sábado, 18 de maio de 2019

Mandrágora




Afaga com colher
de pau afaga
o caldeirão de grainhas
o rio saltitante
desenhando vagens
na parede em frente
mapas do mundo
travessias urticárias
buganvílias invadindo
a estatuária octaviana
do jardim o musgo
o eco das pupilas
sombras verdes
penumbra intermitente
da mistela fumegante
ondas curtas quebram
pulam rangem
o longo intervalo
da espera derrete
no caldeirão afaga
onde vai desembocar
o brigadeiro da saudade
a minha mãe-d'água








quinta-feira, 16 de maio de 2019

contradomínio (censurado pelo Facebook)




Um mergulho em câmara lenta
da falésia para o mar
que entretanto recua

em baixo
nos Jerónimos
avança um ornamento branco
por entre a jeremíada colectiva
de náufragos
que vagamente ressoa
a  marcha nupcial
um jogo de linguagem
vagidos e hóstias na boca
resset de pecados:
o dote de Deus:
redenção

cortejo de futuros bêbados
gafanhotos
sapos
business as usual
um perfume torpe
costeletas de camarão
uma sucessão de proformas
convergentes minimizantes
um ornamento branco
num banquete que em vão
dará Banguecoque

na primeira noite pica-se
o ponto
um poltro articulado salta
do baú
em timelapse:
o galope da cama
o poltro a apostatar:
o seu primeiro suicídio:
iniciação de olhos borrados
ainda mal abertos






contradomínio





Um mergulho em câmara lenta
da falésia para o mar
que entretanto recua

em baixo
nos Jerónimos
avança um ornamento branco
por entre a jeremíada colectiva
de náufragos
que vagamente ressoa
a  marcha nupcial
um jogo de linguagem
vagidos e hóstias na boca
resset de pecados: 
o dote de Deus:
redenção

cortejo de futuros bêbados
gafanhotos
sapos
business as usual
um perfume torpe
costeletas de camarão
uma sucessão de proformas
convergentes minimizantes
um ornamento branco
num banquete que em vão
dará Banguecoque

na primeira noite pica-se
o ponto
um poltro articulado salta
do baú
em timelapse:
o galope da cama
o poltro a apostatar:
o seu primeiro suicídio:
iniciação de olhos borrados
ainda mal abertos







quarta-feira, 15 de maio de 2019

Uma Só Volta do Sol




É uma distopia ou é um retrato crítico dos nossos conturbados tempos? Ou uma mistura dos dois?
Esta é uma história sobre a urgência do Amor, a influência do Amor na nossa capacidade de continuação enquanto espécie neste planeta. O que acontecerá à humanidade quando deixarmos de sentir por completo?
A Mónia dá-nos um retrato de um possível futuro que já está entrando pelo nosso presente dentro, escrito de uma forma tão profunda quanto subtil, poética mesmo.
Dá vontade de continuar a ler mais, esta história tem potencial para se tornar longa. Vou ficar à espera da continuação, esperançosamente.

sábado, 11 de maio de 2019

É Tarde


Foto de Franco Rubartelli





É tarde
não tenhas medo
vais andar por cá
mais uns tempos
saboreando memórias
o passado entrelaçará a mão
ao presente: gémeos
inventarão um futuro juntos
fotocópia do filho
dos dois: uma mentira

O estrugido pegou-se
ao tacho teclando
ao telemóvel fodeste
o jantar é tarde
a dieta finalmente
tem efeitos e contudo
não trará de volta
a beleza de outrora
não há vagar
para tentativas
é demasiado tarde
os erros foram todos
testados comprovados
dissecados em divãs
pagaste caro
não importa
a janela é uma guilhotina
ameaça direita ao pescoço
é tarde e falta
a despedida ao derradeiro
amante
o despertador em breve
cumprirá a chamada
para a linha rasa
é tarde


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ainda Há Tigres na Malásia




Ainda há tigres na Malásia
em extinção claro está
é quanto basta
não estamos todos?
o que importa é couraçar
o coração
fazer pelo menos
uma viagem exótica
e voltar para o café fumegante
da cozinha
adormecer esquecida e quente
da lareira do teu colo

terça-feira, 7 de maio de 2019

finitude

Colagem de Max Bucaille



No princípio era a gota
agora inflama-se a finitude
na ponta dos dedos
nem alívio nem alopurinol
só a esperança no catalogar
da morte como doença
que a medicina um dia
ainda há-de resolver

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Vanitas

"Still Life With a Skull and a Writing Quill", pintura de Pieter Claesz



O vapor de água sempre
foi a melhor cortina
tapar sem fumo é superior
 à simples espera de um olhar
precrustante a antevisão
do que está por vir
tudo o que não sei
já tenho imaginado
o espectaculo é
um grande limão solitário
onde as guitarras gemem
contra veias e ampulhetas
a bolha um destes dias
rebenta


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Insónia

Imagem de 1973, do filme animado francês, La Planète sauvage
 (Fantastic Planet), realizado por René Laloux.




Paredes ao alto
aceso um chibo
a dançar na noite
contra os vidros
trémulos mil
milhafres fluídos
atrapalhando-se
nos estores
de fúria

frágil o dique
rebenta o aneurisma
minotauros à solta
correndo contrários
aos ponteiros do relógio
na fome sinistra
de chegar primeiro
a destino nenhum

no final
de ferir o céu
e abalar a terra
um silêncio
que fulmina
um anátema

conto sílabas
como carneiros
engomo frases
junto ao colarinho
sinto o pulso
à carótida o teu
ritmo






terça-feira, 16 de abril de 2019

categórica



durou um inverno só
a colecção memorial
de altos cedros
e baixos nomes

agora
antes da saliva o som
comove-me a descrição
da zona franca nativa
a palavra donairosa
o arremesso da voz
reverberando
contra o peito
uma palavra categórica
eis a questão
penso insisto
no discurso
desbravando cornucópias
ao toque de uma geometria
descritiva audível
variante do vocábulo singular
a palavra detonada
o arremesso da voz

depois
o silêncio
tradução de Aquiles
quase flecha
uma incapacidade
na queda
um calcanhar







domingo, 14 de abril de 2019

Impedância


Fotografia de Francesca Woodman




Toda a constrição
tem o seu cataclismo
a sua fuga em alvoroço
remorsos obsoletos
impedância por oposição
dizia naquele tempo
o rosto calafetado
por cada ponto de confluência
sangue em derrame
na corrente desenfreada
o rio que tudo alaga em verde
musgo no fundo de olhos puros
depois no intervalo do espanto
descobre-se a descida
ao poço de algemas
pulsantes sobre um chão
de mescal e miosótis
onde reina impávida
e severa a besta
adormecida e castigadora
vai fazer pesar um excesso algas
nas cavalgadas noturnas
cordas extensas
rasteiras plenas
travões
o rosto
desistindo da descolagem
o seu último desígnio

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Tangente de Declive Mínimo


Guadi, Barcelona: A Sagrada Família




a infinita ironia de um nome
nas borras do café curto
corço de cascos barrocos
polvilhado de açúcar
num templo expiatório
de pináculos jesuítas
a respiração nos mínimos
o raspar dos cascos no chão
recebendo os vapores
da lixívia que viaja
da sanita aos mármores
a mão mergulhada em grão
frescos no tecto
um leito de rio seco
sob uma nesga de céu
musgos nas alpondras
e um ranger de cintura
sobre o silêncio imaculado
da cama nada a dizer
o tempo condensava-se
nas paredes
da Sagrada Família
apenas a magra abside
e a infinita ironia de um nome




sábado, 30 de março de 2019

Inequação




Um jardim a incendiar atalhos
no banco acanhado
sob o céu público

árvores avaras
de esconderijo escassas
olhares sub-reptícios
um alongamento vertical
quando o mundo ameaça acabar
num ápice
a pele desadequada garrota
o membro urgente
e o tempo coagula por inteiro
na espera alucinada
o flagrante delito  prestes
a desnudar-se
na espera  a pele árida
congela de medo
os olhares cortantes
o mundo prestes a terminar
o céu a ameaçar incêndios
o banco acanhado a girar
o alongamento vertical
traindo a frequência do pêndulo
pulsação exponencial
num ritmo preso
as minhas mãos terapêuticas
libertam por fim a pele
desadequada
o céu já flui na tarde longa
o vento curativo apaga a luz
o mundo ainda tentando acabar
numa profecia mal cumprida
o mundo a forçar o fim
no banco acanhado de jardim
o mundo a borrifar-se
no festina lente







sexta-feira, 29 de março de 2019

Assimptota

Foto de Jon Tyson no Unsplash






Quantas vezes falhaste
tentando dissecar
a raiz de uma ideia
as vezes que glorificaste
a queda no fosso banal:
uma humilhação épica

Se pudesses ao menos
parar a travessia
dessa velha estrada

Uma rajada de vento
põe a nu um homem a menos
junto aos alicerces da cidade
devorada pelo fogo
distingue-se claramente
a sucessão central
no pelotão da frente
calha a ser uma baixa
na listagem masculina
um curto saque
um fruto falso
um golpe fundo
na bissetriz do conto clássico
entornado numa escola
de intervalos

Os poemas incomunicáveis

E tudo o que deixaste a fermentar
não passou de pão de sofrimento
tábula rasa
que se foi inundando
por cálculos errados
à hora certa
convertidos em estatística
de pequenos números
uma pedrada no caos
uma abstração puída
três impiedades
idolatria
e trinta cartas de volta
um volte-face
coisas vãs
calvário
à saída ao arraial
ferrão
tombo final
parágrafo

Talvez um dia
perto do infinito
se desfaça o desencontro                             
batia o meio-dia
e picos
um nada ficou
como Dante
Deus o tenha
entre tantos
























quinta-feira, 28 de março de 2019

Cinemática

Pintura de Leonora Carrington



Um homem a cavalo
há-de parecer
sempre
um herói o homem
a cavalo pode ser
um macho efémero
o anti homem-elefante
o homem-bode
até fazer vibrar a boca
numa catarata
de blasfémias
ex-herói
o homem-boi
as palavras inundam as máscaras
rasgando os disfarces
à bela e clássica maneira
de Agatha Christie
o homem fácil
do herói sobrou apenas
uma montanha cevada
a feromonas
as palavras deflagram
a jugular ao cavalo
mas o corpo  não vê para além
da inocência do corpo
jura em vão renunciar à subida
no exacto momento do declínio
de Sísifo a vocação
aos solavancos
demora sempre
profeticamente
uns parcos meses




terça-feira, 19 de março de 2019

Matadouro 5




De Lot lembramos
a mulher volúvel
que ousa olhar para trás
e vê a centopeia fatiada
de todos os momentos
no tempo

A mulher de Lot
visita regularmente
as crianças cruzando
as trevas a caminho
de Jerusalém

O nome da mulher
de Lot não faz
parte da história
ela é coluna de sal
conserva na pupila
a imagem da cidade
destruida pela chuva
de enxofre e fogo
decisão dos céus

só a eloquência do sal
pode dizer o silêncio
da cidade arrasada
pelo livre arbítrio
terreno
esse braço de ferro ganho
pela imaginação do Homem

A mulher de Lot
senta-se à porta da cidade
sente o cheiro a rosas
e a gás mostarda
ouve a conversa cristalina
dos pássaros
coluna de sal
é uma mulher-memória


sexta-feira, 15 de março de 2019

confessionário





O poema tudo acolhe
o desabafo do trolha
a locução do talhante
o deslize obsceno da beata
o transe do amante ocasional
a preguiça do poeta ocioso

tudo lhe vem ao seio
tudo lhe vai à boca
de cena e escorre

quinta-feira, 14 de março de 2019

Espaço Cidadão




D. Júlia faz o gosto ao dedo
e mostra o pulso na cadeira
do seu compasso de espera
frente à segurança social
doí-lhe como um raio
irradia
a descascar metáforas
ou manejando a panela de pressão
braço acima ombro arcaico
baço resmungando
o diapasão de um carapau médio
enterrado na goela obrigara
a visita ao Santa Maria
médicos avisados
dão-se ao luxo no Hospital da Luz
onde a conta é preço certo
e anda pela hora da morte
adiada ufa ainda não foi desta
os números deslizam devagar
as senhas progridem
no trajeto da obviedade
passa uma jovem moça inquieta
é jornalista Júlia avança
do desporto e das bonitas
que hoje em dia até essas
são inteligentes
mudado que tudo está
Salazar vem à baila
raro o português que não carregue
às costas o passado

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Poesia





A poesia não conta histórias
não deslinda mistérios
antes tenta espalhar
pequenos recados
que fluem
na sombra projectada
no intervalo das palavras
como  as tenras crianças
em sala de aula
com os seus bilhetes passados
por baixo das carteiras

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Ponte levadiça





Uma Arquitectura da densidade, fotografia de Michael Wolf


Abundam no mundo
os muros
abusos claros
murros clandestinos
chegados a este ponto
trabalha a báscula
da ponte levadiça
reinventa Heraclito
o movimento vertical do ferro
sobre a água
apontando ao céu
a destruição dos caminhos
a muralha que se auto-regenera
em frente ao fosso atónito
e fica-se órfão de casa
braços e pernas arredados
das veredas
e fica-se órfão de cidade
dão de si os machados
enterrados na espera
e fica-se órfão de conterrâneos
órfão de estradas
órfão de bússola
um mundo insuspeito
suspenso

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A vida é sempre à hora certa

Relógios Derretidos (pormenor), Salvador Dali



A vida é pontual
tudo à hora certa
tão correctas espertas
as correias
do cavalo peado
piada com hora marcada
a ferro e jorro
um pequeno rio
corre pontual
e segue a trote
no prado circular
mais uma voltinha
mais uma viagem
carrocel caracol
gosma coragem
erro é sal

deus nos livre e guarde
da vã liberdade
horas mortas
horas vagas
vergas amestradas
que dão em livros
que dão nas vistas
longe da retina caseira
um relógio derretido

Olhá rotina canseira!
É frutó chocolate
bolinhas
com creme ou
sem esperma mousse
treme treme gelatina
ramerrame pontual
abranda a corrida
desmonta carga
regressa a criatura
ao pedestal
porque a vida cega
e segue
sempre pontual

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Não sei de ti

Pintura de Emil Bisttram



O céu parecia
cinzas frescas
claras em castelo
envelhencendo no fim
de tarde
gotas escorrendo
tinta
infinitos fios  de azeite
solitários
suspensos e infindáveis
uma chuva escura e depois
o caos estupendo
de estrelas
maduras caindo
no horizonte


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Uma bela rotina de Guilherme Tell

Judi Davis numa cena do filme de David Cronenberg: O Festim Nu



Ainda ao almoço
embala o eunuco
imaginário
a mulher maçã
do Guilherme Tell
a rotina diária
de besta apontada
a outra vinheta
no andar de baixo
desviada a cortina
a enxorrada à solta
rompe diques
de penetração fácil
seja um festim nu
o arqueiro encostado
troca o alvo
diversa cona
refeição crua
e quente
ainda hoje
não morrerá
ninguém
amanhã
já parto


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Quetzalcoalt











a serpente quotidiana
ao pássaro ocioso
de plumas viradas para dentro
(o pássaro do avesso)
é preferível
cai
no regaço do usurpador
nem sempre é possível
a escolha
perante a vitória
biológica da guerra

um deus a trair o Homem é coisa
para frutificar
nos rodapés dos livros
de história
micélio milenar

o máximo do usurpador
é a invenção  da narrativa
mas vencer
nunca alterou um dedo
à verdade
e à escuridão
dos factos