quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Férias




Numa terra sem tempo
bisturis
utopias
a pele veste
o silêncio inteiro
o vento  morde
os cabelos
como uma gaivota
doida e atrevida
adivinho  por entre
a longínqua  solidão do mar
na companhia dos dois cães
e um  sumo de beterraba
o remédio
para a inevitável renovação
do sangue

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Aparição

Foto de Tamsin Swait


Era de noite
e não fui autorizada 
a contemplar o teu corpo
como seria devido
o tempo breve foi 
avidamente gasto pela pele
a invadir a  pele
o olhar ficou em falta
não se permitiu demorar 
nos contornos da carne
todas as imagens 
foram fotografias 
subtraídas à memória
foi sempre de noite
mesmo quando havia Sol
cada fugaz encontro 
era um retrato 
roubado à investida
entender o fulcro 
da aparição é recorrer
ao arquivo da polpa dos dedos
ficaram marcados 
pelo relevo dos ossos
emergindo à superfície
o tacto resgatou 
o território do diálogo
a confirmação de uma escultura
adivinhada na escuridão
um escudo no quiasma optico
máquina de filmar sem luz
no final restou 
um sequestro irreparável
de negativos 
ondulados pelo calor


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Valete de Paus ou Espingarda? (isto de não ser amado é fodido)

Valete



O verdadeiro artista faz o que quer, escreve o que lhe vem à cabeça, inventa o que a sua liberdade oferece.
Estamos todos de acordo: não há machado que corte a raiz ao pensamento, como dizia Carlos de Oliveira.
O pensamento liberta mas também pode prender. Todos construimos as nossas prisões, as nossa fugas, as nossas viagens. Somos feitos de água e ferro. Deslizamos e vamos ao fundo. Dizemos coisas.

No meio da polémica "Valete versus Feministas" senti necessidade de analisar a letra da obra de que tanto se fala.. A que ele nega ter mensagem para depois vir a admitir que a dita só se revelará no fim de uma trilogia de músicas.

A liberdade passa regularmente por aqui. E hoje vamos dedicar a nossa atenção à letra do BFF de Valete.


Foda-se a sério mano?
Não te ia mentir, mano!
Foda-se!
Ya, não te ia mentir
'Tá-se bem, eu vou ver isso! Tchau ai mano
Ya Tchau



Vê-se claramente que são dois estudantes de filosofia a falar (o videoclip esclarece que a conversa é telefónica o que prova que são alunos aplicados, até à distância se dedicam à matéria)
Discutem Kant, obviamente.
No meio do seu elaborado sistema metafísico Kant "perdeu" algum tempo a discutir sobre o valor da “mentira por propósitos altruístas”:

“Imagine que esconde um amigo inocente na sua cave. Vem um assassino à sua procura para o matar. Pergunta por ele. Deve mentir para o salvar?”
A situação inventada por Kant era esta e a resposta dele é “Não”.
Argumenta que, mentindo, o assassino iria embora, continuando a sua busca e, entretanto, o amigo sentindo-se em perigo teria fugido pelas traseiras e inevitavelmente eles iriam dar de caras um com o outro. Parece estúpido e várias pessoas sérias conjeturaram que o senhor nesta altura do campeonato estaria já com Alzheimer.
Mas, depois de bem meditarem, outras pessoas concluíram de modo diferente. Ou seja, o que Kant descobriu (sem ouvir Rap nem ter saído de uma pequena cidade da Prússia toda a vida) foi que o poder que temos sobre as consequências das nossas ações é muito pequeno. Não controlamos nada do que acontece. Por isso mais vale cumprir as regras. E dizer a verdade.

Portanto é isto que o estudante faz ao telefone: diz a verdade ao amigo na esperança que tudo corra pelo melhor. Mentindo talvez o desfecho tivesse sido bem mais trágico. Mas não quero dar spoilers...



Com o coração golpeado gravemente
Ansiosamente ele põe a chave na fechadura
Roda a chave para a esquerda ele roda suavemente
Abre a porta e vê a casa toda escura
Do quarto ouve um som que parece Jovanotti
Nah, afinal é Luciano Pavarotti




Aqui nitidamente começa a mensagem de preocupação social implícita na obra musical. Trata-se um homem com claros problemas auditivos. Ele confunde Pavarotti, um cantor de Ópera com Jovanotti, um cantor pop e de rap. São ambos italianos e isto prova que a personagem desta história está a usar um aparelho auditivo. Valete a chamar a atenção do público para este flagelo que é a venda agressiva, e sem regras, destes aparelhos sem um correto diagnóstico dirigido à patologia de cada um. Isto tem levado a um aumento exponencial de queixas como dizia um senhor da DECO que eu vinha a ouvir na Rádio no caminho para aqui. E estão a ver as consequências, baralhar Pavarotti com Jovanotti não lembra nem ao diabo.

Por isso, malta, não façam mau figurino: para melhor ouvir Valete  escutem o vosso otorrino.



Para não fazer barulho ele anda bem ligeiro
Sorrateiro enquanto anda assenta o calcanhar primeiro
Tem a caçadeira no armário do escritório



Muito bem: a caçadeira está no armário no escritório, fechada, para segurança da família, segundo as regras da lei da caça. É muito importante esta medida para evitar acidentes envolvendo crianças, seres ingénuos, que tomam as armas por meros brinquedos, podendo aleijar-se a sério. Ninguém quer essas tragédias.


Instinto predatório para mandá-los para o crematório

Preocupação ambiental explícita. A cremação é o processo de transformação do corpo sem contaminação de agentes patogénicos nem resíduos sólidos ou líquidos, só se liberta cálcio e potássio.
Ainda por cima há um problema de falta de espaço nos cemitérios: Valete bem.


Pega na arma com uma postura insegura
E a tremer empurra para a direita a patilha de abertura



Mensagem política: virar à Direita é perigoso e mete medo.



Bem insano ele vai entrar sem plano
Um cartuxo em cada cano e cerra o semblante
Puxa a patilha e pensa no amigo de infância
A seguir engatilha a arma para a trilha de vingança
Faceta de louco põe a mão na maçaneta
Ele quer matá-los e fazê-los apodrecer numa sarjeta
Revolta macabra ele quer ver a cabra morta
É a reviravolta, respira fundo ele abre a porta



Crítica à política de detenção de armas nos EUA onde até os loucos podem possuir armas e daí o absurdo número de massacres de pessoas.




Uma vida radicada numa entrega tresloucada
Uma vida debitada, dedicada a ti
O esforço que fiz para teres a vida acautelada
Porque trabalho como um escravo para que não te falte nada

Senti-te estranha, senti o clima alterado
Eu devia ter calculado que era tudo falseado
Relação já não tinha chama
Mas nunca pensei que acabasses com essa doninha na minha cama
Forreta, era o que ouvia nas tuas bocas
Quando fui eu que comprei as tuas joias, as tuas roupas



Atentai bem nestes versos, jovens, que neles reside um grande ensinamento de Valete: o amor e a lealdade não correspondem a qualquer valor pecuniário.

Precisam que esmiúce mais um pouco esta noção?
Amor e lealdade não se compram. Não se compra uma pessoa. Portanto não se pode vir depois cobrar o carcanhol investido quando as coisas dão para o torto.
Aliás, já vai sendo tempo de os moçoilos perceberem que não têm de sustentar as mulheres, elas bastam-se a si próprias, o mundo do trabalho já não lhe está vedado como nos tempos de antanho.
Portanto, jovem: entre uma rapariguinha do shopping bem vestida e petulante e uma moça que tem de manter dois empregos para sustentar os filhos do casamento anterior escolhe a segunda, porque ela nem tempo vai ter para ti quanto mais para o teu melhor amigo.

E para as garinas: não têm de servir para serem servidas. Vocês bastam-se a si próprias. Estar na dependência financeira de um homem é uma perda de autonomia limitante que nos dias de hoje não faz sentido, nem sequer é vantajoso. Libertem-se da educação machista que tiveram.

Acabo de ler um clássico da literatura, do Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde esta problemática é desenvolvida quando ele nos conta a primeira paixão da personagem, ainda muito jovem e ingénuo: a bela Marcela. Uma moça que tudo fazia em troca de joias caras. Só muito mais tarde o incauto apaixonado se dá conta que era a cobiça e não o amor que movia a donzela.

Por isso, amigos, leiam os clássicos, releiam-nos, ou então atentem no que diz Valete.




Puta, cona alargada, pura insana
Encharcada de moralismo sempre armada em puritana
Agora vais sentir a sequela
Com a caçadeira enfiada na tua goela
A bala a perfurar a traqueia



Outra dica importante de Valete para os adolescentes: não comparem pilinhas uns com os outros. São brincadeiras que parecem inconsequentes: ai e tal, deixa cá medir a tua e a minha, a ver quem tem maior e assim, mas depois aquilo fica a germinar na cabecinha, na de cima, bem entendido: o nosso melhor amigo é mais abonado que nós. Vai daí um dia acreditamos que a cona da nossa namorada fica alargada só porque levou com um mangalho maior que o nosso, e não fica, que o criador fez o músculo vaginal com uma elasticidade a toda a prova e de modos que ser grosso ou fino, ser curto ou comprido o efeito no feminil saguão é o mesmo.



E o teu corpo como plateia enquanto a morte fraseia:



Bela metáfora, ironias à parte.



Nós éramos únicos, os últimos moicanos
Melhores amigos desde os 8 anos
Éramos os putos das trapaças e chalaças e toda gente
Com graça chamava-nos de comparsas
Laço alquímico, sentimento mítico
Dei-te amor bíblico tu eras só um cínico




Amor bíblico é um sinónimo de sexo e assim estamos perante um momento Brokeback Mountain o que só prova que a homofobia não está a passar por aqui. Valente bem.




Lembras-te do nosso pacto de sangue
Se fosse preciso era morrer um pelo outro como num gangue
Para a minha mãe eras como eu, deu-te o me'mo trato
Sangrámos juntos, comemos do me'mo prato
Quem diria que iria ver-te com essa fingida
Quem diria que seria o teu melhor amigo a tirar-te a vida
Vosso casamento no inferno é o que eu prevejo
Puta, dá-lhe um beijo e pede um último desejo
Vê a gruta do abismo na viagem conjunta
E a bruta pena capital, o karma da vossa conduta




Momento "abaixo a xenofobia": se na Arábia Saudita o adultério é crime e aqui em Portugal, na mente de muito boa gente, também deveria ser, é porque somos todos irmãos, não?

Falemos então de Monogamia.
O Valete tem uma música cujo título é: Monogamia. Fala de uma relação que o Valete tem com a Liberdade. Em oposição à Liberdade existe a Religião. E o nosso artista é um fundamentalista desta Monogamia: não troca a Liberdade pela Religião nem para dar uma escapadelazinha sequer. E tem toda a razão. Haverá melhor Monogamia?

Desconfio que a protagonista feminina do BBF é uma fã incondicional do Valete. Somos todos, não é verdade?


Tiago- “Uhn Uhn”
Ana- “Ei então o que é que foi?”
Tiago - “Foda-se, pesadelo do caralho!”
Ana - “Estás todo suado!”
Tiago - “Foda-se!”
Ana- “Vai Tomar um banho!”
Tiago- “Ya!”



Momento de defesa da saúde pública: o suor é um meio ideal para a multiplicação de bactérias. Tomar banho dá saúde e faz crescer.


Esta é a minha interpretação do texto do artista. Se ele não gostar tenho outras. (nah, estava a brincar.)



























sábado, 31 de agosto de 2019

Invenções

Imagem de Sophie Cauvin


O que inventámos primeiro:
o amor ou a palavra?

Qual o padecimento primordial:
o sossego ou o silêncio?

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Mestres

Harry Houdini, 1899



A vida é
uma miragem
minha amiga
todos tendemos
a ser mestres
do ilusionismo
uns grandiosos
Houdinis
outros parcos
Copperfieldes
alguns Elizabethes
Savallas enquanto  
partner do Astro
fracassando nos números
telepáticos ou
espremendo o corpo
contra a caixa
na esperança
de escapar à serra
que nos irá cortar
ao meio mais dia
menos dia


quinta-feira, 18 de julho de 2019

O Som e o Barro


Foto de  Francesca Woodman



A tua boca:
uma breve despedida
do mundo

dispo
o meu corpo
de mulher

as sobras:
o som
o barro
a roupa
o invisível

quarta-feira, 17 de julho de 2019

JACQUES O FATALISTA

O 2º Livro escolhido pelo RAP
para o Clube de leitura de Obras de Humor da ECON 



Podíamos dizer que Denis Diderot é um bom contador de histórias. Podíamos mas seria ficar aquém da verdade.  Mais que um contador de histórias, o autor é um zigzagueador de narrativas, de tal modo os vários enredos se vão entrelaçando uns nos outros formando no livro uma delirante tapeçaria de peripécias.
Em Jacques, o Fatalista, consigo identificar trinta e três histórias, umas mais longas, outras mais curtas, que se interrompem para dar origem ora a umas ora a outras, sempre conseguindo prender o leitor a cada página do livro.
São elas:

1- A História da Viagem de Jacques e do seu amo, montados a cavalo, com destino não se sabe bem onde.  Tem praticamente a duração da totalidade do livro.

2- A História dos Amores de Jacques. Também demora todo o livro a ser narrada.

3- A História do Sr. Pondichéry, o mau poeta.

4- A história  do irmão de Jacques, Jean: o carmelita descalço.

5- A história do padre Ange.

6- A história do Sr. Pelletier.

7- A história do capitão de Jacques e do seu amigo/inimigo.

8- A história sobre o Sr. Gousse, o Sr. Prémonval e a menina Pigeon.

9- A história do cavalo do carrasco

10- Outra história do Sr. Gousse, quando este decide trocar a esposa pela criada.

11- A história da Estalajadeira e Nicole, a sua cadela.

12- A história do Pasteleiro traído.

13- A história do compadre do estalajadeiro.

14- A história do Benemérito Extravagante.

15- A história do cão do moleiro, o namorado de Nicole, a cadela da estalajadeira.

16- A história do Marquês dos Arcis e da Senhora de Pommeraye: uma vingança extraordinária com um desenlace surpreendente.

17- A Fábula da Baínha e do Cutelo.

18- A história dos avós de Jacques e da mordaça que lhe impuseram.

19- A história do senhor de Guechy.

20- A zanga entre Jacque e o seu Amo.

21- Jacques e o seu Amo trocam de posições: agora Jacques conduz o Amo.

22- A história do secretário do Marquês dos Arcis, Ricard, e do Padre Hudson.

23- A história da perda da virgindade de Jacques com a menina Justine, a namorada do seu melhor amigo Bigre.

24- A história das aventuras picantes de Jacques com as suas vizinhas casadas, Suzanne e Marguerite.

25- A história da cabaça de Jacques.

26- A história do Amo e do negociante de quinquilharia

27- A história dos amores do Amo com a menina Agathe e a intervenção do cavaleiro de Saint-Ouin.

28- A história da viúva encantadora.

29- O reencontro do cavalo roubado do Amo.

30- A história do "filho" do Amo

31- O final da História de Jacques e Denise, que no fundo é a mesma do ponto 2.

São todas deliciosas mas faço um especial realce para o ponto 16 e 17.

Jacques é um fatalista, seguindo as sábias palavras daquele que tinha sido seu comandante na tropa, acha que tudo está escrito lá em cima, no grande rolo. (Por quem e porquê fica a pairar como mistério último).
 Por isso não vale a pena correr nem para nada por coisa alguma. Não vale a pena rir ou chorar porque nada se desviará do seu destino. E no entanto... ele continua a chorar e a rir e a tomar as suas decisões conforme lhe parece o mais acertado (ou segundo o conselho da sua cabaça). Ser fatalista é um consolo, mas ainda assim um alívio fraquinho, pois nunca sabemos o que está escrito lá em cima. O melhor mesmo é ir contando histórias, construindo narrativas, deixando o discurso fluir nessa pequena grande viagem que é a vida.

Não percam, divirtam-se!




quarta-feira, 10 de julho de 2019

terça-feira, 18 de junho de 2019

mármore


imagem de Zeitguised


mil vezes o sopro
do fósforo que arde
na bifurcação do silêncio
um breve brinde tchim
à geologia das convulsões
mil vezes o sufoco
o cataclismo instantâneo
à travessia do mar morno
ininterrupta e lenta
a bordo da barca
da mulher-mármore

um breve brinde tchim
partir o corpo
contra a lareira
e abraçar a solidão
do depois





sábado, 8 de junho de 2019

O meu Porsche cheira mal

O livro que me arrependo de não ter comprado este ano
na Feira do Livro, mas que ainda vou a tempo de caçar



Estoiro no poema o título
estridente
mais apropriado ao livro
como agora se utiliza
pra atrair a freguesia

nem é totalmente mentira
um polígrafo aplicaria aqui
um impreciso no máximo

há que reciclar as lições de audácia
que as plagiadoras oferecem
aos zelosos direitod'autoristas
esses enconados

já tive um porsche já
em tempos que já lá vão
descapotável arejado
e em segunda mão

Hoje em dia tenho um chaço
mas este meu popó tresanda

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Os décimais

desenho de Eno Henze



entre graus e grifos
grilos figurantes
a face mirrada
do improviso
minudências
ocarinas poças
mal comparadas
nos intervalos
da unidade
entre passos e pernas
débeis dobras
tropeções gaguejantes
hesitações consumadas
esboços esquálidos
tentativas e erros
baque boléu bóia
Eros paralítico
lições acidentais
de teologia
chumbo raso
na tergiversação
pequena medida
de momentos falhados
nomes caídos abaixo
na escala
do esquecimento













sábado, 1 de junho de 2019

O Gato das Teclas


Jacques, O Ficcionista


Apanhou-me na casa de banho
deitou-se a escrever
no feed de notícias
sarcasmo sobre tragédia
do quotidiano
desculpei-me por ele
mas era tarde

Racista
Doida
Imprestável

Os seus erros
de ortografia
falharam-me
como álibi

terça-feira, 28 de maio de 2019

Bicho-da-seda


Imagem de Tatiana Gulenkina


Um casulo
no ouvido
versos
suaves algodão
doido salvador
que tira o ruído
do mundo

Um bicho
eclode
no ventre
borboleta
infinita
liberdade
de voar

sábado, 18 de maio de 2019

Mandrágora




Afaga com colher
de pau afaga
o caldeirão de grainhas
o rio saltitante
desenhando vagens
na parede em frente
mapas do mundo
travessias urticárias
buganvílias invadindo
a estatuária octaviana
do jardim o musgo
o eco das pupilas
sombras verdes
penumbra intermitente
da mistela fumegante
ondas curtas quebram
pulam rangem
o longo intervalo
da espera derrete
no caldeirão afaga
onde vai desembocar
o brigadeiro da saudade
a minha mãe-d'água








quinta-feira, 16 de maio de 2019

contradomínio (censurado pelo Facebook)




Um mergulho em câmara lenta
da falésia para o mar
que entretanto recua

em baixo
nos Jerónimos
avança um ornamento branco
por entre a jeremíada colectiva
de náufragos
que vagamente ressoa
a  marcha nupcial
um jogo de linguagem
vagidos e hóstias na boca
resset de pecados:
o dote de Deus:
redenção

cortejo de futuros bêbados
gafanhotos
sapos
business as usual
um perfume torpe
costeletas de camarão
uma sucessão de proformas
convergentes minimizantes
um ornamento branco
num banquete que em vão
dará Banguecoque

na primeira noite pica-se
o ponto
um poltro articulado salta
do baú
em timelapse:
o galope da cama
o poltro a apostatar:
o seu primeiro suicídio:
iniciação de olhos borrados
ainda mal abertos






contradomínio





Um mergulho em câmara lenta
da falésia para o mar
que entretanto recua

em baixo
nos Jerónimos
avança um ornamento branco
por entre a jeremíada colectiva
de náufragos
que vagamente ressoa
a  marcha nupcial
um jogo de linguagem
vagidos e hóstias na boca
resset de pecados: 
o dote de Deus:
redenção

cortejo de futuros bêbados
gafanhotos
sapos
business as usual
um perfume torpe
costeletas de camarão
uma sucessão de proformas
convergentes minimizantes
um ornamento branco
num banquete que em vão
dará Banguecoque

na primeira noite pica-se
o ponto
um poltro articulado salta
do baú
em timelapse:
o galope da cama
o poltro a apostatar:
o seu primeiro suicídio:
iniciação de olhos borrados
ainda mal abertos







quarta-feira, 15 de maio de 2019

Uma Só Volta do Sol




É uma distopia ou é um retrato crítico dos nossos conturbados tempos? Ou uma mistura dos dois?
Esta é uma história sobre a urgência do Amor, a influência do Amor na nossa capacidade de continuação enquanto espécie neste planeta. O que acontecerá à humanidade quando deixarmos de sentir por completo?
A Mónia dá-nos um retrato de um possível futuro que já está entrando pelo nosso presente dentro, escrito de uma forma tão profunda quanto subtil, poética mesmo.
Dá vontade de continuar a ler mais, esta história tem potencial para se tornar longa. Vou ficar à espera da continuação, esperançosamente.

sábado, 11 de maio de 2019

É Tarde


Foto de Franco Rubartelli





É tarde
não tenhas medo
vais andar por cá
mais uns tempos
saboreando memórias
o passado entrelaçará a mão
ao presente: gémeos
inventarão um futuro juntos
fotocópia do filho
dos dois: uma mentira

O estrugido pegou-se
ao tacho teclando
ao telemóvel fodeste
o jantar é tarde
a dieta finalmente
tem efeitos e contudo
não trará de volta
a beleza de outrora
não há vagar
para tentativas
é demasiado tarde
os erros foram todos
testados comprovados
dissecados em divãs
pagaste caro
não importa
a janela é uma guilhotina
ameaça direita ao pescoço
é tarde e falta
a despedida ao derradeiro
amante
o despertador em breve
cumprirá a chamada
para a linha rasa
é tarde


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ainda Há Tigres na Malásia




Ainda há tigres na Malásia
em extinção claro está
é quanto basta
não estamos todos?
o que importa é couraçar
o coração
fazer pelo menos
uma viagem exótica
e voltar para o café fumegante
da cozinha
adormecer esquecida e quente
da lareira do teu colo

terça-feira, 7 de maio de 2019

finitude

Colagem de Max Bucaille



No princípio era a gota
agora inflama-se a finitude
na ponta dos dedos
nem alívio nem alopurinol
só a esperança no catalogar
da morte como doença
que a medicina um dia
ainda há-de resolver

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Vanitas

"Still Life With a Skull and a Writing Quill", pintura de Pieter Claesz



O vapor de água sempre
foi a melhor cortina
tapar sem fumo é superior
 à simples espera de um olhar
precrustante a antevisão
do que está por vir
tudo o que não sei
já tenho imaginado
o espectaculo é
um grande limão solitário
onde as guitarras gemem
contra veias e ampulhetas
a bolha um destes dias
rebenta


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Insónia

Imagem de 1973, do filme animado francês, La Planète sauvage
 (Fantastic Planet), realizado por René Laloux.




Paredes ao alto
aceso um chibo
a dançar na noite
contra os vidros
trémulos mil
milhafres fluídos
atrapalhando-se
nos estores
de fúria

frágil o dique
rebenta o aneurisma
minotauros à solta
correndo contrários
aos ponteiros do relógio
na fome sinistra
de chegar primeiro
a destino nenhum

no final
de ferir o céu
e abalar a terra
um silêncio
que fulmina
um anátema

conto sílabas
como carneiros
engomo frases
junto ao colarinho
sinto o pulso
à carótida o teu
ritmo






terça-feira, 16 de abril de 2019

categórica



durou um inverno só
a colecção memorial
de altos cedros
e baixos nomes

agora
antes da saliva o som
comove-me a descrição
da zona franca nativa
a palavra donairosa
o arremesso da voz
reverberando
contra o peito
uma palavra categórica
eis a questão
penso insisto
no discurso
desbravando cornucópias
ao toque de uma geometria
descritiva audível
variante do vocábulo singular
a palavra detonada
o arremesso da voz

depois
o silêncio
tradução de Aquiles
quase flecha
uma incapacidade
na queda
um calcanhar







domingo, 14 de abril de 2019

Impedância


Fotografia de Francesca Woodman




Toda a constrição
tem o seu cataclismo
a sua fuga em alvoroço
remorsos obsoletos
impedância por oposição
dizia naquele tempo
o rosto calafetado
por cada ponto de confluência
sangue em derrame
na corrente desenfreada
o rio que tudo alaga em verde
musgo no fundo de olhos puros
depois no intervalo do espanto
descobre-se a descida
ao poço de algemas
pulsantes sobre um chão
de mescal e miosótis
onde reina impávida
e severa a besta
adormecida e castigadora
vai fazer pesar um excesso algas
nas cavalgadas noturnas
cordas extensas
rasteiras plenas
travões
o rosto
desistindo da descolagem
o seu último desígnio

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Tangente de Declive Mínimo


Guadi, Barcelona: A Sagrada Família




a infinita ironia de um nome
nas borras do café curto
corço de cascos barrocos
polvilhado de açúcar
num templo expiatório
de pináculos jesuítas
a respiração nos mínimos
o raspar dos cascos no chão
recebendo os vapores
da lixívia que viaja
da sanita aos mármores
a mão mergulhada em grão
frescos no tecto
um leito de rio seco
sob uma nesga de céu
musgos nas alpondras
e um ranger de cintura
sobre o silêncio imaculado
da cama nada a dizer
o tempo condensava-se
nas paredes
da Sagrada Família
apenas a magra abside
e a infinita ironia de um nome




sábado, 30 de março de 2019

Inequação




Um jardim a incendiar atalhos
no banco acanhado
sob o céu público

árvores avaras
de esconderijo escassas
olhares sub-reptícios
um alongamento vertical
quando o mundo ameaça acabar
num ápice
a pele desadequada garrota
o membro urgente
e o tempo coagula por inteiro
na espera alucinada
o flagrante delito  prestes
a desnudar-se
na espera  a pele árida
congela de medo
os olhares cortantes
o mundo prestes a terminar
o céu a ameaçar incêndios
o banco acanhado a girar
o alongamento vertical
traindo a frequência do pêndulo
pulsação exponencial
num ritmo preso
as minhas mãos terapêuticas
libertam por fim a pele
desadequada
o céu já flui na tarde longa
o vento curativo apaga a luz
o mundo ainda tentando acabar
numa profecia mal cumprida
o mundo a forçar o fim
no banco acanhado de jardim
o mundo a borrifar-se
no festina lente







sexta-feira, 29 de março de 2019

Assimptota

Foto de Jon Tyson no Unsplash






Quantas vezes falhaste
tentando dissecar
a raiz de uma ideia
as vezes que glorificaste
a queda no fosso banal:
uma humilhação épica

Se pudesses ao menos
parar a travessia
dessa velha estrada

Uma rajada de vento
põe a nu um homem a menos
junto aos alicerces da cidade
devorada pelo fogo
distingue-se claramente
a sucessão central
no pelotão da frente
calha a ser uma baixa
na listagem masculina
um curto saque
um fruto falso
um golpe fundo
na bissetriz do conto clássico
entornado numa escola
de intervalos

Os poemas incomunicáveis

E tudo o que deixaste a fermentar
não passou de pão de sofrimento
tábula rasa
que se foi inundando
por cálculos errados
à hora certa
convertidos em estatística
de pequenos números
uma pedrada no caos
uma abstração puída
três impiedades
idolatria
e trinta cartas de volta
um volte-face
coisas vãs
calvário
à saída ao arraial
ferrão
tombo final
parágrafo

Talvez um dia
perto do infinito
se desfaça o desencontro                             
batia o meio-dia
e picos
um nada ficou
como Dante
Deus o tenha
entre tantos
























quinta-feira, 28 de março de 2019

Cinemática

Pintura de Leonora Carrington



Um homem a cavalo
há-de parecer
sempre
um herói o homem
a cavalo pode ser
um macho efémero
o anti homem-elefante
o homem-bode
até fazer vibrar a boca
numa catarata
de blasfémias
ex-herói
o homem-boi
as palavras inundam as máscaras
rasgando os disfarces
à bela e clássica maneira
de Agatha Christie
o homem fácil
do herói sobrou apenas
uma montanha cevada
a feromonas
as palavras deflagram
a jugular ao cavalo
mas o corpo  não vê para além
da inocência do corpo
jura em vão renunciar à subida
no exacto momento do declínio
de Sísifo a vocação
aos solavancos
demora sempre
profeticamente
uns parcos meses




terça-feira, 19 de março de 2019

Matadouro 5




De Lot lembramos
a mulher volúvel
que ousa olhar para trás
e vê a centopeia fatiada
de todos os momentos
no tempo

A mulher de Lot
visita regularmente
as crianças cruzando
as trevas a caminho
de Jerusalém

O nome da mulher
de Lot não faz
parte da história
ela é coluna de sal
conserva na pupila
a imagem da cidade
destruida pela chuva
de enxofre e fogo
decisão dos céus

só a eloquência do sal
pode dizer o silêncio
da cidade arrasada
pelo livre arbítrio
terreno
esse braço de ferro ganho
pela imaginação do Homem

A mulher de Lot
senta-se à porta da cidade
sente o cheiro a rosas
e a gás mostarda
ouve a conversa cristalina
dos pássaros
coluna de sal
é uma mulher-memória


sexta-feira, 15 de março de 2019

confessionário





O poema tudo acolhe
o desabafo do trolha
a locução do talhante
o deslize obsceno da beata
o transe do amante ocasional
a preguiça do poeta ocioso

tudo lhe vem ao seio
tudo lhe vai à boca
de cena e escorre

quinta-feira, 14 de março de 2019

Espaço Cidadão




D. Júlia faz o gosto ao dedo
e mostra o pulso na cadeira
do seu compasso de espera
frente à segurança social
doí-lhe como um raio
irradia
a descascar metáforas
ou manejando a panela de pressão
braço acima ombro arcaico
baço resmungando
o diapasão de um carapau médio
enterrado na goela obrigara
a visita ao Santa Maria
médicos avisados
dão-se ao luxo no Hospital da Luz
onde a conta é preço certo
e anda pela hora da morte
adiada ufa ainda não foi desta
os números deslizam devagar
as senhas progridem
no trajeto da obviedade
passa uma jovem moça inquieta
é jornalista Júlia avança
do desporto e das bonitas
que hoje em dia até essas
são inteligentes
mudado que tudo está
Salazar vem à baila
raro o português que não carregue
às costas o passado

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Poesia





A poesia não conta histórias
não deslinda mistérios
antes tenta espalhar
pequenos recados
que fluem
na sombra projectada
no intervalo das palavras
como  as tenras crianças
em sala de aula
com os seus bilhetes passados
por baixo das carteiras

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Ponte levadiça





Uma Arquitectura da densidade, fotografia de Michael Wolf


Abundam no mundo
os muros
abusos claros
murros clandestinos
chegados a este ponto
trabalha a báscula
da ponte levadiça
reinventa Heraclito
o movimento vertical do ferro
sobre a água
apontando ao céu
a destruição dos caminhos
a muralha que se auto-regenera
em frente ao fosso atónito
e fica-se órfão de casa
braços e pernas arredados
das veredas
e fica-se órfão de cidade
dão de si os machados
enterrados na espera
e fica-se órfão de conterrâneos
órfão de estradas
órfão de bússola
um mundo insuspeito
suspenso

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A vida é sempre à hora certa

Relógios Derretidos (pormenor), Salvador Dali



A vida é pontual
tudo à hora certa
tão correctas espertas
as correias
do cavalo peado
piada com hora marcada
a ferro e jorro
um pequeno rio
corre pontual
e segue a trote
no prado circular
mais uma voltinha
mais uma viagem
carrocel caracol
gosma coragem
erro é sal

deus nos livre e guarde
da vã liberdade
horas mortas
horas vagas
vergas amestradas
que dão em livros
que dão nas vistas
longe da retina caseira
um relógio derretido

Olhá rotina canseira!
É frutó chocolate
bolinhas
com creme ou
sem esperma mousse
treme treme gelatina
ramerrame pontual
abranda a corrida
desmonta carga
regressa a criatura
ao pedestal
porque a vida cega
e segue
sempre pontual

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Não sei de ti

Pintura de Emil Bisttram



O céu parecia
cinzas frescas
claras em castelo
envelhencendo no fim
de tarde
gotas escorrendo
tinta
infinitos fios  de azeite
solitários
suspensos e infindáveis
uma chuva escura e depois
o caos estupendo
de estrelas
maduras caindo
no horizonte


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Uma bela rotina de Guilherme Tell

Judi Davis numa cena do filme de David Cronenberg: O Festim Nu



Ainda ao almoço
embala o eunuco
imaginário
a mulher maçã
do Guilherme Tell
a rotina diária
de besta apontada
a outra vinheta
no andar de baixo
desviada a cortina
a enxorrada à solta
rompe diques
de penetração fácil
seja um festim nu
o arqueiro encostado
troca o alvo
diversa cona
refeição crua
e quente
ainda hoje
não morrerá
ninguém
amanhã
já parto


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Quetzalcoalt











a serpente quotidiana
ao pássaro ocioso
de plumas viradas para dentro
(o pássaro do avesso)
é preferível
cai
no regaço do usurpador
nem sempre é possível
a escolha
perante a vitória
biológica da guerra

um deus a trair o Homem é coisa
para frutificar
nos rodapés dos livros
de história
micélio milenar

o máximo do usurpador
é a invenção  da narrativa
mas vencer
nunca alterou um dedo
à verdade
e à escuridão
dos factos