terça-feira, 19 de junho de 2018

Cabrita




Descascar a febra
a dois belos carapaus
assados, ao almoço,
faz bem à linha
e desafia a motricidade
fina.

E no entanto, a Cotovia
o repasto temperando
convida ao suspiro
por onde se dissipa
a secreta cabidela
do Cabrita.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pós- parto


illustration by Dušan Polakovič


a manhã ondulava
o bebé dormia
e a explosão de hormonas
pós-parto
arrumara-me o cabelo
em cachos de caracóis

enquanto o corpo abria
e fechava
a sua grande boca
os cabelos convocavam
seu próprios festejos privados
enrolando-se em canudos
a vida migrando até à ponta
dos folículos
desaguando num delta de ilhas

as visitas arregalaram os olhos
imaginando-me de noite
em frente ao espelho
de secador e escova na mão
dando crédito ao dito de Goya
"ninguém se conhece"
fez ricochete a frase lida
nos rostos coriscantes
o bebé dormia imune
como um santo

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CLASH








O filme começa com as imagens do interior de uma carrinha da Polícia vazia. E lêem-se as seguintes legendas:

2011: A Revolução Egípcia põe fim a uma presidência de 30 anos.

2012: O Recém-eleito Presidente é membro da Irmandade Muçulmana

2013: Milhares de manifestantes revoltam-se contra o novo Presidente nas maiores manifestações jamais vistas no Egipto.
Três dias depois é deposto pelos militares.
Nos dias seguintes, a Irmandade Muçulmana e os apoiantes dos militares confrontam-se por todo o país. Este é um desses dias.

Podíamos traduzir Clash por "O Confronto"

Tudo o que se vai ver durante quase duas horas é filmado de dentro desta carrinha da Polícia. As cenas que se passam no exterior, nas redondezas são nos dadas a ver através das janelinhas da viatura. Ainda assim o filme agarra-nos de uma maneira inacreditável. Vi duas vezes neste fim-de-semana. E marcou-me.

A história começa quando dois jornalistas (Adam e Zein) são presos e colocados na carrinha. Adam tem dupla nacionalidade americana e egípcia.

O ambiente nas ruas é de grande agitação e violência e os dois homens resolvem pedir ajuda a alguns manifestantes pois os guardas são chamados para longe, por momentos.

Eles gritam que estão presos por engano e pedem para fazer um telefonema. Uma mulher resolve parar para ajudar e o grupo segue-a.
Quando percebem que são jornalistas a coisa muda de figura. Todos os insultam aos gritos e atiram pedras contra a carrinha. Nisto chegam os guardas e nem sequer ouvem que os manifestantes estão do lado deles: prendem-nos pelos desacatos. Vai tudo dentro, para o pé dos jornalistas que tentavam agredir. A mulher, no entanto, consegue fugir.

Os presos são: O marido da mulher que parou para tentar ajudar e depois foge, o seu filho (cerca de 13 anos), dois velhotes, 3 jovens de cerca de 20 anos, dois deles são melhores amigos, e um homem que virá a descobrir-se que é um sem-abrigo.

A mulher, Nagwa, volta para trás e exige ser presa para ficar junto do filho. Os militares não querem prendê-la, mas ela não lhes dá muita margem de manobra e começa a atirar pedras à carrinha até que eles lhe fazem a vontade.

E dentro da carrinha começam todos a bater e a insultar os jornalistas pois acusam-nos de serem traidores e cobardes e de terem apoiado a Irmandade Muçulmana. Quando o Adam diz que é americano ainda é pior, e pelos mesmos motivos, dizem que os americanos deram cobertura à Irmandade Muçulmana. Uma balbúrdia! O engraçado é que Adam, às tantas é acusado de ser um radical por ter barba e ele responde: mas vocês também têm barba! De facto, um dos jovens e o sem-abrigo têm barba e talvez ao darem conta do ridículo lá se acalmam.

A carrinha avança então pelas ruas. Um dos jovens tira um telemóvel da meia e logo todos querem fazer uma chamada para pedir ajuda. Adam pede para ligar à embaixada americana e logo um dos mais velhos reclama que não pretende ser salvo pelos americanos. Nagwa, que, bem vistas as coisas, é quem lidera o grupo, dá luz verde para o jornalista ligar aos americanos, mas este acaba por confessar que estes só o iriam ajudar a ele e mais vale deixarem o outro jovem ligar ao seu tio que é General e que sendo assim pode livrar todo o grupo daquele imbróglio. Mas é um telefonema sem sucesso nenhum. Nisto a carrinha trava e o puto deixa cair o telemóvel que se parte. Já estava tudo a correr tão bem...

Entretanto para pior bem mais o dia o veículo dá de frente com uma manifestação violentíssima dos apoiantes da Irmandade Muçulmana e desse confronto juntam-se aos presos mais meia dúzia de pessoas, desta vez radicais a sério, e por isso inimigos dos primeiros. E então começa uma luta terrível. Murros, pontapés, sangue e tudo. Um confronto na carrinha, dentro do confronto no país Mais uma vez Nagwa salva a situação pedindo ajuda aos militares, que acalmam as hostes com uma mangueirada de água.

O jornalista protesta com o chefe dos guardas pela situação absurda de inimigos presos no mesmo espaço e acaba algemado a uma janela. Ninguém curte jornalistas, muito menos americanos.

Com o avançar da história vamos ficando a conhecer cada elemento de cada fação. Na Irmandade Muçulmana existe uma adolescente de 14 anos muito aguerrida que arrastou o pai velhote para a confusão, um gordo que viaja com um tacho na cabeça e é muito engraçado, uma série de homens fanáticos que não deixam de revelar aqui e ali a sua humanidade. Eles estão em polos opostos, mas em situações limite não deixam de se unir para tentar sobreviver. As condições da carrinha vão piorando à medida que o dia se torna mais quente. Sem água e sem instalações sanitárias eles passam um mau bocado, fazem turnos à janela para respirar. E há momentos comoventes. Apetece-me contar mais mas não o vou fazer. O melhor do filme está daqui em diante. Nagwa é a protagonista num filme em que não se espera protagonismos.

Li as críticas ao filme e achei-as absurdas. Dizem que os diálogos são parvos pois há momentos em que eles dizem piadas e falam de coisas supérfluas. Aquilo é gente que percebe muito cinema, mas da vida não sabe nada. Aquelas pessoas tinham pouca coisa à mão para sobreviver. Tinham uma garrafa de plástico para urinar e sentido de humor para descomprimir o medo da morte que estava à espreita. Numa das cenas mais duras do filme eles ouvem morrer os presos de uma carrinha que estaciona ao lado da deles e está superlotada e tem a porta fechada por ordens superiores. Há um militar que tenta abrir a porta para deixar entrar o ar e não consegue e quase é executado por um superior.
Falar de futebol, ouvir o gordo cantar uma canção ridícula e rir da situação desesperada em que se encontram é do mais humano que podiam fazer. 

Outra discordância: dizem os críticos que a posição do realizador é a mesma da dos jornalistas que se recusam a escolher um dos lados. Não, meus amigos, ao dar o protagonismo a Nagwa o realizador está a escolher um dos lados. Se fosse simpatizante da Irmandade Muçulmana jamais aquela mulher seria a mais corajosa, a mais inteligente, a mais digna de respeito, e a que soube protestar com os militares e com isso salvar a vida a todos os que estavam na carrinha. Por diversas vezes. O lado do realizador é claro. Ainda assim mostrou a face humana dos fanáticos. E mostrou também a faceta animal, sedenta de sague, da turba de apoiantes dos Militares. A guerra é sempre suja.

Duas horas dentro duma carrinha da Polícia e nunca o filme se torna chato. Os últimos 20 minutos são muito dramáticos. Ao grupo ainda se junta um dos militares que os estão a guardar desde início e que fica ferido e tem de se refugiar. Nagwa ainda percebe que ele é cristão e por isso corre duplo perigo e todos o tentam ajudar a esconder a sua identidade religiosa.

É uma história emocionante até ao último segundo e não vai acabar bem para todos. Quem se irá salvar?

Agora não conto: vejam.




quarta-feira, 6 de junho de 2018

Poema em Apneia

imagem de Katie Scott




o poema não vem da boca
nem do coração
que lhe vai próximo
vem da contracção
do fígado aflito
lágrimas de bílis
coalhando em cascata
no profundo espaço
do ventre
lágrimas
derramadas escurecendo
o céu por dentro
travando os sovacos elevando
os socos invisíveis sombrios
o poema arde na vesícula
estimula a descarga do fel
em catarata de pranto preto
contaminando o tenso emaranhado
de veias e nervos cegos
quiasma óptico
esse fígado aflito
acende-se um fantasma
na respiração pestanejada
da pleura arde uma fuga
quebra lágrimas de tinta
um choco à deriva
no intervalo do corpo
uma apneia

terça-feira, 5 de junho de 2018

Madame Minete




Entra a Madame estrangeirada
com uma gata estacionando
no chão macio, perfumado,
do loby do consultório.

O tenro e loiro estagiário
recusa a ficha baptizada,
Minete de seu topo,
revelando o seu pavor
de tal obra complexa sugerida
que era apenas
como se obrigatória fosse,
talvez com a gata a ver.

Foi mandatório sobrar 
p'rá orientadora,
Minete p'ra mim
apropriado, dizia ele,
ao contrário! retorquia eu,
que se dane, dá cá!

Sem medos de manobras ou rótulos
aceitei a incumbência
de lábios abertos e positivos
por simpatia, mais do que apetite.

Entra a Madame e Minete, sua gata
e foi simples a operação
estendendo os membros oferecidos
meigamente,
mostrando falanges que se davam todas
num só breve instante
ao benigno instrumento, o corta-unhas.
                                                                                                                            

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Jesus e os Joelhos




Olho os joelhos de Jesus
na pequena capela
do cemitério modesto
com casa de banho pública, muito útil,
pouco comum.
(costumo frequentar os cemitérios)

Nos epitáfios inscreve-se a nossa humanidade,
o que nos distingue dos outros animais.
Não apreciamos a designação "outros animais".
Queremos mais.
Nunca nos contentámos com o nosso desígnio.

Por isso creio nos joelhos de Jesus
enquanto metáfora possível
da pequena história comum,
a nossa dor colectiva.

A minha casa de sonho partilha o muro
com o melhor cemitério.
É o cemitério mais belo da Terra.
A casa parece abandonada.
Gosto de pensar que me espera
com o ardor
de quem quer regressar
ao mundo dos vivos.

A Morte ameniza a maldade dos homens.
Torna-os amáveis.
(será essa a sua benigna intenção?)
Daí encontrarmos nos cemitérios
os melhores vizinhos.
Fazem-nos boa companhia,
com as suas breves palavras,
enquanto aprendemos a amar
os vivos.
Os vivos têm muita dificuldade
em deixar-se amar.


Olho o sangue pisado dos joelhos
de Jesus
pregado na cruz,
lembra-me o quarto na penumbra
onde tento, por vezes,
esconder o meu corpo exposto.