quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Férias




Numa terra sem tempo
bisturis
utopias
a pele veste
o silêncio inteiro
o vento  morde
os cabelos
como uma gaivota
doida e atrevida
adivinho  por entre
a longínqua  solidão do mar
na companhia dos dois cães
e um  sumo de beterraba
o remédio
para a inevitável renovação
do sangue

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Aparição

Foto de Tamsin Swait


Era de noite
e não fui autorizada 
a contemplar o teu corpo
como seria devido
o tempo breve foi 
avidamente gasto pela pele
a invadir a  pele
o olhar ficou em falta
não se permitiu demorar 
nos contornos da carne
todas as imagens 
foram fotografias 
subtraídas à memória
foi sempre de noite
mesmo quando havia Sol
cada fugaz encontro 
era um retrato 
roubado à investida
entender o fulcro 
da aparição é recorrer
ao arquivo da polpa dos dedos
ficaram marcados 
pelo relevo dos ossos
emergindo à superfície
o tacto resgatou 
o território do diálogo
a confirmação de uma escultura
adivinhada na escuridão
um escudo no quiasma optico
máquina de filmar sem luz
no final restou 
um sequestro irreparável
de negativos 
ondulados pelo calor


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Valete de Paus ou Espingarda? (isto de não ser amado é fodido)

Valete



O verdadeiro artista faz o que quer, escreve o que lhe vem à cabeça, inventa o que a sua liberdade oferece.
Estamos todos de acordo: não há machado que corte a raiz ao pensamento, como dizia Carlos de Oliveira.
O pensamento liberta mas também pode prender. Todos construimos as nossas prisões, as nossa fugas, as nossas viagens. Somos feitos de água e ferro. Deslizamos e vamos ao fundo. Dizemos coisas.

No meio da polémica "Valete versus Feministas" senti necessidade de analisar a letra da obra de que tanto se fala.. A que ele nega ter mensagem para depois vir a admitir que a dita só se revelará no fim de uma trilogia de músicas.

A liberdade passa regularmente por aqui. E hoje vamos dedicar a nossa atenção à letra do BFF de Valete.


Foda-se a sério mano?
Não te ia mentir, mano!
Foda-se!
Ya, não te ia mentir
'Tá-se bem, eu vou ver isso! Tchau ai mano
Ya Tchau



Vê-se claramente que são dois estudantes de filosofia a falar (o videoclip esclarece que a conversa é telefónica o que prova que são alunos aplicados, até à distância se dedicam à matéria)
Discutem Kant, obviamente.
No meio do seu elaborado sistema metafísico Kant "perdeu" algum tempo a discutir sobre o valor da “mentira por propósitos altruístas”:

“Imagine que esconde um amigo inocente na sua cave. Vem um assassino à sua procura para o matar. Pergunta por ele. Deve mentir para o salvar?”
A situação inventada por Kant era esta e a resposta dele é “Não”.
Argumenta que, mentindo, o assassino iria embora, continuando a sua busca e, entretanto, o amigo sentindo-se em perigo teria fugido pelas traseiras e inevitavelmente eles iriam dar de caras um com o outro. Parece estúpido e várias pessoas sérias conjeturaram que o senhor nesta altura do campeonato estaria já com Alzheimer.
Mas, depois de bem meditarem, outras pessoas concluíram de modo diferente. Ou seja, o que Kant descobriu (sem ouvir Rap nem ter saído de uma pequena cidade da Prússia toda a vida) foi que o poder que temos sobre as consequências das nossas ações é muito pequeno. Não controlamos nada do que acontece. Por isso mais vale cumprir as regras. E dizer a verdade.

Portanto é isto que o estudante faz ao telefone: diz a verdade ao amigo na esperança que tudo corra pelo melhor. Mentindo talvez o desfecho tivesse sido bem mais trágico. Mas não quero dar spoilers...



Com o coração golpeado gravemente
Ansiosamente ele põe a chave na fechadura
Roda a chave para a esquerda ele roda suavemente
Abre a porta e vê a casa toda escura
Do quarto ouve um som que parece Jovanotti
Nah, afinal é Luciano Pavarotti




Aqui nitidamente começa a mensagem de preocupação social implícita na obra musical. Trata-se um homem com claros problemas auditivos. Ele confunde Pavarotti, um cantor de Ópera com Jovanotti, um cantor pop e de rap. São ambos italianos e isto prova que a personagem desta história está a usar um aparelho auditivo. Valete a chamar a atenção do público para este flagelo que é a venda agressiva, e sem regras, destes aparelhos sem um correto diagnóstico dirigido à patologia de cada um. Isto tem levado a um aumento exponencial de queixas como dizia um senhor da DECO que eu vinha a ouvir na Rádio no caminho para aqui. E estão a ver as consequências, baralhar Pavarotti com Jovanotti não lembra nem ao diabo.

Por isso, malta, não façam mau figurino: para melhor ouvir Valete  escutem o vosso otorrino.



Para não fazer barulho ele anda bem ligeiro
Sorrateiro enquanto anda assenta o calcanhar primeiro
Tem a caçadeira no armário do escritório



Muito bem: a caçadeira está no armário no escritório, fechada, para segurança da família, segundo as regras da lei da caça. É muito importante esta medida para evitar acidentes envolvendo crianças, seres ingénuos, que tomam as armas por meros brinquedos, podendo aleijar-se a sério. Ninguém quer essas tragédias.


Instinto predatório para mandá-los para o crematório

Preocupação ambiental explícita. A cremação é o processo de transformação do corpo sem contaminação de agentes patogénicos nem resíduos sólidos ou líquidos, só se liberta cálcio e potássio.
Ainda por cima há um problema de falta de espaço nos cemitérios: Valete bem.


Pega na arma com uma postura insegura
E a tremer empurra para a direita a patilha de abertura



Mensagem política: virar à Direita é perigoso e mete medo.



Bem insano ele vai entrar sem plano
Um cartuxo em cada cano e cerra o semblante
Puxa a patilha e pensa no amigo de infância
A seguir engatilha a arma para a trilha de vingança
Faceta de louco põe a mão na maçaneta
Ele quer matá-los e fazê-los apodrecer numa sarjeta
Revolta macabra ele quer ver a cabra morta
É a reviravolta, respira fundo ele abre a porta



Crítica à política de detenção de armas nos EUA onde até os loucos podem possuir armas e daí o absurdo número de massacres de pessoas.




Uma vida radicada numa entrega tresloucada
Uma vida debitada, dedicada a ti
O esforço que fiz para teres a vida acautelada
Porque trabalho como um escravo para que não te falte nada

Senti-te estranha, senti o clima alterado
Eu devia ter calculado que era tudo falseado
Relação já não tinha chama
Mas nunca pensei que acabasses com essa doninha na minha cama
Forreta, era o que ouvia nas tuas bocas
Quando fui eu que comprei as tuas joias, as tuas roupas



Atentai bem nestes versos, jovens, que neles reside um grande ensinamento de Valete: o amor e a lealdade não correspondem a qualquer valor pecuniário.

Precisam que esmiúce mais um pouco esta noção?
Amor e lealdade não se compram. Não se compra uma pessoa. Portanto não se pode vir depois cobrar o carcanhol investido quando as coisas dão para o torto.
Aliás, já vai sendo tempo de os moçoilos perceberem que não têm de sustentar as mulheres, elas bastam-se a si próprias, o mundo do trabalho já não lhe está vedado como nos tempos de antanho.
Portanto, jovem: entre uma rapariguinha do shopping bem vestida e petulante e uma moça que tem de manter dois empregos para sustentar os filhos do casamento anterior escolhe a segunda, porque ela nem tempo vai ter para ti quanto mais para o teu melhor amigo.

E para as garinas: não têm de servir para serem servidas. Vocês bastam-se a si próprias. Estar na dependência financeira de um homem é uma perda de autonomia limitante que nos dias de hoje não faz sentido, nem sequer é vantajoso. Libertem-se da educação machista que tiveram.

Acabo de ler um clássico da literatura, do Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde esta problemática é desenvolvida quando ele nos conta a primeira paixão da personagem, ainda muito jovem e ingénuo: a bela Marcela. Uma moça que tudo fazia em troca de joias caras. Só muito mais tarde o incauto apaixonado se dá conta que era a cobiça e não o amor que movia a donzela.

Por isso, amigos, leiam os clássicos, releiam-nos, ou então atentem no que diz Valete.




Puta, cona alargada, pura insana
Encharcada de moralismo sempre armada em puritana
Agora vais sentir a sequela
Com a caçadeira enfiada na tua goela
A bala a perfurar a traqueia



Outra dica importante de Valete para os adolescentes: não comparem pilinhas uns com os outros. São brincadeiras que parecem inconsequentes: ai e tal, deixa cá medir a tua e a minha, a ver quem tem maior e assim, mas depois aquilo fica a germinar na cabecinha, na de cima, bem entendido: o nosso melhor amigo é mais abonado que nós. Vai daí um dia acreditamos que a cona da nossa namorada fica alargada só porque levou com um mangalho maior que o nosso, e não fica, que o criador fez o músculo vaginal com uma elasticidade a toda a prova e de modos que ser grosso ou fino, ser curto ou comprido o efeito no feminil saguão é o mesmo.



E o teu corpo como plateia enquanto a morte fraseia:



Bela metáfora, ironias à parte.



Nós éramos únicos, os últimos moicanos
Melhores amigos desde os 8 anos
Éramos os putos das trapaças e chalaças e toda gente
Com graça chamava-nos de comparsas
Laço alquímico, sentimento mítico
Dei-te amor bíblico tu eras só um cínico




Amor bíblico é um sinónimo de sexo e assim estamos perante um momento Brokeback Mountain o que só prova que a homofobia não está a passar por aqui. Valente bem.




Lembras-te do nosso pacto de sangue
Se fosse preciso era morrer um pelo outro como num gangue
Para a minha mãe eras como eu, deu-te o me'mo trato
Sangrámos juntos, comemos do me'mo prato
Quem diria que iria ver-te com essa fingida
Quem diria que seria o teu melhor amigo a tirar-te a vida
Vosso casamento no inferno é o que eu prevejo
Puta, dá-lhe um beijo e pede um último desejo
Vê a gruta do abismo na viagem conjunta
E a bruta pena capital, o karma da vossa conduta




Momento "abaixo a xenofobia": se na Arábia Saudita o adultério é crime e aqui em Portugal, na mente de muito boa gente, também deveria ser, é porque somos todos irmãos, não?

Falemos então de Monogamia.
O Valete tem uma música cujo título é: Monogamia. Fala de uma relação que o Valete tem com a Liberdade. Em oposição à Liberdade existe a Religião. E o nosso artista é um fundamentalista desta Monogamia: não troca a Liberdade pela Religião nem para dar uma escapadelazinha sequer. E tem toda a razão. Haverá melhor Monogamia?

Desconfio que a protagonista feminina do BBF é uma fã incondicional do Valete. Somos todos, não é verdade?


Tiago- “Uhn Uhn”
Ana- “Ei então o que é que foi?”
Tiago - “Foda-se, pesadelo do caralho!”
Ana - “Estás todo suado!”
Tiago - “Foda-se!”
Ana- “Vai Tomar um banho!”
Tiago- “Ya!”



Momento de defesa da saúde pública: o suor é um meio ideal para a multiplicação de bactérias. Tomar banho dá saúde e faz crescer.


Esta é a minha interpretação do texto do artista. Se ele não gostar tenho outras. (nah, estava a brincar.)



























sábado, 31 de agosto de 2019

Invenções

Imagem de Sophie Cauvin


O que inventámos primeiro:
o amor ou a palavra?

Qual o padecimento primordial:
o sossego ou o silêncio?

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Mestres

Harry Houdini, 1899



A vida é
uma miragem
minha amiga
todos tendemos
a ser mestres
do ilusionismo
uns grandiosos
Houdinis
outros parcos
Copperfieldes
alguns Elizabethes
Savallas enquanto  
partner do Astro
fracassando nos números
telepáticos ou
espremendo o corpo
contra a caixa
na esperança
de escapar à serra
que nos irá cortar
ao meio mais dia
menos dia


quinta-feira, 18 de julho de 2019

O Som e o Barro


Foto de  Francesca Woodman



A tua boca:
uma breve despedida
do mundo

dispo
o meu corpo
de mulher

as sobras:
o som
o barro
a roupa
o invisível

quarta-feira, 17 de julho de 2019

JACQUES O FATALISTA

O 2º Livro escolhido pelo RAP
para o Clube de leitura de Obras de Humor da ECON 



Podíamos dizer que Denis Diderot é um bom contador de histórias. Podíamos mas seria ficar aquém da verdade.  Mais que um contador de histórias, o autor é um zigzagueador de narrativas, de tal modo os vários enredos se vão entrelaçando uns nos outros formando no livro uma delirante tapeçaria de peripécias.
Em Jacques, o Fatalista, consigo identificar trinta e três histórias, umas mais longas, outras mais curtas, que se interrompem para dar origem ora a umas ora a outras, sempre conseguindo prender o leitor a cada página do livro.
São elas:

1- A História da Viagem de Jacques e do seu amo, montados a cavalo, com destino não se sabe bem onde.  Tem praticamente a duração da totalidade do livro.

2- A História dos Amores de Jacques. Também demora todo o livro a ser narrada.

3- A História do Sr. Pondichéry, o mau poeta.

4- A história  do irmão de Jacques, Jean: o carmelita descalço.

5- A história do padre Ange.

6- A história do Sr. Pelletier.

7- A história do capitão de Jacques e do seu amigo/inimigo.

8- A história sobre o Sr. Gousse, o Sr. Prémonval e a menina Pigeon.

9- A história do cavalo do carrasco

10- Outra história do Sr. Gousse, quando este decide trocar a esposa pela criada.

11- A história da Estalajadeira e Nicole, a sua cadela.

12- A história do Pasteleiro traído.

13- A história do compadre do estalajadeiro.

14- A história do Benemérito Extravagante.

15- A história do cão do moleiro, o namorado de Nicole, a cadela da estalajadeira.

16- A história do Marquês dos Arcis e da Senhora de Pommeraye: uma vingança extraordinária com um desenlace surpreendente.

17- A Fábula da Baínha e do Cutelo.

18- A história dos avós de Jacques e da mordaça que lhe impuseram.

19- A história do senhor de Guechy.

20- A zanga entre Jacque e o seu Amo.

21- Jacques e o seu Amo trocam de posições: agora Jacques conduz o Amo.

22- A história do secretário do Marquês dos Arcis, Ricard, e do Padre Hudson.

23- A história da perda da virgindade de Jacques com a menina Justine, a namorada do seu melhor amigo Bigre.

24- A história das aventuras picantes de Jacques com as suas vizinhas casadas, Suzanne e Marguerite.

25- A história da cabaça de Jacques.

26- A história do Amo e do negociante de quinquilharia

27- A história dos amores do Amo com a menina Agathe e a intervenção do cavaleiro de Saint-Ouin.

28- A história da viúva encantadora.

29- O reencontro do cavalo roubado do Amo.

30- A história do "filho" do Amo

31- O final da História de Jacques e Denise, que no fundo é a mesma do ponto 2.

São todas deliciosas mas faço um especial realce para o ponto 16 e 17.

Jacques é um fatalista, seguindo as sábias palavras daquele que tinha sido seu comandante na tropa, acha que tudo está escrito lá em cima, no grande rolo. (Por quem e porquê fica a pairar como mistério último).
 Por isso não vale a pena correr nem para nada por coisa alguma. Não vale a pena rir ou chorar porque nada se desviará do seu destino. E no entanto... ele continua a chorar e a rir e a tomar as suas decisões conforme lhe parece o mais acertado (ou segundo o conselho da sua cabaça). Ser fatalista é um consolo, mas ainda assim um alívio fraquinho, pois nunca sabemos o que está escrito lá em cima. O melhor mesmo é ir contando histórias, construindo narrativas, deixando o discurso fluir nessa pequena grande viagem que é a vida.

Não percam, divirtam-se!