terça-feira, 18 de junho de 2019

mármore


imagem de Zeitguised


mil vezes o sopro
do fósforo que arde
na bifurcação do silêncio
um breve brinde tchim
à geologia das convulsões
mil vezes o sufoco
o cataclismo instantâneo
à travessia do mar morno
ininterrupta e lenta
a bordo da barca
da mulher-mármore

um breve brinde tchim
partir o corpo
contra a lareira
e abraçar a solidão
do depois





sábado, 8 de junho de 2019

O meu Porshe cheira mal

O livro que me arrependo de não ter comprado este ano
na Feira do Livro, mas que ainda vou a tempo de caçar



Estoiro no poema o título
estridente
mais apropriado ao livro
como agora se utiliza
pra atrair a freguesia

nem sequer é totalmente mentira
um polígrafo aplicaria aqui
um impreciso no máximo

há que reciclar as licções de audácia
que as plagiadoras oferecem
aos zelosos direitod'autoristas
esses enconados

já tive um porshe já
em tempos que já lá vão
descapotável arejado
e em segunda mão

Hoje em dia tenho um chaço
mas este meu popó tresanda

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Os décimais

desenho de Eno Henze



entre graus e grifos
grilos figurantes
a face mirrada
do improviso
minudências
ocarinas poças
mal comparadas
nos intervalos
da unidade
entre passos e pernas
débeis dobras
tropeções gaguejantes
hesitações consumadas
esboços esquálidos
tentativas e erros
baque boléu bóia
Eros paralítico
lições acidentais
de teologia
chumbo raso
na tergiversação
pequena medida
de momentos falhados
nomes caídos abaixo
na escala
do esquecimento













sábado, 1 de junho de 2019

O Gato das Teclas


Jacques, O Ficcionista


Apanhou-me na casa de banho
deitou-se a escrever
no feed de notícias
sarcasmo sobre tragédia
do quotidiano
desculpei-me por ele
mas era tarde

Racista
Doida
Imprestável

Os seus erros
de ortografia
falharam-me
como álibi

terça-feira, 28 de maio de 2019

Bicho-da-seda


Imagem de Tatiana Gulenkina


Um casulo
no ouvido
versos
suaves algodão
doido salvador
que tira o ruído
do mundo

Um bicho
eclode
no ventre
borboleta
infinita
liberdade
de voar

sábado, 18 de maio de 2019

Mandrágora




Afaga com colher
de pau afaga
o caldeirão de grainhas
o rio saltitante
desenhando vagens
na parede em frente
mapas do mundo
travessias urticárias
buganvílias invadindo
a estatuária octaviana
do jardim o musgo
o eco das pupilas
sombras verdes
penumbra intermitente
da mistela fumegante
ondas curtas quebram
pulam rangem
o longo intervalo
da espera derrete
no caldeirão afaga
onde vai desembocar
o brigadeiro da saudade
a minha mãe-d'água








quinta-feira, 16 de maio de 2019

contradomínio (censurado pelo Facebook)




Um mergulho em câmara lenta
da falésia para o mar
que entretanto recua

em baixo
nos Jerónimos
avança um ornamento branco
por entre a jeremíada colectiva
de náufragos
que vagamente ressoa
a  marcha nupcial
um jogo de linguagem
vagidos e hóstias na boca
resset de pecados:
o dote de Deus:
redenção

cortejo de futuros bêbados
gafanhotos
sapos
business as usual
um perfume torpe
costeletas de camarão
uma sucessão de proformas
convergentes minimizantes
um ornamento branco
num banquete que em vão
dará Banguecoque

na primeira noite pica-se
o ponto
um poltro articulado salta
do baú
em timelapse:
o galope da cama
o poltro a apostatar:
o seu primeiro suicídio:
iniciação de olhos borrados
ainda mal abertos