quinta-feira, 24 de maio de 2018

Jesus e os Joelhos




Olho os joelhos de Jesus
na pequena capela
do cemitério modesto
com casa de banho pública, muito útil,
pouco comum.
(costumo frequentar os cemitérios)

Nos epitáfios inscreve-se a nossa humanidade,
o que nos distingue dos outros animais.
Não apreciamos a designação "outros animais".
Queremos mais.
Nunca nos contentámos com o nosso desígnio.

Por isso creio nos joelhos de Jesus
enquanto metáfora possível
da pequena história comum,
a nossa dor colectiva.

A minha casa de sonho partilha o muro
com o melhor cemitério.
É o cemitério mais belo da Terra.
A casa parece abandonada.
Gosto de pensar que me espera
com o ardor
de quem quer regressar
ao mundo dos vivos.

A Morte ameniza a maldade dos homens.
Torna-os amáveis.
(será essa a sua benigna intenção?)
Daí encontrarmos nos cemitérios
os melhores vizinhos.
Fazem-nos boa companhia,
com as suas breves palavras,
enquanto aprendemos a amar
os vivos.
Os vivos têm muita dificuldade
em deixar-se amar.


Olho o sangue pisado dos joelhos
de Jesus
pregado na cruz,
lembra-me o quarto na penumbra
onde tento, por vezes,
esconder o meu corpo exposto.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

os astros são umas bestas




Sistema Solar




cavalos desembestados
desalinham-se 
nas suas translações desenfreadas
trocam-nos as voltas
em teimosas órbitas
revolucionárias


e por vezes no decurso de um milénio
lá se ajustam 
em favorável posição 
premonitória
durante o nano segundo
da nossa pequena distração

sexta-feira, 11 de maio de 2018

quando o amor vai à máquina




que não haja dúvidas
o poeta é cerebral
sabe usar a pistola
amputar pernas
para sobreviver
compreende bem
as conveniências
dos favores sem fervores
que raramente se encontram
a não ser na prostuição
e que os preços seguem
a lei da oferta e da procura
e por isso não hão-de ser
nem muito caros nem
muito baratos
o poeta descobriu recentemente que
quando o amor vai à máquina
encolhe
excepto no programa das lãs

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Não há palavras

Cristais de estruvite na urina




há bolas de espuma
contra paredes de lama
pulguinhas anémicas
a chupar macacos raquíticos
cristais de estruvite
a roçar as vias urinárias
pequenos e herméticos ataúdes
hérnias imaginárias
cordas de vime
a beijar pescoços condenados
a mão que embala
o lombardo na salsicha
gotas de chuva ácida
a brotar a urticária da face
pó de vidro
a condimentar a sopa
a cacofonia das entranhas
desavindas
o lacrau à espera do pé
que vai calçar a bota
a razão do medo
palavras
joelhos floridos de hematomas
no amparo da queda
o chão molhado
os prémios da feira
sempre que acertavas no alvo
à espera o teu sorriso
atrás da porta
palavras não há
há corações fumegantes
após a matança
o ego a insuflar
roupas espalhadas na cama
areia salgada pelas ondas
montanhas em descanso
após a avalanche
serigrafias  de marionetas
por cima do sofá da sala
garrafas de cerveja artesanal
a  mitigar o gemido
na garganta
cartazes de festivais de cinema
alternativo
farol seco na noite
fígado cansado do gelo
não há palavras
há figueiras carregadas do fruto
mel que se derrama no mármore
fogos que alastram sôfregos
testamentos futuros
que jamais serão abertos
bocas suspensas numa prece
realejos espreguiçando uma canção
sopa de abóbora a arrefecer
na mesa do canto
os teus dedos 
nus meus dentes
nunca haverá palavras










terça-feira, 8 de maio de 2018

embrião

Daughters Embryonic State: Rubbing Eyes
Robert Gadreau

Vejo-te com os meus olhos de cinco minutos de vida
olhos embrionários
sem filtros
que se vão esvair em água à primeira maré de lágrimas
olhos rasos de incertezas
olhos pretos com o cordão umbilical ligado ao mundo das sombras
a tua cara fecha-se
a boca um corvo vermelho furioso
a fugir para longe
a voz é um vento a fustigar-me os cabelos
o meu corpo bate em retirada até à toca de fantasma
os braços a enrolarem-se nas pernas a enrolarem-se no peito
a fumegar fumo espesso e negro a correr veloz dali para fora
para ir desnascer na toca de fantasma
fui

Poema Fácil

Misterioso, Janina Suuronen

deixa-se montar
prontamente
quando lhe saltam à garupa fácil
e se instalam confortáveis
no lombo fácil
abre a boca
se lhe apontam uma cenoura
ao chanfro fácil
mas no momento de espetar
esporas cruas
incoerentes
no flanco fácil
o poema empina
e vai no galope
(mais uma corrida
mais uma viagem)
do fácil ao impossível

terça-feira, 1 de maio de 2018

soldado de chumbo


"Gogh All The Way", de Lesley Spanos


por deus
por cem soldos
um soldado de chumbo
por cem soldos
neste mundo
não há amor
para desperdiçar
um soldado rijo
à vontade todo
para mim
uma só hora para viver
quem não quer
apenas mais uma hora
unhas nas costas
cravadas
pequenas espadas
foçando no soldado
espetando os quadris
a favor do pelotão
esse cavalgar enviesado
o respigar da marmita
uma mulher embrulhada
em papel de prata
a vida toda numa hora
antes de bater a bota
aquela sede que os sacode
é o sabre que os separa