sábado, 31 de março de 2018

Mulher (i)movél

Profonde Pensée, de Camille Claudel


Mulher (i)móvel
tábua rasa
pronta a usar
onde repousa 
a mulher miniatura
sentadas duas
criaturas excêntricas
fora de esquadria
numa dupla aliança
esperam ordens
superiores do verdugo
que as manipula


Mulher aparador
onde circula conversa
de volta à partida
ponto por pequeno ponto
no nome
da mulher abreviatura
pousam nelas
metálicas avionetas
e o berlinde abafador
brinquedos do verdugo
que lhes há-de infligir
um iníquo silêncio



Mulher estatueta
o contrário da fotografia
na poltrona em frente
uma bacante em delírio
desafiadora
da mulher fotocópia
duas presas no cativeiro
de incapacidade
fruto do ventre
um tição
esse verdugo
que as irá despejar
despidas
na torrente
qual pluma ao vento










sábado, 24 de março de 2018

alerta carta

Encontro no Espaço, Edvard Munch



quando te oferecer
uma carta
desconfia
fica alerta
estarei bêbada certamente
caída em vão de escada 
possuída por algum
alienígena transviado
tu não és recebedor de banalidades
rodriguinhos delico-doces
merdas para abafar a melancolia
distrações
palavras mascadas
entre dentes
na boca de mil povos
extintos ou contemporâneos
as tagarelices e tretas do costume
mosto da solidão
fermentada
fruto do esforço
da marcha parada
de muitos pés
apenas te darei
um ou outro
poema de raiva
poema de vingança
bofetão metafórico
(aguenta aguenta)
ou alguma daquelas cambalhotas
monumentais
das que me arrancam
lágrimas de alegria profunda
e gargalhadas
palavras p'ra quê?

e tudo por dizer

segunda-feira, 19 de março de 2018

passageira




como o estrangeiro na terra de Faraó
não sou de cá
de passagem
venho
quarenta anos pelejando
contra os outros povos perdidos
sempre as mesmas ratoeiras de areia
no deserto
(duro é o calo que arranca
a nota à corda da guitarra)
como forasteira no colégio veterinário
saliente e excedentária
mais uma no conjunto de milhares
estrangeira em Trás-os-Montes
ceifada nas frágeis raízes
devolvida ao remetente
por morada desconhecida
como o penetra na terra do lisboeta
passageira
esperando o regresso de paquete
alienada
como o turista no mundo do poeta
caída de pára-quedas, em desgraça
peso quase morto
p'ra lá de pesado no mundo
das corridas do atleta
no final dessa meta
onde estivesse a terra prometida
apenas a certeza do engano
não houve milagre no mar
apenas morte
um acidente
que na família aterrou
fui sempre
de onde não sou


















Velho Amigo

"O Grito do Joker" de Ben Chen, paródia do "Grito" de Munch






Voltaste, meu velho amigo, após um considerável interregno, por alguns momentos até consegui esquecer-me de ti, confesso. Mas agora aqui estás, viçoso, forte e possante como nos bons velhos tempos, é admirável como os anos por ti não passam. Não posso dizer que tive saudades tuas, senti, porém, a tua falta, e foi de alegria a sensação que essa ausência me proporcionou. Tenho de ser sincera, pois tu tudo vês, tudo entendes, de nada adianta mentir ou ocultar. Sou transparente aos teus olhos mas também nada apresentas que eu não tenha memorizado ao pormenor. Conheço as tuas manhas, os segredos, os tiques, os truques, as hesitações, os contra golpes, os caprichos, os argumentos, as razões, os desejos. Sei a tua sombra. Acompanhas-me desde outras eras e aprendi a reconhecer-te apesar de chegares sempre com novas caras, vestindo diversos corpos, outras roupagens. É a sombra, que tudo invade, que te caracteriza.  Uma sombra que sobe por nós a cima e nos mina por dentro. Sei o teu poder. Nada sobra que me possas esconder. 
Regressas então, uma vez mais, para reinar sobre mim. Demasiadas vezes dei luta, uma vã resistência que me deixou exausta. Não vou cair nos mesmos erros. Vou evitar as estratégias que, tendo sido já experimentadas, se demonstraram infrutíferas, prejudiciais até. Espernear não posso. Terás de mim total aceitação, conivência, resignação. Não te darei as boas vindas, mentir não posso, tudo sabes, tudo vês. Não me alegrarei na tua volta. Serenamente te abraçarei, meu amigo, velho companheiro de outros dias, outras épocas. Conta-me histórias antigas, parceiro. Dá-me boas novas doutros países. Meu camarada, o Silêncio.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Amor no Forno

Ilustração de Vanessa Diniz


Hoje o jantar é Amor
assado no forno
em sangue
mal passado
portanto
com batatinhas
a murro
vai em cama
suave de verduras
aconselha-se o corte
de fatia fina
evitando assim
o enjoo
e o delírio
cai melhor em toalha
de velho linho
com guardanapos
a condizer
é self service
pois estamos
com uma baixa
no pessoal de servir

quarta-feira, 14 de março de 2018

bichinho bom



beagle caçador 
bichinho bom
e bestial
seda de caniche
sede de Chow Chow
comestível 
ao semi natural
cão de parar 
perdigueiro
galgo galopante
fugindo
lulu da pomerânia
ladrando em dialecto
fiducial
labrador recolector
deixando a meus pés
oferendas do Alasca
o malamute
dálmata de pouca pinta
daltónico para variações
de maus humores
pastor boiadeiro
perigoso pitbull 
disfarçado de persa
miniatura de farsa
pincher pruriginoso
cuidado ao pisar
toy para os amigos
rottweiler de matar






Coletânea de ridículos

Medo de morrer não sei se tenho, não me aflige muito, pelo menos. Mas há uma coisa que me atormenta: dizem que no momento final passam imagens da nossa vida como um pequeno filme, um vídeo dos melhores momentos, parece. Ora com a sorte que eu tenho, e se a coletânea de imagens minhas for a dos momentos de ridículo? Como uma espécie de anti colecção de beijos do Cinema Paraíso: todos os momentos de humilhação que passei na vida. Seria épico mas em mau.

homens florescentes




Os homens florescentes da Câmara Municipal, debaixo de densa chuva, vêm recolher o cadáver inútil de um pobre pinheiro bravo.
As amigas, rasteiras, ralham e rabujam, nervosas que estão, contra a ventania assassina e mouca.
Parecem minadas de cansaço ou caruncho, talvez até de ambos, mas a revolta fala mais alto que as raquíticas copas.
Sentem-se fustigadas pelos elementos e tentam em vão ripostar com protestos de ramos e raízes. Não baixarão os braços.

Os homens de plástico, florescentes, da Câmara Municipal munidos de moto-serras eliminam agora as sobreviventes.
Agitam-se as trombas de água, os ares e as árvores rasteiras.
Não foi sem uma pequeníssima luta que se deixaram vencer pelas moto-serras municipais. Nem tão pouco sem sede de vingança.

terça-feira, 13 de março de 2018

Lady Girl

Mulher sentada, em roupa interior, por Egon Schiele


Tomas-me (suavemente)
a ponta dos dedos
(entretanto dirigidos ao chão)
como auxílio ao impulso
das pernas
uma antes da outra
na saída do armário
rumo à claridade do dia


A luz solar
salpica os beijos
uma segunda língua
saltitando como uma aia
confidente e fiel
que se alegra
a nosso favor

Em breve
ao entrar a noite súbita
regressarei ao fundo
seco e secreto do móvel
despida de glamour
pelo meu próprio pé

sexta-feira, 2 de março de 2018

Dias de Tempestade


Mulher-vampiro, Edvard Munch


rara a semana
que não acabe em avalanche
o ruído antecede a derrocada
aviso para a fuga impossível
o corpo congela
o mundo deixa-se cair
sobre a nossa cabeça
a luz branca
a esclarecer tudo
num momento
uma vista sobre o futuro

tal como o cão
que se vai curar
com o seu  próprio pelo
a minha queda por dentro
é a sutura
retendo a montanha
que tenta desembocar
e nos esmaga e desmonta
o corpo congela
e endurece
como um fel quente
que se oferece
para amenizar
o epiléptico

dizem que há um género
de demónio
que só o jejum
há-de expulsar