de fazer cara de valentia; ou cara de ruindade!”

Riobaldo ao longo da história vai fazendo muitas perguntas ao viajante que o escuta. Mas existe uma pergunta oculta por trás de todas as questões: Quem sou eu?
O velho Riobaldo está também a reconstruir-se à medida que conta a sua história, está a descobrir-se, a reconhecer-se nos vários Riobaldos que vão surgindo com o passar dos tempos: o menino Riobaldo que passa o rio São Francisco, cheio de medo, com o menino Diadorim, o Riobaldo secretário e professor de Zé Bebelo, Riobaldo Tatarana, Riobaldo chefe dos jagunços, Riobaldo o mulherengo, Riobaldo o apaixonado por outro jagunço, Riobaldo o que tentou vender a alma.

Há uma parte em que Riobaldo é chefe, e está aprender a agir como chefe e o bando encontra um homem a cavalo numa égua com uma cachorra ao lado. E ele diz que vai matar o homem e nós damo-nos conta de que o velho Riobaldo está a relatar o que acontece ao Riobaldo que se observa a dar aquelas ordens aos seus homens, sem saber bem se consegue manter a sua própria palavra. Ora diz que é para matar o homem mas não consegue, ora diz que é para matar a cachorra mas também não pode e ainda tenta matar a égua e nem isso. Ele procura a sua própria alma através das suas acções, auscultando o seu coração para ver se realmente o Diabo já o fez refém ou se ele ainda é apenas o mesmo Riobaldo de sempre (e quem será esse?). Há aqui o velho Riobaldo que observa o chefe Riobaldo que se observa a si mesmo como uma pessoa separada da sua identidade. Uma Matrioska de Riobaldos.
(engraçado que na referida entrevista Cronenberg menciona Samuel Beckett como um autor que usa muito as personagens separadas na sua própria identidade)

Esta ideia do ser em construção também podemos ouvir em “Pano-cru” do Sérgio Godinho:
Ouve, meu amigo
põe a máquina a gravar
queria só explicar aqui
que eu sou como o pano-cru
como pano-cru
eu ainda estou por acabar
e como o linho vem da terra
assim viemos eu e tu
e como tu eu faço e amo
e luto e dou
e como tu eu estou
entre aquilo que já fiz
e aquilo que eu fizer
eu sou de pano-cru


Quem sou eu? pergunta Riobaldo. Sou destemido, sou bom, sou do Diabo, sou capaz de comandar, sou capaz de matar, de ser jagunço, sou do Joca Ramiro ou sou de Zé Bebelo?
“Que tudo era falso viver, deslealdades. Traição? Traição minha, fôsse no que fôsse. Quase tudo o que a gente faz ou deixa de fazer, não é, no fim, traição? Há-de-o, a alguém, a alguma coisa.”

Viver é muito perigoso. Uma Travessia. Muitas. Viver é a travessia. E é para essa derradeira, a maior de todas, que vai ser preciso a tal coragem, a coragem que Diadorim há-de sempre dar a Riobaldo. Começando no rio São Francisco e perdurando pelo Sertão a fora. Podemos dizer que a história acaba em tragédia. Mas o velho Riobaldo a certo ponto diz ao viajante: “ Ao portanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já disse.  Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia dêles fôr enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, na vai-a-vida inteira. Que; coragem- é o que o coração bate; se não , bate falso. Travessia - do sertão- a tôda travessia.”

Foi um amor vivido a meio termo, mas foi vivido. Apenas não foi consumado a nível físico. Havia coragem no coração mas não havia atrevimento suficiente para quebrar todas as regras do Sertão. Era uma desconstrução que ameaçava a própria identidade dos envolvidos.

E Diadorim? Não podia ela ter aberto o jogo? Riobaldo também diz ao viajante que ela lhe tinha negado  a verdade, culpando-a pela manutenção da impossibilidade falsa de serem dois amantes livres e plenos.
Mas também aqui é uma questão de identidade. Diadorim era jagunço. Não sabia o que era ser mulher. Pelas conversas que ouvia aos outros ela só sabia que “mulher é gente tão infeliz”. Revelar o segredo seria morrer antes de ressuscitar, mas ressuscitar numa forma alienígena. Diadorim desaparecia para sempre. Estávamos em 1890, não havia jagunças, só jagunços. Esta não é uma história de igualdade de género. É uma história sobre identidade e Diadorim era um homem aos olhos de todos. Aos seus próprios olhos. E haveria de morrer homem.

Que força estranha é essa, avassaladora, que faz ameaçar a identidade de uma pessoa, chamada Amor?
Dizem que surgiu como uma pulsão adaptativa/evolutiva, um factor que permite que duas pessoas se mantenham juntas para criar a descendência e preservar a espécie. Talvez tenha sido assim no início mas depois há-de ter ganho vida própria e seguido outras vias, é como um fogo fora de controlo, solto no mundo. Se não, vejamos, por exemplo: que vantagem adaptativa tem o amor por pessoas já falecidas? E o amor entre pessoas do mesmo sexo? O amor é tão inconveniente quanto murro em nariz quebrado. É impiedoso como um terrorista funesto. E não dá tréguas.
Riobaldo bem sabe disso: “Se é que é- eu pensei-estou meio perdido.”

A RODA GIGANTE (Com Spoilers, Brasil e Brad Pitt)








No passado Domingo foram as eleições presidenciais no Brasil. Cheguei a casa no final da tarde a tempo de ouvir as primeiras projeções de resultados.
Nunca umas eleições no Brasil tinham mexido assim comigo. Embora a vitória do Trump tivesse sido um evento de certa forma traumatizante à escala mundial, desde os tempos do primeiro mandato do Mário Soares que não me envolvia com tanto vigor (ainda que a nível virtual) numa campanha política. E desta vez nem sequer foi no meu próprio país.
Achei por bem descontrair antes do doloroso momento da confirmação do que haviam apregoado as múltiplas sondagens: a vitória do candidato de extrema Direita.


Escolhi um filme. Ainda dava tempo. A Roda Gigante, de Woody Allen. Em princípio desviaria a minha atenção para outros temas.  Em princípio desviou. Mas no fundo, no fundo, a conclusão veio bater na mesma tecla: a explicação de uma escolha que o ser humano faz. O que leva uma pessoa a agir, a escolher uma acção, cujas consequências são agudas, dramáticas, irreversíveis e moralmente questionáveis?



A Roda Gigante (Wonder Wheel), dizem que será o último filme do realizador. É um clássico, e ficará como um dos melhores da sua carreira. Absolutamente perfeito, em termos visuais, tem ainda uma interpretação fenomenal dessa grande actriz chamada Kate Winslet dando aqui corpo a uma personagem trágica que não ficará, em carisma e intensidade, atrás da Blanche DuBois de “Um Eléctrico Chamado Desejo”.


Ginny é uma mulher à beira dos 40 anos, na década de 50 do século passado. Ataque de nervos é pouco para explicar como se sente, o quanto lhe pesa o dia-a-dia, sempre que se arrasta para o emprego na marisqueira onde atende às mesas. O segundo casamento com um alcoólico em recuperação entrou na rotina desinteressante e enferrujada dos matrimónios meramente convencionais.

O cenário é Coney Island, Brooklyn, Nova York:  a praia, os carroceis e diversões de feira. A vida é recreio para o povo e uma pasmaceira infernal para Ginny, que já fora uma actriz jovem e cheia de potencial. E por um erro trágico da sua parte perdeu a carreira e quase tudo. Ficou com um filho pequeno e acabou por dar à costa num casamento cujo o único sentido é o desespero de causa, a sobrevivência. Ela sente que aquela empregada de mesa que vê no espelho é o derradeiro papel, no grande palco da vida, que lhe coube em rifa. Não é verdadeiramente a sua pessoa. Há um corte com a sua identidade.


Até que conhece um nadador-salvador. Ironia do destino e ironia do trocadilho. Tornam-se amantes e ela pensa que ele a irá resgatar a uma existência sem significado. Que a levará para um destino paradisíaco e a transformar novamente na mulher deslumbrante que fora em tempos, e que no fundo, ainda continua a ser.
Mas Mickey também não era um nadador-salvador no verdadeiro sentido do termo, nem no metafórico. Ele era um potencial escritor (personagem que faz lembrar todos as outras interpretadas por Woody Allen, que são sempre o próprio) e como tal interessava-se mais pelas histórias das pessoas do que pelas pessoas em si mesmas. A História trágica de Ginny fascinou-o mais do que a própria mulher. Que, entretanto, se foi tornando mais irascível, instável e insegura do que ele estava disposto a suportar.
Tudo isto se agrava com a chegada da filha do marido de Ginny, que vai despertar a paixão de Micky e o ciúme inflamado desta.
Carolina tinha uma história excitante para contar: andava a fugir da Máfia pois casara com um gangster. Claro que Micky ficou imediatamente hipnotizado pela narrativa.
Carolina gosta da madrasta e confidencia-lhe tudo o que vai acontecendo entre ela e Micky.
Por isso Ginny sabe que os dois estão a jantar na pizaria quando os mafiosos chegam para matar a rapariga. E logo aflita corre a telefonar para o restaurante a avisar do perigo que corre. Mas enquanto fala com o empregado fica congelada, bloqueia completamente. E nós vemos aquele olhar fixo, parado, ausente que significa uma mudança crucial. Ginny deixar de pensar, deixa de distinguir o Bem do Mal, do que é certo do que é errado, a lógica, o pensamento racional detém-se naquele ponto, trava e congela.
Há um momento de suspensão a partir do qual a emoção toma conta dela. a paixão avassaladora e o ciúme ardente imobilizam-na, impedindo-a de salvar Carolina. A acção passa a reacção comandada puramente pela emoção.
Desliga o telefone. Vai-se embora. Carolina nunca mais aparece. Micky descobre tudo e passa a ver Ginny como uma assassina. O amor acaba. Ela perde tudo e volta ao seu papel de empregada de mesa, agora colado à sua pele como que por argamassa.



Este momento final, o clímax do filme fez-me lembrar um outro, chamado 7 Pecados Mortais do David Fincher que toda a gente há-de recordar.

Às tantas o assassino está diante do Brad Pitt e chega um carro com um caixa que lhe é deixada aos pés. O polícia abre a caixa e vê a cabeça da sua mulher. O sétimo pecado é a Ira e Kevin Spacey conta com essa emoção para levar o homem a cometer o crime.


 A Ira é uma emoção, uma das mais forte. Brad Pitt luta contra si mesmo, tenta controlar-se. Morgan Freeman, o Polícia mais velho tenta chamá-lo à razão: não deve ceder ao plano do assassino. O melhor é não fazer o que ele quer, o maior castigo será não o matar. Ele hesita, ele está a tentar recuperar o controle, mas a emoção é mais forte, a Ira ganha e ele mata o criminoso.
Podemos entender melhor esta personagem porque a “vítima” é um ser execrável, um monstro desumano, um ser horripilante. Depois haverá outra vítima, o próprio polícia que passa para o outro lado da barricada, desaparecendo a identidade que vestia até ao momento.

 Mas há uma semelhança entre as duas histórias: no fim existe uma dissociação entre a razão e a emoção, uma luta entre estes dois polos da personalidade das pessoas em que uma se torna mais forte e toma as rédeas da acção dando origem a um erro. A emoção não consegue escolher entre o Bem e o Mal, ela não escolhe, não é capaz, apenas reage em função do humor do momento, sem ter em conta as consequências. A emoção é apenas o agora sem o depois. É o sabor do preciso instante. Num instante apenas se pode destruir, para a construção é sempre preciso mais tempo.

Uma acção baseada na emoção pura pode ter um grande poder de destruição.

 Assim como o voto. Assim se viu no Domingo passado, no Brasil. Seja pela ira dos que estavam fartos do PT quer por paixão a Deus dos Evangélicos, a diferença entre o Bem e o Mal foi totalmente aniquilada, a Moral descartada, a lógica suspensa. Nada do que foi dito pelo candidato vencedor teve qualquer efeito na decisão dos votantes pois eles não estavam decidindo com a razão mas apenas reagindo com emoção aos acontecimentos. Para estes o seu acto extinguiu-se no próprio momento do voto e não terá consequências.  Mas elas virão. Para outros, para eles próprios, para todos. E para alguns, mais cedo que tarde.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

feiticeira inédita

Gravura de Albin Brunovsky





o céu sitiado de estrelas
ao comando
uma lua complacente
demissionária

atada
ao mastro fervoroso
a feiticeira inédita
vai ouvindo o crepitar
do fogo preso
horizonte crescente
de um mistério tentacular

promontório lambendo
cada perna devagar
subindo derretendo
a pele obstinada
amolecendo ilíacos
dilatando frestas
ascendente domínio
açulando dentes e língua

o coração arranca
num galope vertiginoso
o corpo avança
perdendo-se
no vicioso círculo
amálgama de aço e forças
no final a cinza
que se há-de aspirar
e engolir inteira

antes do grito da carne
a feiticeira inédita
há-de aprender
a reter o fôlego
nova respiração
porque
o fogo também tem marés
se chamas
será preciso urgir
e atravessar esse
mar de ferro


sábado, 13 de outubro de 2018

O Início

Irises, Marc Quinn





o dedo clica
o cronómetro
o tempo principia
fogem para trás
as nuvens inchadas
de sombras e escuridão
arrastando a lua encardida
dura como ferro
sonâmbula
quando um céu
se inflama de estrelas
pingando e escorrendo
um eflúvio obstinado
uns olhos fixam
detêm-se
noutros olhos siderados
foi o início








vestir o disfarce

"The dress likes to write sculptural gestures in the air", trabalho de Cocky Eek




Tantas máscaras
para tão poucas perucas
pudesse eu arrumar melhor
na indumentária a dúvida
a dúvida sistemática
ou ligeira
sustentada ou suspensa
a fé ao invés de cortar
os mesmos cabelos repetidos
os mesmos brancos semeados
no preto intenso
deixa lugar à tal
velha dúvida
denunciando um cansaço desdobrado
que vai sempre perseguindo
as variadas possibilidades intercalares
um stalker de bengala
claudicando atrás
de cada figura
perucas
dessem-me múltiplas
à Mozart
polvilhadas de pó de talco
acolhedoras
das palavras gaguejantes
na hora de vestir o disfarce
gargalhadas
numa entremeada de coerências
todo um estilo próprio
que se estende de baixo
do courato protector




sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Dias Singulares

Fotografia de John Rawlings



Dias singulares com o mar em frente

um mar tremendo que se fez único
ressarcindo o sal do corpo
lavrando pedras na orla da praia
onde ainda ontem era apenas
um chão despojado e nu

Dias semeados amiúde nos meses

um mar-moisés abrindo nas rochas
saciando-as num diálogo recortado
a cada respiração
a cada maré
decifrando as repostas
na volta da onda
esculpidas num corolário
de espuma

Dias singulares com o mar em frente

um mar inteiro e duas gaivotas
povoando um lugar
moradia de fronteira
no intervalo absoluto
das nuvens


dias singulares
pedindo
implorando por
dias iguais


sábado, 15 de setembro de 2018

O AMOR NÃO SABE NADAR



Pintura de John Wesley





O Amor
é todo carne
espada sem escamas
outras guelras
barbatanas presas
não nada
não esperes
é todo carne
não lances ao mar
não nada
não esperes
estrada que se rasga
terra dentro
boca cortante
entra a eito
não esperes
não nada
é todo carne
não lances de foz em fora
toda a água o demora
e devolve alforreca
o Amor já murcho
cego e furibundo
não esperes
não nada
todo carne
todo sangue
todo fundo
todo ferro
todo corpo
o Amor


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

VIADUTO

pintura de Amy Shackleton



A vida
é a travessia
do viaduto
em vias
de ruir a cada passo
deus é a ausência 
de atrito
no fim
(que está pra chegar
a qualquer momento)
o corpo encoberto
roda
em queda livre


sábado, 8 de setembro de 2018

As Acácias




Las Acacias:
 Um filme de Pablo Giorgelli com Gérman De Silva e Hebe Duarte


Mil quilómetros direito
a Buenos Aires de Assunção
uma bebé bonita vai
partir a pedra no olhar
do camionista
uma bebé sem pai
noite e dia derrubando
as acácias troncos
no olhar do camionista
mil quilómetros sempre iguais
mas já diferentes
na cabine silêncio
só o calor do motor
tantos anos sempre
e agora uma gargalhada
de uma bebé bonita
porque a estrada é pesada
e o veículo longo
e o sorriso morno
o homem vai partir
a pedra do seu próprio peito
deixando aberto
o coração





sexta-feira, 7 de setembro de 2018

LUGAR COMUM


Atlas de Nichols Kalmakoff




No poço lodoso
um entulho de palavras pedras
aterra num estardalhaço
uma anunciação
no fundo não chega luz
nada se plantará que cresça
um silêncio fecundado é o ar
que nos falta
não se fará um poema
sobre esterilidade
mãos abrindo
um túnel para o tempo
do posfácio
braços não sobram
para despedidas
mãos a ouvir
nunca houve

O plano inquinado
é o que conduz o corpo
à queda
numa aceleração viciada



quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Mordaças e açaimes


Pintura de Thierry Feuz




Mordaças
a fechar o focinho
ao cão esfaimado
raivas espumantes
de língua e latidos
fabricando um silêncio
espacial

Dentes contra lábios
boca contra palato
lábios contra dentes
glote contra amígdalas
azedas amigas

Açaimes
sequestrando o uivo ao centro
tornando a garganta lobo
animal de poucas falas
estepes algumas
nenhumas preces
só silêncio espacial






JEJUM



Há palavras da moda
ou medicinais
que andam na boca
de toda a gente
mal ao mundo não vem
se tens o atrevimento
de experimentar
uma ou outra

Na realidade
ao fim das vinte
e quatro horas da praxe
vais conhecer
na bendita manteiga
derretida
que barra a preceito
o pão o sabor
verdadeiro da Poesia
o seu cheiro

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

SEMENTEIRA



O céu
sementeira de mundos 
e de canções
crescem estrelas
quartos minguantes
explodem luas
sonhos que se realizam
na cama da noite
desenhos que se oferecem
histórias  madurando
prontas a colher
se decidirmos abrir
os olhos
ver

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O DEUS DA MIOPIA

Masks designed by Cornelis Floris and engraved by Frans Huys, in 1555


Ao almoço
choques com tinta
o desperdício as palavras
afogadas em espesso líquido
jamais serão lidas

Dois tentáculos de silêncio branco
farejam a garganta
o sufoco

O dia abranda
acusando uma ausência
a luz imóvel revela
a rarefação dos minutos
moinha opressiva

Há horas que ficam
como farpas aguçadas
alojadas no sabugo
dos dedos
as unhas: testemunhas mudas
prerrogativas do Deus da Miopia

A escolha dos olhos
seria
sempre não ver

domingo, 2 de setembro de 2018

MULHER NENHUMA

Fotografia de Nicola Kuperus


Alguns olhos incautos
hão-de tomar
a poética da foda
por belíssimos poemas
de amor

Mais tarde haverá de perder
o desejo pela esposa
tendo passado a amá-la

Não a trairá
mulher nenhuma
ganhará a sua cama
só cona
mulher nenhuma

EM PARTE INCERTA

Hiding from love, João Figueira


Em parte estás
por ficar partiste-me
a certeza de estar aqui
tão longe
indo embora

CORAÇÃO BOIMERANG




Coração de boi
dar e apanhar com ele
em cheio na nuca
nunca foi pera doce
dor de quem viu fugir-lhe
a carroça lá na frente a força
escoar por nervos ou colares
missangas de esperança
entornadas no chão da praia
onde morrer
um coração
é um boi uma arma
vai e vem
contra nós marra

sábado, 1 de setembro de 2018

MÁ MENINA MÁ

Fotografia de Tatiana Gulenking


Que fazes aqui
criaturinha das trevas
que queres tu diz-me
diz-me o que fazes aqui
desacompanhada
na escuridão celeste
criaturinha das trevas
menina fosforescente
suja

Vieste do outro lado do tempo
à boleia de um túnel de minhoca
menininha misteriosa

Aprendeste a cosmogonia do castigo
esse ritual repetido desde a Infância
na oca protetora ao longo das eras
vens dar-me uma lição de genealogia
a ver:
percorre-te o corpo
um unguento de amargura
a flecha enterra-se na espádua
marca de Órion
Caim de cabeça
no copo meio vazio
um desejo de dor
como um pecado

Ó criaturinha das trevas
má menina má
eu te absorvo






O Elefante Tombado




Ilustração de  Billy Shire




Xeque-mate elefante
no meio da sala
tomei a liberdade de
avançar pelo xadrez
senhora
puxando o tapete
ele tomba
numa invisibilidade
intermitente
um caso de perícia:
jaz
não jaz
elegante


a tromba é de água
criatura minando a noite
coração de um só lóbulo
consolo de lábios tantos
corroído de rugas
rasgos de fúria
um mapa de ruelas onde se
esconde a memória
(que nunca morre)
a esvair-se em sangue
exaurido chilreia
prenda de rajá
um mamute de marfim
assegura o comissário
casca grossa
salvou-se a rainha ao menos
a culpa  serve-se com chá
de  sevícias
e cardamomo

MUTANTE

Macro fotografia dos olhos de um insecto de Yudy Sauw





Acerto com força
na mosca
que insistentemente
me pousa no braço,
caramba, e não morre!

O mutante mor
cego ferra-me
os caninos
no pensamento.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Poema Americano


Fotografia de Lissy Elle



Conheceu os filhos antes
de nascerem
tinha também uma ideia
clara do momento
da sua morte a sua
maldição
não saber o dia
e a hora multiplicava
a tormenta

Sonhava todos os dias
com uma viagem
de automóvel um descapotável
vermelho entrava nele
descontraída de cabelos
presos com lenço
de seda  à boa maneira
das actrizes francesas
dos anos sessenta o carro
era americano

Ia divertida
estrada fora
até atravessar um viaduto
suspenso sobre um ribeiro
invisível

Galgava os rails
de protecção num voo
picado atravessando
o vento rindo
de uma piada perdida
que iria durar a eternidade
ou na pior das hipóteses três
míseros segundos

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

taser


Instalação com Ondas de Daniel Palacio



tentar transpor o silêncio

quando pronunciar o termo certo

é taser

uma arma incapacitante

tântalo contraindo

distendendo a pele

o músculo preso

tremendo

arpões paralisantes

dois gatilhos

tudo o que irá transbordar

dessa baixa letalidade

será o fluir das ondas

e os danos colaterais

decididos em plenário

transitando em julgado

quando pronunciar o termo certo

o teu eletrochoque

música a legendar o fogo

para os meus sentidos

toldados

Respigadora

Do que é teu
preciso apenas do que não usas,
de resto podes ficar
com o prato principal.

O Homem à solta

Para o Roberto Gamito


Trabalho com Mapas de Mathew Cusick


Deus foi de férias prolongadas
com a Esposa:
ai, anda o Homem à solta!

Brinca aos Olimpos e às Bolsas
em Wallstreet,
uivos no Universo.
Na nova Meca reconquistada
o maravilhoso jogo da Macaca.

Diverte-se a alterar as Alterações
milenares,
uma subtileza espetada
no flanco da Natureza,
a mudança que tudo muda
implodindo o Antes.

Ri Satanás
refastelado
enquanto Sífio agarra a pedra  com as duas mãos
arremessando-a de vez
para dentro do olho da noite.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

As palavras não contam

Fotografia de Francesca Woodman




À porta
as palavras não contam
cada minuto
vai descendo
não sem antes
arranhar
a garganta
como unhas de gato
pata ante pata
intercalando cada lado
da ferida
sessenta estilhaços
penetrando a pele
até à badalada final
o canino de um tigre
pedra a lapidar
lápis infernal
cautério queimador
e eu capitulando
caindo
dilatadamente
muito abaixo
do chão

a porta cumprirá numa hora
as penitências desse ano
que as palavras não contam

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Barlavento

Pintura de João Figueiredo


dar o corpo
dar o corpo às balas
derrames de borracha
mortíferos
bluffs intempestivos
bíblias e búfalos
os cornos espetados
nas coxas exangues
barra o vento
o corpo
barragem de sabão
bolhinhas e bolhinhas de veneno
à bolina a barca
do inferno as crónicas
em prestações

dar o corpo
dar o corpo à queda
com estrondo
amparar o fim da festa
salvar uma réstia
de suavidade última
suspiro e suor
os braços cravados
cravinho especiarias várias
o chão alagado em hematomas

coser a boca à musa
impôr-lhe a sapo-condição
regredir encolher
num último caso
receber
recados de uma puta mansa
por obséquio
digestão e manta


Slogan


escultura de cerâmica de Ken Price

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

domingo, 29 de julho de 2018

o barbeiro faz barba a si próprio


Pintura de Gustav Klimt


a amante é uma mulher
que se deixa humilhar

saber se há mais-valia
ou prejuízo
no processo
só ela o avalia
como o médico que tira o pulso a si mesmo
o juiz em causa própria
ou o barbeiro
que faz a sua barba
e no espelho recebe
o reflexo da medida da grandeza
do olhar do outro

a amante é uma mulher
que se deixa emudecer
e mede as perdas
os ganhos
os tralhos
os bugalhos
pelo método das temperaturas
haja humidade

sábado, 28 de julho de 2018

Passerele

Trabalho de Alana Aldridge



Os sentimentos soterrados
num cardume de avalanches
de palavras
quanto consolo rentabilizado

Os sentimentos na passerele
um desfile de misses em biquíni
quanta elegância calculada
quanto empenho
engenho
arte
e o raio
que o parta

Os sentimentos nos botões
do casaquinho assertoado
rente ao corpo
todo manufacturado
um brinquinho de hortaliça

Os sentimentos na bolha
de um embrião depositado
em quente bolsa marsupial
núpcias esquecidas
pelo desaquecimento geral
da greve do gás

Os sentimentos validados
em equação do corpo
na correcta ordem em termos
de teres e haveres
tudo guisado e desaguado
na pele do contabilista

Os sentimentos saltam à garupa
da domesticada e doce
sela turca
onde repousava solene
uma hipófise de fachada

Consulte-se a cartilha
e recorde-se ainda
pelas mesma razões indecorosas
a ausência de caroço
daquela nêspera
dura e original

Prossiga-se com a próxima
Eucaristia dominical

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Achigã

Para o Roberto Gamito


Trabalho de Max Walter Svanberg


Há um enigma suspenso
pairando sobre a descrença
de quem se debate
esse jogo de cintura
forjar ou fingir
o fôlego
respirar ao contrário
injectar abismos
nos cantos perdidos
do ângulo de visão
abrir o beco à barragem
cair a pique
planar no fundo
escapando
por uma unha negra
com um pára-quebras
chamado solidão

Há um reflexo na retina
do pescador (uma vida velha)
a obsessão pela sinalética retida:
o alegre letreiro informativo:
transgressão

terça-feira, 17 de julho de 2018

Ouvido na Consulta





Enquanto picava uma gata na radial para recolha de sangue a dona tentava amansar a sua ferinha dizendo: Vá lá, não tem mal, é o doutor, é o médico, é o médico, é o doutor, é o doutor…
E eu o tempo todo a pensar: que raio, será que me esqueci de fazer o buço?

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Tuna Metáforas


trabalho de Bas Jan Ader

A Metáfora agrícola para mim não me convém
(não me convém)
que eu não quero passar a vista
p'los tomates de ninguém

A Metáfora geométrica para mim não me convém
(não me convém)
que eu não quero ler em livros
sobre os catetos da tua mãe

A Metáfora zoológica para mim não me convém
(não me convém)
nem cavalos que me derrubem
desapareçam os asnos também

A Metáfora religiosa para mim não me convém
(não me convém)
nem reis Magos a caminho
nem sagrada família em Belém


A Metáfora fotográfica para mim não me convém
(não me convém)
pois não quero ser inundada
com o negativo de ninguém


A Metáfora histórica para mim não me convém
(não me convém)
Sebastião em nevoeiro
só um cão e quem o detém



Aiaiaiai, eu gosto da bela metáfora
quero inventá-la enquanto puder
ler  livros quando quiser