segunda-feira, 30 de julho de 2018

Barlavento

Pintura de João Figueiredo


dar o corpo
dar o corpo às balas
derrames de borracha
mortíferos
bluffs intempestivos
bíblias e búfalos
os cornos espetados
nas coxas exangues
barra o vento
o corpo
barragem de sabão
bolhinhas e bolhinhas de veneno
à bolina a barca
do inferno as crónicas
em prestações

dar o corpo
dar o corpo à queda
com estrondo
amparar o fim da festa
salvar uma réstia
de suavidade última
suspiro e suor
os braços cravados
cravinho especiarias várias
o chão alagado em hematomas

coser a boca à musa
impôr-lhe a sapo-condição
regredir encolher
num último caso
receber
recados de uma puta mansa
por obséquio
digestão e manta


Slogan


escultura de cerâmica de Ken Price

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

domingo, 29 de julho de 2018

o barbeiro faz barba a si próprio


Pintura de Gustav Klimt


a amante é uma mulher
que se deixa humilhar

saber se há mais-valia
ou prejuízo
no processo
só ela o avalia
como o médico que tira o pulso a si mesmo
o juiz em causa própria
ou o barbeiro
que faz a sua barba
e no espelho recebe
o reflexo da medida da grandeza
do olhar do outro

a amante é uma mulher
que se deixa emudecer
e mede as perdas
os ganhos
os tralhos
os bugalhos
pelo método das temperaturas
haja humidade

sábado, 28 de julho de 2018

Passerele

Trabalho de Alana Aldridge



Os sentimentos soterrados
num cardume de avalanches
de palavras
quanto consolo rentabilizado

Os sentimentos na passerele
um desfile de misses em biquíni
quanta elegância calculada
quanto empenho
engenho
arte
e o raio
que o parta

Os sentimentos nos botões
do casaquinho assertoado
rente ao corpo
todo manufacturado
um brinquinho de hortaliça

Os sentimentos na bolha
de um embrião depositado
em quente bolsa marsupial
núpcias esquecidas
pelo desaquecimento geral
da greve do gás

Os sentimentos validados
em equação do corpo
na correcta ordem em termos
de teres e haveres
tudo guisado e desaguado
na pele do contabilista

Os sentimentos saltam à garupa
da domesticada e doce
sela turca
onde repousava solene
uma hipófise de fachada

Consulte-se a cartilha
e recorde-se ainda
pelas mesma razões indecorosas
a ausência de caroço
daquela nêspera
dura e original

Prossiga-se com a próxima
Eucaristia dominical

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Achigã

Para o Roberto Gamito


Trabalho de Max Walter Svanberg


Há um enigma suspenso
pairando sobre a descrença
de quem se debate
esse jogo de cintura
forjar ou fingir
o fôlego
respirar ao contrário
injectar abismos
nos cantos perdidos
do ângulo de visão
abrir o beco à barragem
cair a pique
planar no fundo
escapando
por uma unha negra
com um pára-quebras
chamado solidão

Há um reflexo na retina
do pescador (uma vida velha)
a obsessão pela sinalética retida:
o alegre letreiro informativo:
transgressão

terça-feira, 17 de julho de 2018

Ouvido na Consulta





Enquanto picava uma gata na radial para recolha de sangue a dona tentava amansar a sua ferinha dizendo: Vá lá, não tem mal, é o doutor, é o médico, é o médico, é o doutor, é o doutor…
E eu o tempo todo a pensar: que raio, será que me esqueci de fazer o buço?

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Tuna Metáforas


trabalho de Bas Jan Ader

A Metáfora agrícola para mim não me convém
(não me convém)
que eu não quero passar a vista
p'los tomates de ninguém

A Metáfora geométrica para mim não me convém
(não me convém)
que eu não quero ler em livros
sobre os catetos da tua mãe

A Metáfora zoológica para mim não me convém
(não me convém)
nem cavalos que me derrubem
desapareçam os asnos também

A Metáfora religiosa para mim não me convém
(não me convém)
nem reis Magos a caminho
nem sagrada família em Belém


A Metáfora fotográfica para mim não me convém
(não me convém)
pois não quero ser inundada
com o negativo de ninguém


A Metáfora histórica para mim não me convém
(não me convém)
Sebastião em nevoeiro
só um cão e quem o detém



Aiaiaiai, eu gosto da bela metáfora
quero inventá-la enquanto puder
ler  livros quando quiser



água oxigenada




Há quem use as palavras
como água oxigenada em feridas,
um engano
traduzido em atraso
da regeneração dos tecidos.

O silêncio, esse verdadeiro
cicatrizante.

a carne nunca


trabalho de Robert Beatty
 
não sou um ser de luz
sou feita de sangue e defeitos
por isso gosto
do bife mal passado
(é a autofagia dos genes)

no entanto
se houvesse um botão
que abolisse do mundo
os matadouros
não hesitaria
um segundo
mudar o Planeta Azul para
Planeta Caldo Verde
Sem Chouriço
até lá: Posta Mirandesa
na mesa
com certeza
posso ser fraca
a carne nunca

quarta-feira, 11 de julho de 2018

o funcionário matrimonial



chego sempre uns minutos
antes do tempo
quase raia o obsessivo
atrapalha o serviço
é mais forte que eu
o período da manhã
o mais calmo
o expediente bastante leve
os ânimos  serenados
denunciam apenas
uma ramela ou outra
febre dos fenos
tudo dentro da normalidade
deito uma espreitadela
à janela pelo rabo do olho
fraca agitação
mal me dou conta
chega o almoço convívio
o pão nosso de cada
mentira


a seguir à refeição
vem-me a traçã costumeira
passo pelas brasas discretamente
nunca fiando completamente
na modorra
benigna dos intervalos
afiambro-me à lancheira
se faz trovões é lá fora
que se dane o dia
se o bulício da cidade
interrompe a rotina
defensiva do quotidiano
que se lixe a taça
nada que não se resolva
com um breve despacho
ordinário sulfuroso
está feita a jorna
espeto uma última peta
o amor é labuta

à noite o leito é morno
em lençóis oficiais
separados

espero quinze dias de férias
merecidamente gozados
com uma ou outra corista
abençoado emprego
um lavor pra toda a vida



Poema Chiclete



mastiga a metáfora mastiga
mastiga 
a chiclete
de um poema que promete
mastiga mete fora
sem demora
se devora
se derrete

Leopardo

Ele: o Leopardo não muda as suas pintas.
Ela: por que raio deveria o Leopardo mudar as putas das pintas?
Ele: lá estás tu a meter a Poesia em tudo.

mania de cão

Illustrations by Roberto Paez for Don Quixote (Buenos Aires, 1969)
Title: Don Quixote



mania de cão
esfregar o nariz esquimó
na tua cola
confundida
entre princípio e fim
(cabeça e cauda)
da reciprocidade
não vi os sinais
de trânsito proibido
obras em curso
lomba ou depressão
descida perigosa
para homens de pouca fé
abalroou-me essa teimosia
ou realismo mágico de vice versa
mesmo com bermas baixas
há-de haver sempre
uma passagem
uma pista obrigatória
para peões
não para mim
mania de cão
com pulgas ainda por cima
a marcar o sonho como território
sem bravura sem bravecto
à revelia dos vertebrados
salvé alegria
ensalivada até ao osso
mania de cão
o trânsito interrompido
o nariz segue
do sangue o rasto


intervalo



penso
apenas existo
no intervalo
dos teus dias

terça-feira, 10 de julho de 2018

hipocrisia e marmelada

Imagem do deserto do Sahara, Argélia




nada me move
contra a hipocrisia
(essa marmelada
ligeiramente ácida
de fácil digestão)
de segunda a sábado
mas aos domingos
até Deus descansou
da dissimulação
de ter criado um mundo
aparentemente vivo
e que mais não é
que uma bola gigante
a morrer
enjoadamente
num fogo
lento

sábado, 7 de julho de 2018

o primeiro mestre

Os olhos do gato, Moebius




quando o mestre
é manso
o monstro
mais que ensinamentos
dispara
uma sábia fixação
pelas entranhas dos animais
dádiva ou dúvida
doidice
como um contágio
um cancro que não pára
o vício do corte
menor que o desejo da sutura
tudo o que nos vem
é involuntário
da sua parte
absorvemos com avidez
são só entranhas de animais
ainda assim é tanto
quando o monstro
é mestre
o manso
é irrelevante
agradecer

o pequeno sírio e eu, ao longe uma bela paisagem de oliveiras




encontrava-me no telhado
como o pequeno sírio
só caracóis e curtumes
à ventania
eram viçosas as oliveiras
o sorriso do pequeno sírio
elevava a cena
a uma potencial mona lisa
ó que bela paisagem de oliveiras

desejo caridoso

Queria tanto que deixasses de ser infeliz... que morresses, portanto.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Recordação vaga da Canção de Lisboa do Jorge Palma




enfia a cabeça na areia
movediça a moça
a saia uma cambraia
explícita
escolhida pela abelha
rainha
fica tudo em família
debaixo de renda
da toalha de mesa
uma risota presa
por cima de um risotto
gourmet
les escargots
escorregam na garganta
como ginjas
tudo a armar ao pingarelho
lidando o flash
das fotografias
como se fora um touro
em pontas
acontece muito
fintar a queda
quando se xuta com o pé
que se tem mais à mão
ao romper da aurora
recebendo as primeiras
lambidelas de luz
torna-se ainda cedo para falar
de sentimentos

quinta-feira, 5 de julho de 2018

the silence of the lambs




não compro borrego
como-o amiúde
saboroso
à mesa da minha mãe
o cheiro a bedum
do sebo nos dedos
pica-me a consciência
como se de sangue sujo
se tratasse
vou-me assim corrompendo
no aconchego do bom
ambiente familiar
segundo a lei dos homens
seguindo a maioria
silenciosa
condenada
aparentemente feliz

Da Ciência à Literatura

Fui da Ciência à Literatura: os poetas fazem-me melhor que os médicos.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

o tempo é um fósforo que já se apagou

Comet C/2009 R1 McNaught
June 10 2010 UT 00h30m

Fotografia de Gerald Rhemann




uma fome que abafa todas as fomes

um dia que não se reproduz

a mesa ficou posta para os lugares vazios

duas travessas arrefecem na toalha florida

já não há metáforas

o sal entornou

tombou o copo de vinho da mercearia da esquina

a memória deslocalizada nas mãos para maior eficiência

um sol que foge do dia aflito

o refugiado da noite

o tempo é um fósforo que já se apagou

em frente o mar