sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A vida é sempre à hora certa

Relógios Derretidos (pormenor), Salvador Dali



A vida é pontual
tudo à hora certa
tão correctas as setas
as correias
do cavalo peado

piada com data
marcada a ferro
e jorro um rio
corre ritual
segue a trote
no prado circular

mais uma voltinha
mais uma viagem
carrocel caracol
gosma coragem
erro é sal

deus nos livre
guarde da vã
liberdade
horas mortas
horas vagas
vergas amestradas
que dão em livros
nas vistas longe
da retina caseira
um relógio derretido

Olhá rotina canseira!
É frutó chocolate
bolinhas
com creme ou
sem esperma
mousse treme
treme gelatina

ramerrame pastoral
abranda a corrida
desmonta carga
regressa a criatura
ao pedestal
porque a vida cega
e segue
sempre pontual

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Não sei de ti

Pintura de Emil Bisttram



O céu parecia
cinzas frescas
claras em castelo
envelhencendo
no fim
de tarde gotas
escorrendo tinta
infinitos fios 
de azeite solitários
suspensos e infindáveis
uma chuva escura
e depois
o caos estupendo
de estrelas
maduras caindo
no horizonte


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Uma bela rotina de Guilherme Tell

Judi Davis numa cena do filme de David Cronenberg: O Festim Nu



Ainda ao almoço
embala o eunuco
imaginário
a mulher-maçã
de Guilherme Tell

a rotina diária
de besta apontada
a outra vinheta
no andar de baixo

desviada a cortina
a enxorrada à solta
rompe diques
de penetração fácil

num festim nu
o arqueiro encostado
ao reposteiro
troca o alvo
diversa cona
refeição crua
e quente

ainda hoje
não morrerá
ninguém
amanhã
já parto


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Quetzalcoalt











a serpente quotidiana
ao pássaro ocioso
de plumas viradas para dentro
(o pássaro do avesso)
é preferível
cai
no regaço do usurpador
nem sempre é possível
a escolha
perante a vitória
biológica da guerra

um deus a trair o Homem é coisa
para frutificar
nos rodapés dos livros
de história
micélio milenar

o máximo do usurpador
é a invenção  da narrativa
mas vencer
nunca alterou um dedo
à verdade
e à escuridão
dos factos