segunda-feira, 30 de junho de 2014
ricochete
Faz ricochete
fez essa bala
balada
bola de catechu
em cheio na nuca
vinda do lado
de onde se queria
atingir
do nunca
o bolo de chantili em cheio
na cara
esboroando-se pelo pescoço
no regaço
no chão
no sulco que ficou dos pés
no fim do caminho
da fuga lenta
da desmiolada marcha
de caserna
teve até piada
domingo, 29 de junho de 2014
AMÁLIA E O MUNDO
O Mundo amou Amália
O Mundo não pára p’ra amar
Constante parafernália
Não se esquece de girar
Amália amou o Mundo
Recebeu um embrião
Plantado no peito fundo
Que se chama solidão
Amália e o Mundo, amantes
Separados no final
Amália regressa a casa
Que se chama Portugal
Amália dorme na Morte
Seus braços são quem a aquece
O Mundo não chora, é forte
O Mundo Amália não esquece
sábado, 28 de junho de 2014
A MULHER
A
mulher, manhã cedo se levanta
Carregando
o seu filho, a sua dor.
A
saudade é rija, a vontade é tanta
Que
vai vencer o sonho e vender amor.
E
mente, desmente, cala, contradiz.
Beija
a paixão como quem chão encera.
Mas
apenas finge amor p’ra ser feliz,
Tem no
coração mentira sincera.
Pelo
dia fora constrói a luta,
Vomita
um sorriso só, na sarjeta.
Mexe
no pó, corre, canta e labuta.
Queima
as asas a doida borboleta.
Ao
sair da noite chamam-lhe puta,
mas
traz ao peito um coração poeta.
Prodígios
as palavras não são servidas em bandejas de canapés
estão por vezes no alto dos coqueiros
fico à espera que caia,
uma,
duas,
três,
pois não trepo
nem tenho macaco
por vezes oiço-as no Master Blaster (Jammin') do Stevie Wonder
e peço o milagre da migalha
que caia,
uma,
duas,
três
de um trecho de notas com ritmo
não estão na beira dos rios
podem pressentir-se no fundo dos abismos
para além dos abismos que nos convidam a saltar.
estão dentro de uma bota onde mora um lacrau perdido
e, se as queremos, há que calçar a bota e sofrer
as quarenta oito horas de dor
e todos nós sabemos
que quarenta e oito horas de dor
dão uma memória lancinante para a vida toda
estão por vezes em sepulturas
a viver com os mortos
e todos nós já lemos dos assaltos
aos cemitérios
é para tentar a ressuscitação de
uma,
duas,
três,
de volta à terra
num desses pequenos prodígios
do dia-a-dia.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
shutdown
Enquanto o Windows tenta ligar-se à rede sem fios e renovar o
meu endereço IP o serviço teima em permanecer desligado, fico isolada na
página em branco.
O problema persiste e acabo por ligar ao meu assistente de
rede. A dimensão da complexidade das causas é tal que pede a intervenção duma
rede de assistentes. Que passam de um dia para o outro. Os IPs voltam a
renovar-se insistentemente e tudo permanece velho.
Envelheço só, na minha página em branco. O técnico intervém
de facto, de corpo presente. Dá-se tempo ao tempo. E o serviço volta a cair.
Cai-me no chão a esperança que estava suspensa na página em branco. Chegam
algumas linhas, a preto, para me prestarem os primeiros socorros. Sem sucesso.
O técnico volta ao local do crime. Mete as mãos ao trabalho intervindo mais
concretamente. Parece que a normalidade foi alcançada. O serviço está agora de
quarentena. Apaga-se. É o silêncio.
Estou encurralada na página em branco.
Voltam uma pequena linha, a bold, de plantão, para tentar
novamente alguns paliativos.
Tento colaborar para evitar a decepção. Com alguma
dificuldade chamo novamente o técnico. Ele consegue, não sem esforço, manter a
calma. Sossego.
Entram em cena algumas linhas mais longas, a itálico que
estavam destinadas a eventualidades de longa duração. Entretenho-me com elas. O
técnico diagnostica um problema de origem central e sai em direcção à sede.
Tudo se irá passar agora fora do alcance da minha vista. Tão longe como se
fosse noutro planeta. Não vejo as manobras de recuperação do técnico. Ele
diz-me que há que ter confiança. Olho para a página em branco. Está em branco.
As linhas partiram, já nada mais podiam resolver. Apenas o branco a olhar para mim, como se o
branco olhasse. Olho a página. Como se o branco fosse visível.
E o problema é maior do que a rede de assistência poderia
calcular. Também eles estão perante uma página em branco. Em silêncio. Sem
respostas. A olhar o branco da página, como se o branco se pudesse ver.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Para o homem que disse preferir matar o filho in utero a tê-lo com uma mulher que não lhe pertence
Apesar de seres homem
no sentido taxonómico do termo,
não és pessoa,
não chegas lá.
Não tens a consciência de ti
por não a teres do outro.
Porque meu caro
excremento de insecto,
apesar dos dezassete milénios
da mesma mentira
fica sabendo que
uma mulher não é um porco.
Uma mulher é esse outro.
Tu que és a face
da extinção da espécie humana
tens de saber que
ainda que a degoles
que a trespasses de facas
e alguidares
e bebas o seu sangue
fuçando no chão
rasteiro como lodo
como lama que és
jamais possuirás
uma mulher.
underdog
Os ossos
abaixo dos ossos
abaixo dos corvos
não foram ouvidos
perderam-se das laranjas
cairam nos poços
estilhaços
na osteoporose
do tempo.
Gulosa
Será sericaia?
Bolacha bojuda
gulodice de catraia
com doce de arruda
p'ra afastar bruxedo
tipo de bolo lêvedo
p'ra comer e chorar
por mais, feitiço
dos que se engolem
e dão derriço
por especial paté
que vem da lambarice
e por pecado até
ninguém há que proibisse .
sábado, 21 de junho de 2014
Outras Pessoas
Lembro-me dos meus pés sobre os teus pés numa dança desajeitada na cozinha enquanto o estrugido alourava na sertã. Eu, uma outra pessoa, e tu, uma pessoa ainda mais outra. Os dois cegos para o equívoco, surdos para todas as músicas que não aquela que nos dizia aos ouvidos que tudo iria ficar bem. Naquela noite pelo menos a calma reinava ainda na cozinha e depois no quarto, no fim da dança de cama e lençóis. Cegos e surdos para tudo o que já ia correndo mal. O petit nom com que tentavas o carinho e que me soava mal. As minhas interrogações à história que não batia certa. O que contava era essa paz que os corpos faziam um ao outro depois da guerra de almofadas e mantas. Não pedíamos mais. Não sabíamos que era preciso mais. Nessa noite foi suficiente para as línguas que se molharam nos olhos. Foi satisfatório para os olhos que se moveram como línguas. Estávamos cegos para todas as incompatibilidades evidentes. Éramos surdos para uma música que vinha lenta, suave, e quase inaudível que prenunciava os dias do futuro afastamento. Eu, vejo agora, era uma outra pessoa. E tu, também sabes, eras uma pessoa ainda mais outra. Duas pessoas diferentes do que somos. Outras para quem somos agora e outras também para quem julgávamos ser na altura.
Nessa noite ainda
era a paz. Estou a ver-nos com se fossemos personagens de um filme antigo, falado num idioma estrangeiro. Não sei o que digo. Não percebo o que dizes. O que dizemos um ao outro deve ser mentira, mas ali ainda não o suspeitávamos. Vejo, enquanto dançamos, os meus pés sobre os teus pés, ao som do estrugido que alourava na sertã, que os corpos se conheciam como dois velhos companheiros.
Dois velhos companheiros que se haveriam de renegar três vezes um ao outro. Como estranhos.
Dois velhos companheiros que se haveriam de renegar três vezes um ao outro. Como estranhos.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
quinta-feira, 19 de junho de 2014
BARRIGA DE POEMAS (SINOPSE)
Na “Barriga de Poemas” encontramos mensagens que vêm do ventre. Esse
rio subterrâneo onde se escondem os mistérios da MEMÓRIA e moram os FANTASMAS
que nos oferecem companhia, onde nascem as eternas interrogações sobre o TEMPO
e vivem os CORVOS que voando de lá nos visitam, onde fervilha o DESEJO antes
sequer o percebermos e é tecido o fino manto da CICATRIZ que nos ajuda a sarar.
como os gatos
Começei a rimar como os gatos aprendem a miar. Por isso uns dias respiro melhor. Outros espanto a caça.
clandestinas
Há o fenómeno de distorção da gravidade das mãos que por vezes as torna mais pesadas que o normal. Nesses dias não as consigo levantar do tampo da mesa para escrever. As linhas continuam mentalmente e o trabalho físico é feito a posteriori. Nestas ocasiões aproveito para verificar a fidelidade das mãos. Serão elas capazes de reproduzir com exactidão o texto pré-determinado ou aproveitarão para sub-repticiamente plantar algumas palavras clandestinas no meio das frases?
em toda a parte
no conta-quilómetros do carro
no quiosque da esquina
nos olhos amorosos do cão
no posfácio do livro
na minha palavra-passe
no fecho-ecler encravado
no caroço do pêssego de roer
no trânsito parado
no funcionário-jardineiro
que desbasta as ervas-daninhas
no risco de bisturi sobre a pele
na manga da camisa lavada
recebendo o ferro
nas hóstias de camarão do chinês
na mala nova
que combina com a túnica
na fotografia desolada
da paisagem de Titã
na senha para fila do talho
no frasco de Flower do Kenzo
no dicionário onde procuro
a palavra tupperware
nos cobertores embalados
que vieram da lavandaria
nas natas de soja
para inventar uma sobremesa ligth
na toalha turca que voou pela janela
na dor ciática
nas cadeiras de praia
arrumadas desde o ano passado
no cartão-postal
do Farol de Cabo Branco
no som do piano
que invade o prédio
na estática do écran de televisão.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
O bom cão
Estava em Edimburgo quando pela primeira vez e única falei com Deus. Comecei por lhe pedir perdão pela estrondosa incongruência. Se ele tudo sabia iria achar que estava trair as minhas íntimas convicções. Afinal o "meu" Deus não interferia nas acções humanas. Mas justifiquei-me que não era por mim, não era por nenhum humano sequer. Naquele momento eu temia que o meu cão estivesse preso por uma corrente a uma casota de cimento. Mais tarde veio-se a verificar que assim fora de facto. Tinha sido roubado e havia 15 dias que estava em parte incerta. Eu em Edimburgo, num estágio, o meu irmão e avô a procura-lo no Ribatejo. Todas as noites a mesma imagem, o meu cão a uivar de saudade amarrado a uma barraca de pedra, ao frio, à chuva. Um milagre teria de ocorrer para que ele voltasse. Disse-Lhe que os cães eram melhores que nós. Que eram puros e não mereciam sofrer. Os escoceses, um inglês, que por lá andava, e um nigeriano solidarizaram-se comigo. Viam como era triste e doloroso perder um cão tão bom, tão importante.
Uma noite, já de pijama, o telefone tocou de Portugal, era o milagre. O meu cão voltara a casa e os pormenores confirmaram o inesperado: Deus ouvira-me. Os escoceses, o inglês que por lá andava e o nigeriano, levaram-me a festejar. Dancei ao som das músicas tradicionais, nos braços de um homem forte de kilt e ainda oiço o som da minha gargalhada enquanto me esforçava por rodopiar sem ser lançada contra as paredes numa força centrifuga, ao passar de par em par.
Voltei, não sem alguma dificuldade, às minhas convicções antigas. Deus não interfere nas vidas humanas. Abre apenas um excepção ou outra para salvar um bom cãozinho.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Com hidromel
Isso não vai lá
com poesia.
Só se for com
hidromel,
bebida de ursos e
deuses
que sabe a cerveja
e dá asas de
formiga
para decifrarmos
sempre
o caminho
ou no caso de nos
faltar direcção
continuarmos
por termos muitos
pés
e muito vento.
Com poesia não vai
dar
pois para isso
é preciso duvidar
até ficar quieta
e nestes casos o
melhor
é seguir viagem
até esquecer a
meta.
Hidromel,
eu aposto no
hidromel.
decidir
Decidir é viajar. É apontar a um local onde tudo é seguro e desinibido. Sem medos. Por isso é sítio de poucas visitas. Por vezes o sítio mais solitário do mundo.
paredes
Um dia a força foge.
Fico de algemas na mão
como um sempre-em-pé
polícia
enquanto a vejo
partir paredes
partir paredes
partir paredes
no desespero
de não te encontrar.
mulheres
A pedra no sapato da de 40 é a de 20. Porque ela ainda se lembra de como foi. A ignorância camuflada de inocência compondo uma força superior que a partir desse ponto irá para sempre diminuir.
bitaites
Eu posso crer nessa coisa da física quântica que diz que um par de partículas é sempre um par de partículas e uma vez separado por milhares de anos luz se move de igual modo. Posso crer nesses bitaites de física quântica com laivos de romanesco. Meia partícula em Júpiter rodando para o mesmo lado de meia partícula na Lua. Lindo. Mas é preciso notar que as partículas que rodam a milhares de mundos de distância podem dançar o tango, a valsa e a mazurka polaca que jamais se irão encontrar.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Candelabro
gota a gota
carneiro a carneiro
candelabro a candelabro
pionés a pionés
lêndea a lêndea
cornucópia a cornucópia
tecla a tecla
colherada a colherada
postigo a postigo
galocha a galocha
coentro a coentro
rosbife a rosbife
mosaico a mosaico
banana a banana
pétala a pétala
resposta a resposta
canção a canção
fotografia a fotografia
vou enchendo o lastro.
sarampo
Vou deixar as minhas palavras correrem. Não têm podido correr, tinha medo do sarampo que anda por estes dias na rua. Se acabam de quarentena fico sem poder sair. Sem poder cair. Agora que deixei de ter medo vou permitir que adoeçam. Vou solta-las na praceta de trás. Vejo onde desaparecem por entre os montes e resta-me esperá-las ao entardecer. O que trarão escondidas nas algibeiras do avental? Penso, enquanto afio o bico do lápis com a ponta do bisturi.
chuva de outros países
Falo contigo secretamente. Troco ideias e palavras. Como cromos de colecção. A minha caderneta está quase pronta mas falta-me aqueles dois cromos difíceis de ganhar. Também não os tens, pelo menos não à primeira vista. Mas de qualquer modo é bom ver as caras distorcidas. Aí desse teu lado são repuxadas de uma outra perspectiva. Encaixam numa outra arquitectura. O que tem algo de refrescante. A chuva de outros países vem sempre com fios mais repousados. Por isso mais capaz de dessedentar.
Escorregar no esparguete
O segredo é escorregar no esparguete. O segredo é escorregar no esparguete e disfarçar. Nem chegar a cair. Ou cair e levantar tão airosamente que ninguém repare na queda. Só no acto de se levantar airosamente do chão. De esparguete. O segredo é falar do esparguete. De como ele é cosmopolita e nutritivo e cheio de possibilidades. Nada é mais realista que as possibilidades. Por isso sempre que puder caia. Que nunca se sabe o que acontecerá depois. É toda uma panóplia de possibilidades.
diplomada
Pois bem, menina,
vieste de diploma na mão,
de cartola,
colocar as cartas
em sentido,
uns pormenores
que teimavam
em andar à malta
sobre o palustre monarca.
Vieste historiadora
compor
aquela narrativa
que se tornou
hilariante
e que de aí em diante
me leva às lágrimas
que não são de riso,
e por pouco não são de raiva.
Da história ficou
a conspiração
constipada,
bem ungida
de canja
e espada.
Menina,
deixaste a caçarola
ao lume,
volta para casa
e apaga o fogo
que aqui só cinzas
queixumes
pequenos pés de página
ficaram para contar
o resto do livro.
domingo, 15 de junho de 2014
malabarismos
Senta-te.
Fecha os olhos.
Quero ver
a tua pele em alerta
do alto dessa falésia,
aplanar-me no mergulho,
sem medos
de malabarista.
Sento-me
a teu favor
balançando contra ti.
Rende-te,
são preces
as rédeas
com que te prendo,
sem arremessos
de moralista .
Quero ver-te
respirar
esse sal que sai
da frincha
a luz que vai
e fica,
desagua no teu colo
cavalgado,
túmido
do meu ventre,
sem bloqueios
de artista.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
VESTIR VAN GOGH
Ardem girassóis
cobrindo os seios
como dois caracóis
redondos e cheios.
Trepam aos braços
lírios, entrelaçam
na cintura traços
que ao púbis lançam
os laços, o duende
pintando em alerta
a cor que acende
o desejo que desperta.
SINE DIE
Há aqueles amores
que são como comida que se prepara, tempera e coloca no frigorífico
de manhã até à noite para tomar o sabor dos condimentos.
Depois a hora de jantar chega e um imprevisto inadiável surge.
Deita-se mais um pouco de vinagre, limão ou vinho e permite-se que
marine mais uma noite, na esperança de que no dia seguinte tudo
esteja ainda mais saboroso. Quando surge o momento da refeição os
alimentos estão no ponto. Mas eis que novo acontecimento impede a
confecção do pitéu. E mais uma vez se reforça o tempero. Por fim,
chegada altura certa, coloca-se no lume e sente-se o cheiro do ácido
que acabou de azedar.
Páginas de cartas
Muitas páginas de cartas depois percebo que não tinha feito mais que calar-me por palavras.
Açude
Abre brechas
por entre o grude que eu,
sapateira
de vão de escada,
nas horas vagas
fui inventando
ora cuspindo
ora construindo
com mãos descomplicadas,
com ráfias
e farripas de cabelo caído.
Ao mais ínfimo bafejo
do vento Norte
ameaça desmoronar
uns milímetros.
E nós bem sabemos que bastam
uns milímetros
para fazer sucumbir
as fortalezas impenetráveis
pois estas dependem sempre
da absoluta imobilidade.
Aquela pequena ave
que permanece
adejando sobre o açude
tem medo
das horas, dos dias
em que não vai poder manter
esse incessante movimento
pois se ele cede
a água açucarada solta-se
pelo mundo
arrasando tudo
o que se opuser
ao seu sonho.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
problema matemático
Desconfio que o teu problema é, mais do que médico, matemático. Daqueles que implicam complexas fórmulas com letras e números e só se resolvem muitos anos e vários hospícios depois.
Seco
O riso é a capacidade que me resta. Sobrou-me o riso, das lágrimas que se esgotaram. Ao atravessar o rio e alcançar a outra margem, de tanta água engolir, deixei de poder absorver mais líquido e todo o que tinha me abandonou. O riso é um favor seco. Por isso hoje só posso rir. Se estou contente rio. Se estou triste rio-me ainda mais. Rio sempre. E fico a secar ao sol sorridente.
REVOLUÇÃO IMAGINAL
Ser uma imagem renegada,
alucinante
trilhar os circuitos da mente
sem trincheiras
a uma velocidade intoxicante
fugindo à infecção
procurando um território sem leis
onde se escrevem guiões
onde se derramam achados
apocalípticos
que se propagam imparáveis.
Ser apenas ideia radical,
deslumbrante e impossível
passeando nas sinapses neuronais
sem fronteiras
com uma intensidade vertiginosa
escapando à contaminação
buscando um mundo sem grilhões
onde se inventam filosofias
onde se propagam fantasias
reveladoras
que se difundem delirantes.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
As lutas não são só no ringue
As lutas não são só no ringue.
O sangue não escorre só das veias.
O pecado não vem só das putas.
O leite não desce só às vacas.
As sardas não surgem só às feias.
Os gumes não se afiam só nas facas.
As lutas não se ganham só ao murro.
Os olhos não servem só para comer.
A favor e contra
As palavras são a maior defesa contra o tédio e a maior arma de arremesso a favor do amor.
Bússola
A bússola procura o norte
a cobra procura o quente
o risco procura a sorte
o barco procura o vento
a terra procura a vida
o desejo procura o ventre
a água procura o mar
o tempo procura o tempo.
MUSTAFA
Olhos verdes
pulverizados de promessas
olhos negros
inundados do Nilo
suspensos uns nos
outros
pelo amor de
Nefrititi
pela flor do lotus
apartados por
ancestrais antípodas
ela escreveu-lhe uma
carta em castelhano
ele respondeu que
não lia português
e o silêncio
instalou-se
como aquele parente
longínquo
que chega por
ocasiões solenes.
terça-feira, 10 de junho de 2014
NA PEIXARIA
Enquanto
a rapariga
amanha a dourada
vou
olhando
os
espécimes expostos
do
fresco,
do
peixe passado,
do
peixe encurralado,
das
postas,
do
inteiro,
do
atum,
do
que exala
intenso cheiro,
do miúdo,
do
vermelho
e do
graúdo.
E a
pescada,
que o
já era
antes
de o voltar a ser,
tão inconformada
e quieta,
tão como
nós.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
ABRAÇA-ME ATÉ ÀS NOVE
Abraça-me
até às nove.
Depois
irei
ao trabalho
para
a Escócia
para
o Jardim Zoológico
ao
banho da Capadócia
descobrir
com
rigor cirúrgico
o
naufrágio
do
Titanic.
Encontramo-nos
no final
da
travessia
lá
no fundo
no
fundo,
no
fundo.
Bem
lá no fundo.
domingo, 8 de junho de 2014
O HOMEM ARANHA
O Homem Aranha agarrado à parede
encosta o cansaço da face ao
cimento,
constrói, suando, a teia da sua
sede,
febre sufocante e fatal do
alimento.
O Homem Aranha já mata cuspindo
silêncios com sabores de ilusão.
Quem morre range e chora e vai
caindo,
cala gritos, derrama a saudade no
chão.
O Homem Aranha nunca olha a presa,
não mostra as mãos calejadas da
tristeza.
Finge ser ave tímida adormecida,
nos olhos que come receia ver vida.
O Homem Aranha nunca foi um herói,
volta as costas ao mundo, fica a
penar,
acarinha a dor esfaimada que lhe
dói,
vomita agonias sangrentas p’ra
voar!
Sofrimento garantido
Só o sofrimento é garantido na nossa passagem pela vida. Há os que se acompanham de grandes alegrias e há os que são apenas puros e duros. A maior lição, ao longo da viagem, é ir aprendendo a distinguir uns dos outros e escolhendo os que mais nos convêm segundo a nossa necessidade de dor e prazer.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Eloquência
Entrelaço um feixe grosso
de palavras longas
com que te penetro a boca
a toca
no ir e vir
viciante de atenção
cega
obsidiante
tento alcançar
o cérebro
permenecer acesa
como um cigarro que
se ilumina no fim
e se gasta
como cinza
espalhando-se
espelhada
aos nosso olhos.
A Minha Velha
Há uma velha que passa na minha rua.
É uma velha muito bonita,
toda arranjada, elegante
vestida de cores ousadas e frescas,
de cabelo grisalho bem apanhado
num puxinho
e muitas vezes de chapéu.
Quando passa airosa e aprumada
penso, optimista, que esta é a minha velha,
a velha que quero ser quando for velha
daqui a sensivelmente
um quarto de hora.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
O último pôr-do-Sol
O tempo é tão grande.
Um dia haverá o último pôr-do-Sol.
O dia reinará inteiro, doente de febre.
Até a noite chegar
apaziguar a luz
e se tornar infinita.
Um dia haverá o último pôr-do-Sol.
O dia reinará inteiro, doente de febre.
Até a noite chegar
apaziguar a luz
e se tornar infinita.
A minha Bíblia
“ O estudo das
das galáxias revela uma ordem e uma beleza universais. Também nos
revela a violência caótica numa escala que até agora nem podíamos
imaginar. É notável vivermos num universo que permite vida. É
notável também que vivamos num universo que destrói galáxias,
estrelas e mundos. O universo não parece benigno nem hostil:
simplesmente indiferente aos problemas de criaturas tão
insignificantes como nós.”
Carl Sagan, Cosmos
(capítulo X: O limiar da eternidade)
Fingidores
O camionista é um fingidor.
Finge tão condicionadamente
que chega a fingir que é cansaço
o sono que deveras sente.
O hipocondríaco é um fingidor
finge tão ingenuamente
que chega a fingir que é ardor
a cólica que deveras sente.
O futebolista é um fingidor
finge tão matreiramente
que chega a fingir que é falta
a lesão que deveras sente.
O domador de feras é um fingidor
finge tão farmacologicamente
que chega a fingir que é dominância
o controlo que deveras sente.
O intermediário é um fingidor
finge tão subterraneamente
que chega a fingir que é ambição
a ganância que deveras sente.
O guloso é um fingidor
finge tão vorazmente
que chega a fingir que é fome
a ânsia que deveras sente.
O palhaço é um fingidor
finge tão alegremente
que chega a fingir que é riso
a tristeza que deveras sente.
A costureira é uma fingidora
finge tão afincadamente
que chega a fingir que é cócega
a picadela que deveras sente.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Chegou com três feridas
Llegó con tres heridas
La del amor,
La de la muerte,
La de la vida.
Con tres heridas viene
La de la vida,
La del amor,
La de la muerte.
Con tres heridas yo:
La de la vida,
La de la muerte,
La del amor.
La del amor,
La de la muerte,
La de la vida.
Con tres heridas viene
La de la vida,
La del amor,
La de la muerte.
Con tres heridas yo:
La de la vida,
La de la muerte,
La del amor.
terça-feira, 3 de junho de 2014
VILA REAL
Hei-de
continuar a receber
a
visita dessa memória
em
sonhos.
Hei-de
lá estar.
Hei-de
ter regressado enfim.
Ou
hei-de ir a caminho.
Quatrocentos
quilómetros
passando
por baixo
da
cambota
do
carro cúmplice
na
companhia
de um
cão conivente.
CANGURU
A
menina
meiguinha
insistia
naquele canguru.
Mas
ingénua,
incauta,
imprevidente,
contra-argumentei
com
as
debilidades da economonia
e a
boa-aventurança
da
poupança.
Agora
arrependo-me!
segunda-feira, 2 de junho de 2014
MARÃO
respirar alto
um fumo antigo
um vício velho
a irmã que morreu
faz tempo
trepar a saudade
até ao cimo
e olhar nos olhos
os montes
a irmã que morreu
faz tempo
largar a distância
pela estrada
a carícia das nuvens
no cabelo
lágrimas de granito
pela irmã que morreu
essa irmã vindimada
que era eu
Vampiros
Ao contrário do que as pessoas pensam
os vampiros não nascem vampiros. Eles transformam-se pelo vício do
sangue.
Encurralados na sua imortalidade
lançam-se numa busca incessante de estratagemas para abreviar o
tédio eterno. O alívio encontram-no quando tropeçam no sangue.
Uma vez provado, o sangue prende.
Começa aí um ciclo de inquebrantável sede vermelha.
A virtude do sangue não é a cor. É a
rusticidade do metal que a provoca.
O ferro do sangue é o mesmo que forma
o núcleo da Terra, o que gera o seu magnetismo.
Assim o vampiro é um íman tão antigo
quanto o próprio planeta. Quase tão poderoso quanto ele.
Tão escravo das suas intrínsecas
forças quanto qualquer vítima humana.
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