quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

MENSAGEM VARIÁVEL











PORTUGAL CHAMA
MÁQUINAS NO CAMPO
PERIGO MÁXIMO



Máximo máquinas
Perigo chama
Portugal no Campo

No Campo perigo
Chama máquinas
Portugal no máximo

Máquinas Campo
Chama máximo
Portugal no perigo

Campo máximo
Chama perigo
Portugal nas máquinas

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

AS DUAS SENHORAS


Parque Municipal Quinta do Pêgo Longo, Belas



Tenho duas senhoras na vida. Na verdade não as conheço, apenas existem como personagens, habitantes da minha história. Vejo-as todos os dias enquanto conduzo.
Saio de manhã do local onde moro em direção ao sítio do trabalho.
A minha Senhora nº 1, peço desculpa por tratá-la de forma tão impessoal, desconheço o seu nome, passa por mim quase no início do percurso matinal. Está a chegar a Carnaxide. Como não tenho horários fixos, parto com vários minutos de diferença a cada dia e assim, cruzando-me com ela mais adiante, já pude concluir que vem dos arredores de Valejas. Sou testemunha de que percorre, bem cedo, cerca de dois quilómetros a pé.
Quando volto para o almoço passo pela senhora nº 1 em sentido contrário. Também ela deve ir fazer a sua refeição a casa, neste caso percorrendo a distância a penantes. O que terá feito toda a manhã?
É uma mulher dos seus sessenta e tal anos, muito elegante, diria até escultural, de forma surpreendente para a idade que aparenta. Veste a maior parte das vezes calças de licra que lhe caem excepcionalmente bem. Se não lhe víssemos a cara facilmente imaginaríamos estar em presença de uma moça de trinta anos no máximo. E que elegância no trajar, no calçado de boa qualidade, no chapéu a condizer, dá gosto apreciá-la. A cabeleira branca vem sempre bem penteada, por vezes apanhada num puxinho que consegue manter, sabe-se lá com que truque, em simultâneo com o chapéu. Se fosse mais alta faria lembrar uma princesa inglesa a caminho do Royal Ascot para ver correr o seu cavalo favorito, um mimo. Reparo que na maioria das vezes vai a falar sozinha, muito direita e decidida.
Perto do meu destino, no início de mais uma jornada de trabalho encontro a Senhora nº 2 calcorreando o passeio que liga Belas a Queluz. Lamento mais uma vez não poder nomeá-la.  
A Senhora nº 2 é a antítese da Senhora nº1 tirando o factor idade, que não deve divergir muito numa e noutra, e a constância na rotina pedestre. Esta é roliça e pouco cuidada no cabelo e na toilette. Calha até a envergar, amiúde, calças de padrão garrido com camisolas de riscas com cores divergentes, sempre com aspecto enxolhado. Hoje vinha de croques debruadas a material felpudo. Eu até já tive umas parecidas, bem quentinhas, mas nem de pistola apontada me apanhariam na rua com aquilo. Ela lá vai, de saco ecológico para compras, de xadrez azul, vermelho e branco na mão, com passo pequeno e olhar triste pela rua fora, faça chuva ou faça sol. Cheguei a vê-la já depois do Pendão como quem vai para os Quatro Caminhos, quase a cinco quilómetros e fico a pensar porque irá tão longe fazer as compras. 
Quando saio para o almoço já a tenho reencontrado no regresso a Belas e deito-me a imaginar que transações terá efectuado que demorassem mais de 3 horas cabendo depois num saco que nem sequer é grande nem denuncia vir muito cheio. Terá talvez ficado entretida a dar à língua com as vendedoras do mercado, que entretanto, não localizo na área do meu trajecto rodoviário. Será assunto de calças? Mas porque virá então com o mesmo olhar vazio e sombrio? Não deveria reaparecer sorrindo e florescendo? Porque não adquire mantimentos para dois dias, folgando nos intervalos da feira? Porque não tem o corpo tão ou mais esbelto que a Senhora nº 1 que não chega a palmilhar tamanha distância?
O que fará com o resto do dia?  Rende-se ao sofá sem mais se mexer? Come bombons pela noite fora?
E a Senhora nº 1, a que actividades se entrega quando chega por fim a casa?
E mais perguntas me assolam, umas atrás das outras, apoquentando-me, instigando-me a solucionar os mistérios destas duas senhoras, sem ter meios para o lograr, sem me darem tréguas. Como se chamam? Têm família, filhos, netos, animais de estimação, reformas pequenas, máquinas de costura, libído? De qual eu gosto mais? Em qual das duas me transformarei daqui a uma escassa década? Terei um olhar melancólico, falarei sozinha alegre e com determinação? 

E perguntar-lhes o nome, serei, algum dia, capaz?


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Júlia possui uma arma




Um cano
de revólver fareja
açulado cada recanto
no silêncio insano
do gabinete

um cano
de revólver ausculta
imparável os sinais
vitais do corpo
a abater

um cano
de revólver ordena
ao cão o cumprimento
da imperiosa
missão


grita ao alvo
o peito explode

um cano
de revólver fumega
saboreia o pós-acto
deitado no conforto
da alcatifa

um cano
de revólver alegará
demência temporária
já se vê triunfante
inocentado






quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Meias que Matam

Ilustração de Hannes Bok



Ó poeta
as meias matam
cuidado
estão vivas
matam pateta

as meias lavadas
num monte imundo
de peças
desirmanadas
da mesma cor
meu amor
em cima da mesa
para dobrar
um cabo de
tormentas


um anti-puzzle
pequenos pedaços
matadores
profissionais
por monotonia
locomotiva
miniatura lança
no ar um spray
amoricída
cuidado matam
ó pateta


as meias matam
poeta
estrangulam asas
asfixiam marchas
tortuosas gravatas
aneurismas garrotes
o triunfo
da insignificância

um polvo de pés
amarrado à cabeça
cuidado pateta
mata
melhor fugir
poeta escapa












domingo, 1 de dezembro de 2019

Variação Crusoe






- Acorda, Paizinho, acorda, acorda depressa, depressa, aconteceu novidade!
- Que foi, Feirinha, há fogo na mata?
- Não, é pior, ou antes, é muito mais grave, mas melhor...
- Diz lá, que raio é que pode ter acontecido numa ilha deserta onde só vive um par de gatos pingados e volta e meia recebe a visita de meia dúzia de canibais? Encontraste uma perna esquecida? Lá se há-de enterrar, não será assim tão grave.
Não é uma perna, são duas, Paizinho, e com o resto da mulher que lhes pertence.
Como? Uma mulher? Ao fim de 27 anos? Era o que mais me faltava! Deus ou não existe ou resolveu fazer da minha vida uma comédia! Onde está ela?
Na praia dos canibais.
Tão longe? Ainda por cima, com um joelho todo fodido agora ainda tenho de me arrastar quatro milhas até à porra da praia. Mas está viva, está inteira, foi comida?
Está viva, parece-me, Paizinho, mas a dormir.
De certeza que está viva? Vai-se a ver está morta e tu a fazer um fusué para nada. Se calhar alguma vítima do teu Povo que tinha uma sabor esquisito e lhe caiu mal no goto...Vieram cá deixar as sobras de algum festim...
O meu Povo não abandona corpos na praia, Paizinho, eles respeitam muito os mortos.
Ah, pois respeitam, e gostam até muito deles, até ao tutano...
Sempre a desmerecer o meu Povo, Paizinho, eles não são assim tão maus.
Nada mesmo, nada, desculpa, não te quis ofender. Se não fossem eles eu nem tinha a tua companhia, só lhes posso estar grato. Anda, vamos lá ver da gaj... da bela adormecida. Traz um coco, deve estar com sede.
Sim, Paizinho.
Chama o Manchinhas, onde anda o sacana desse rafeiro?

Os dois amigos e um cão fazem-se ao caminho na direcção da praia onde tinha dado à costa uma mulher vinda de parte incerta.


Como é ela?
É quase bela como a Lua, deitada de borco, de pernas longas, cabelo amarelo, mais amarelo que o teu, Paizinho, e longo, muito longo, quase até ás nádegas, que por acaso não são muito redondas, mas também não sabemos há quanto tempo não come... Eu tenho fé que há-de ser bela como a Lua, se lhe dermos tempo de recuperar a saúde.
E a cara?
Não vi.
Então pode ser feia.
O que é uma mulher feia, Paizinho?
Boa pergunta, não sei. Nem me lembro do que é uma bonita, ou uma mulher tout cour.
Tu quê, Paizinho?
Uma mulher apenas, não sei o que é uma mulher simplesmente. Já não me lembro, nem me faz já falta. Durante anos pedi a Deus que me mandasse uma, como terá oferecido a Adão, roguei com fervor. Nada. E agora dizes-me que está uma de borco estendida na areia da praia dos canibais. Isto só pode ser Deus a mangar comigo.
Achas, Paizinho, que o teu Deus faria uma coisa dessas? Às vezes penso que os meus deuses são mais mansos que o teu. Não queres trocar, ou pelo menos acolher também a sua protecção? Deuses é coisa que não se deve ter em falta, se sobrarem tanto melhor.
Ó Feirinha, a tua intenção é boa, mas não se troca de Deus como se troca de camisa. Ou melhor, no meu caso é capaz de ser mesmo assim, bem vistas as coisas.
Não quero que te falte nada, Paizinho, já basta as necessidades que são tão duras neste nosso belo mundo.
Obrigada, Feirinha, és bom moço, os teus deuses podem ser muito amistosos mas não me apetece comer carne humana. Corria o risco de gostar e depois começava a olhar para ti de outra forma.
Ó Paizinho, não é assim, os amigos não são para comer.
Pois, pois, nunca fiando.
Não confias em mim, paizinho?
Em ti, sim, Feirinha, em mim é que é pior. Adiante. Achas então que a mulher está magra, teremos de a engordar não vá ela adoecer neste fim de mundo e depois não saberei lidar com a situação. Mataremos uma cabra todas as semanas, faremos uma fornada de pão extra, e uvas temos com fartura, enfim, é só problemas.
Daqui a um mês estará cheia como o lago Tundé, resplandecente como a montanha Lopi forrada de neve, bela como a prata do mar na entrada da noite...
Meu Deus, agora percebo, ela é uma oferta para ti! Tu és o poeta que a vai conquistar! Fui cego, nesta história serei apenas um personagem secundário. Resta saber quem é o Autor, o meu ou um dos teus deuses. Bem, em qualquer dos casos posso manter a minha fé.
Para mim, a mulher branca? Só pode ter sido ideia do Teu Senhor, os meus me mandariam um moça robusta da minha aldeia, foi o que eu pedi. Gostava de casar, um dia, ter filhos...
És capaz de ter razão, mas sabes que os caminhos do Altíssimo são quebra-cabeças. Como terá vindo aqui parar?
Directamente do céu, Paizinho?
Ou não. Andei pelo mundo antes daqui naufragar. Eu vim de longe, de muito longe, o que eu naveguei para aqui chegar...
Bela canção, Paizinho. Não tenho a certeza de ser eu o alvo desta oferta, o Paizinho tem uma bela voz e as mulheres gostam de música.
As vossas também? O que não pode acontecer de forma alguma é comprometermos a nossa bela amizade por causa de um rabo de saias.
Ela não tem.
Não tem o quê?
Saias.
Por falar nisso, devíamos ter trazido roupa. Vou ter de tirar este trapo roto para a tapar, que chatice, ainda por cima está sujo e mal-cheiroso.
Queres que volte atrás, paizinho? Posso trazer aquele fato de linho que veio do último naufrágio que pilhámos.
Dito assim parece que roubámos alguém, tens de ter mais cuidado como formulas as frases a a partir de agora, Feirinha.
Que disse eu de mal? Só tirámos coisas de um barco cheio de mortos, não sonegámos nada a ninguém.
Claro que não. Ainda bem que te ensinei a falar tão bem, Feirinha, é mesmo um exemplo de que o saber não ocupa lugar, vais impressionar a senhora.
O que é uma senhora, Paizinho?
Olha, ainda é mais difícil de explicar do que uma mulher. Mas é parecido. Não percamos tempo, a tip... a senhora pode estar a sofrer.


Estavam neste ponto da conversa quando avistaram o areal e a mulher ainda deitada na mesma posição de costas voltadas ao vento que começava a soprar com mais ânimo.


- Parece jovem, e tem potencial para vir a ser bela, sim, tens olho para a fêmea, Feirinha.
- Temos todos, não é verdade?
- Creio que sim, creio que sim. Espero não assustá-la muito.

Aproximaram-se devagar, cheios de cuidados, até à beira da mulher desacordada. Os dois homens olhavam-se agora em silêncio tentando decidir qual dos dois devia tocar na náufraga para a fazer voltar ao estado de vigília. Ambos procuravam a confiança para desempenhar a delicada tarefa e esperavam que o outro se voluntariasse nesse sentido. Por fim Sexta-feira ajoelhou-se junto da cabeça loira da mulher e tocou-lhe ao de leve nos cabelos, afastando-os da cara. Dormia, de boca aberta, ressonava baixinho. Com o indicador, muito a medo, pressionou-lhe a bochecha. Ela abriu os olhos, logo de seguida os arregalou dando um berro agudo que fez saltar para trás os dois homens. E num ápice já se encontrava de pé tentando esconder o corpo, a gritar e a tremer numa aflição.

- Calma, senhora, está tudo bem, somos amigos, está tudo bem, tome, vista a minha camisa, tome, tome, calma, calma...

Ela, hesitante, pareceu abrandar nos espasmos corporais, estendeu o braço para a camisa que Robinson lhe entregava. Cobriu-se por fim. E conseguiu balbuciar.

-Graças a Deus falam inglês! Obrigada!
-Eu sou Robinson Crusoe. Este é Sexta-feira.
- Eu tenho muitos nomes, para vocês serei Susan. Estou há muito dias no mar sozinha, a solidão estava quase a dar comigo em doida. Vamos, levem-me por favor à vossa aldeia, quero ver gente!

Os dois homens entreolharam-se mais uma vez com nervosismo e foi Sexta-feira que indagou:
- Digo-lhe eu ou dizes tu, Paizinho?