terça-feira, 28 de maio de 2019

Bicho-da-seda


Imagem de Tatiana Gulenkina


Um casulo
no ouvido
versos
suaves algodão
doido salvador
que tira o ruído
do mundo

Um bicho
eclode
no ventre
borboleta
infinita
liberdade
de voar

sábado, 18 de maio de 2019

Mandrágora




Afaga com colher
de pau afaga
o caldeirão de grainhas
o rio saltitante
desenhando vagens
na parede em frente
mapas do mundo
travessias urticárias
buganvílias invadindo
a estatuária octaviana
do jardim o musgo
o eco das pupilas
sombras verdes
penumbra intermitente
da mistela fumegante
ondas curtas quebram
pulam rangem
o longo intervalo
da espera derrete
no caldeirão afaga
onde vai desembocar
o brigadeiro da saudade
a minha mãe-d'água








quinta-feira, 16 de maio de 2019

contradomínio (censurado pelo Facebook)




Um mergulho em câmara lenta
da falésia para o mar
que entretanto recua

em baixo
nos Jerónimos
avança um ornamento branco
por entre a jeremíada colectiva
de náufragos
que vagamente ressoa
a  marcha nupcial
um jogo de linguagem
vagidos e hóstias na boca
resset de pecados:
o dote de Deus:
redenção

cortejo de futuros bêbados
gafanhotos
sapos
business as usual
um perfume torpe
costeletas de camarão
uma sucessão de proformas
convergentes minimizantes
um ornamento branco
num banquete que em vão
dará Banguecoque

na primeira noite pica-se
o ponto
um poltro articulado salta
do baú
em timelapse:
o galope da cama
o poltro a apostatar:
o seu primeiro suicídio:
iniciação de olhos borrados
ainda mal abertos






contradomínio





Um mergulho em câmara lenta
da falésia para o mar
que entretanto recua

em baixo
nos Jerónimos
avança um ornamento branco
por entre a jeremíada colectiva
de náufragos
que vagamente ressoa
a  marcha nupcial
um jogo de linguagem
vagidos e hóstias na boca
resset de pecados: 
o dote de Deus:
redenção

cortejo de futuros bêbados
gafanhotos
sapos
business as usual
um perfume torpe
costeletas de camarão
uma sucessão de proformas
convergentes minimizantes
um ornamento branco
num banquete que em vão
dará Banguecoque

na primeira noite pica-se
o ponto
um poltro articulado salta
do baú
em timelapse:
o galope da cama
o poltro a apostatar:
o seu primeiro suicídio:
iniciação de olhos borrados
ainda mal abertos







quarta-feira, 15 de maio de 2019

Uma Só Volta do Sol




É uma distopia ou é um retrato crítico dos nossos conturbados tempos? Ou uma mistura dos dois?
Esta é uma história sobre a urgência do Amor, a influência do Amor na nossa capacidade de continuação enquanto espécie neste planeta. O que acontecerá à humanidade quando deixarmos de sentir por completo?
A Mónia dá-nos um retrato de um possível futuro que já está entrando pelo nosso presente dentro, escrito de uma forma tão profunda quanto subtil, poética mesmo.
Dá vontade de continuar a ler mais, esta história tem potencial para se tornar longa. Vou ficar à espera da continuação, esperançosamente.

sábado, 11 de maio de 2019

É Tarde


Foto de Franco Rubartelli





É tarde
não tenhas medo
vais andar por cá
mais uns tempos
saboreando memórias
o passado entrelaçará
a mão ao presente
gémeos inventarão
um futuro juntos
fotocópia do filho
dos dois: uma mentira

O estrugido pegou-se
ao tacho teclando
ao telemóvel fodeste
o jantar é tarde
a dieta finalmente
tem efeitos e contudo
não trará de volta
a beleza de outrora
não há vagar
para tentativas
é demasiado tarde
os erros foram todos
testados comprovados
dissecados em divãs
pagaste caro
não importa
a janela é uma guilhotina
ameaça direita ao pescoço
é tarde e falta
a despedida ao derradeiro
amante o despertador
em breve cumprirá
a chamada
para a linha rasa
é tarde


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ainda Há Tigres na Malásia




Ainda há tigres na Malásia
em extinção claro está
é quanto basta
não estamos todos?

o que importa é
couraçar o coração
fazer pelo menos
uma viagem exótica

voltar para o café
fumegante da cozinha
adormecer esquecida
e quente na lareira
do teu colo

terça-feira, 7 de maio de 2019

finitude

Colagem de Max Bucaille



No princípio era a gota
agora inflama-se
a finitude na ponta
dos dedos
nem alívio
nem alopurinol
só a esperança
no catalogar
da morte como doença
que a medicina um dia
ainda há-de resolver