quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Perdão

Out of Context, John Clang



O erro é inerente ao risco.
O perigo de um perdão falhado é manter-nos acordados à noite.
Estamos seguros da bondade do acto e no entanto as consequências foram urticantes.
Mais para nós ainda que também para o receptor.
Pedir perdão pelas consequências é traição à pureza das intenções. É gentil frieza, etiqueta calculista.
No entanto a pergunta continua a rodar: o que farias se pudesses voltar atrás?
Não há ingratidão maior que a dos bons propósitos.
Por isso se inventaram os soporíferos.


Guaraná por vinho

Fotografia de Guy Bourdain



a consulta de empregos
resulta sempre
para o buquet de flores
em cima da mesa
a procrastinação
o perfume flutua pela sala
o sangue espraia-se no chão
o ar corrompe-se de entrelinhas
a festa teima em terminar
na fornalha da noite

e tu encostas o tronco no poste
da paragem de autocarro
quase vencido do frio da chuva
do guaraná que fez as vezes de vinho
não há mais nada
senão o início da manhã
que ainda não veio

tentas pedir perdão insincero
mas a delicadeza rende-se
à brutalidade da lógica



quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Vanilla Sky

Penelope Cruz numa cena do filme Vanilla Sky



era eu
quer-me parecer
a guiar o sonho
sobre rodas
em cima o céu
de Monet

a tua boca  de boas
vindas delimitando
um sorriso líquido
de refrigeração

à saída do parto
estavas lá
lembrei-me mais tarde

estavas lá no início
ao abrir dos olhos
do meu modelo
tridimensional

sob o céu de baunilha
derramando um pudim
de leite condensado
rumo ao sonho lúcido

a tua boca a morder
o meu suporte
técnico o sorriso
delimitado
lembro-me sempre


eu a guiar o carro
nesse sonho acordado
patinando sobre
as nuvens de Monet

o sonho inventando
da vida a sua extensão
a tua boca o melhor
suporte técnico

há todo esse modelo
psicadélico
a saltar com fé
do terraço
e agora não vai
ser preciso acordar








Uma Gripe Espanhola, Uma Pneumonia Chinesa e uma Leptospirose Havaiana Entram num Bar






Fez-se ao mundo
o influenza de ferro
o braço
com a Grande Guerra
quem leva mais almas
olé olé
o primeiro a tourear
em Zanzibar

coronabicho
pede cerveja
estávamos
mesmo a pedi-la
no caldeirão
da tortura sangue
e carne mistura
excrementada
pra servir canapés
à entrada do chao min
agora sopra na máscara
na maca da quarentena
expira bem inspira
o pico há-de vir
na primavera

no Havai morrem
do fígado aos magotes
por manjar a leptospira
ainda que haja
tratamento e vacina
aloha


















quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

MENSAGEM VARIÁVEL











PORTUGAL CHAMA
MÁQUINAS NO CAMPO
PERIGO MÁXIMO



Máximo máquinas
Perigo chama
Portugal no Campo

No Campo perigo
Chama máquinas
Portugal no máximo

Máquinas Campo
Chama máximo
Portugal no perigo

Campo máximo
Chama perigo
Portugal nas máquinas

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

AS DUAS SENHORAS


Parque Municipal Quinta do Pêgo Longo, Belas



Tenho duas senhoras na vida. Na verdade não as conheço, apenas existem como personagens, habitantes da minha história. Vejo-as todos os dias enquanto conduzo.
Saio de manhã do local onde moro em direção ao sítio do trabalho.
A minha Senhora nº 1, peço desculpa por tratá-la de forma tão impessoal, desconheço o seu nome, passa por mim quase no início do percurso matinal. Está a chegar a Carnaxide. Como não tenho horários fixos, parto com vários minutos de diferença a cada dia e assim, cruzando-me com ela mais adiante, já pude concluir que vem dos arredores de Valejas. Sou testemunha de que percorre, bem cedo, cerca de dois quilómetros a pé.
Quando volto para o almoço passo pela senhora nº 1 em sentido contrário. Também ela deve ir fazer a sua refeição a casa, neste caso percorrendo a distância a penantes. O que terá feito toda a manhã?
É uma mulher dos seus sessenta e tal anos, muito elegante, diria até escultural, de forma surpreendente para a idade que aparenta. Veste a maior parte das vezes calças de licra que lhe caem excepcionalmente bem. Se não lhe víssemos a cara facilmente imaginaríamos estar em presença de uma moça de trinta anos no máximo. E que elegância no trajar, no calçado de boa qualidade, no chapéu a condizer, dá gosto apreciá-la. A cabeleira branca vem sempre bem penteada, por vezes apanhada num puxinho que consegue manter, sabe-se lá com que truque, em simultâneo com o chapéu. Se fosse mais alta faria lembrar uma princesa inglesa a caminho do Royal Ascot para ver correr o seu cavalo favorito, um mimo. Reparo que na maioria das vezes vai a falar sozinha, muito direita e decidida.
Perto do meu destino, no início de mais uma jornada de trabalho encontro a Senhora nº 2 calcorreando o passeio que liga Belas a Queluz. Lamento mais uma vez não poder nomeá-la.  
A Senhora nº 2 é a antítese da Senhora nº1 tirando o factor idade, que não deve divergir muito numa e noutra, e a constância na rotina pedestre. Esta é roliça e pouco cuidada no cabelo e na toilette. Calha até a envergar, amiúde, calças de padrão garrido com camisolas de riscas com cores divergentes, sempre com aspecto enxolhado. Hoje vinha de croques debruadas a material felpudo. Eu até já tive umas parecidas, bem quentinhas, mas nem de pistola apontada me apanhariam na rua com aquilo. Ela lá vai, de saco ecológico para compras, de xadrez azul, vermelho e branco na mão, com passo pequeno e olhar triste pela rua fora, faça chuva ou faça sol. Cheguei a vê-la já depois do Pendão como quem vai para os Quatro Caminhos, quase a cinco quilómetros e fico a pensar porque irá tão longe fazer as compras. 
Quando saio para o almoço já a tenho reencontrado no regresso a Belas e deito-me a imaginar que transações terá efectuado que demorassem mais de 3 horas cabendo depois num saco que nem sequer é grande nem denuncia vir muito cheio. Terá talvez ficado entretida a dar à língua com as vendedoras do mercado, que entretanto, não localizo na área do meu trajecto rodoviário. Será assunto de calças? Mas porque virá então com o mesmo olhar vazio e sombrio? Não deveria reaparecer sorrindo e florescendo? Porque não adquire mantimentos para dois dias, folgando nos intervalos da feira? Porque não tem o corpo tão ou mais esbelto que a Senhora nº 1 que não chega a palmilhar tamanha distância?
O que fará com o resto do dia?  Rende-se ao sofá sem mais se mexer? Come bombons pela noite fora?
E a Senhora nº 1, a que actividades se entrega quando chega por fim a casa?
E mais perguntas me assolam, umas atrás das outras, apoquentando-me, instigando-me a solucionar os mistérios destas duas senhoras, sem ter meios para o lograr, sem me darem tréguas. Como se chamam? Têm família, filhos, netos, animais de estimação, reformas pequenas, máquinas de costura, libído? De qual eu gosto mais? Em qual das duas me transformarei daqui a uma escassa década? Terei um olhar melancólico, falarei sozinha alegre e com determinação? 

E perguntar-lhes o nome, serei, algum dia, capaz?


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Júlia possui uma arma




Um cano
de revólver fareja
açulado cada recanto
no silêncio insano
do gabinete

um cano
de revólver ausculta
imparável os sinais
vitais do corpo
a abater

um cano
de revólver ordena
ao cão o cumprimento
da imperiosa
missão


grita ao alvo
o peito explode

um cano
de revólver fumega
saboreia o pós-acto
deitado no conforto
da alcatifa

um cano
de revólver alegará
demência temporária
já se vê triunfante
inocentado






quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Meias que Matam

Ilustração de Hannes Bok



Ó poeta
as meias matam
cuidado
estão vivas
matam pateta

as meias lavadas
num monte imundo
de peças
desirmanadas
da mesma cor
meu amor
em cima da mesa
para dobrar
um cabo de
tormentas


um anti-puzzle
pequenos pedaços
matadores
profissionais
por monotonia
locomotiva
miniatura lança
no ar um spray
amoricída
cuidado matam
ó pateta


as meias matam
poeta
estrangulam asas
asfixiam marchas
tortuosas gravatas
aneurismas garrotes
o triunfo
da insignificância

um polvo de pés
amarrado à cabeça
cuidado pateta
mata
melhor fugir
poeta escapa