quarta-feira, 6 de junho de 2018

Poema em Apneia

imagem de Katie Scott




o poema não vem da boca
nem do coração
que lhe vai próximo
vem da contracção
do fígado aflito
lágrimas de bílis
coalhando em cascata
no profundo espaço
do ventre
lágrimas
derramadas escurecendo
o céu por dentro
travando os sovacos elevando
os socos invisíveis sombrios
o poema arde na vesícula
estimula a descarga do fel
em catarata de pranto preto
contaminando o tenso emaranhado
de veias e nervos cegos
quiasma óptico
esse fígado aflito
acende-se um fantasma
na respiração pestanejada
da pleura arde uma fuga
quebra lágrimas de tinta
um choco à deriva
no intervalo do corpo
uma apneia

terça-feira, 5 de junho de 2018

Madame Minete




Entra a Madame estrangeirada
com uma gata estacionando
no chão macio, perfumado,
do loby do consultório.

O tenro e loiro estagiário
recusa a ficha baptizada,
Minete de seu topo,
revelando o seu pavor
de tal obra complexa sugerida
que era apenas
como se obrigatória fosse,
talvez com a gata a ver.

Foi mandatório sobrar 
p'rá orientadora,
Minete p'ra mim
apropriado, dizia ele,
ao contrário! retorquia eu,
que se dane, dá cá!

Sem medos de manobras ou rótulos
aceitei a incumbência
de lábios abertos e positivos
por simpatia, mais do que apetite.

Entra a Madame e Minete, sua gata
e foi simples a operação
estendendo os membros oferecidos
meigamente,
mostrando falanges que se davam todas
num só breve instante
ao benigno instrumento, o corta-unhas.
                                                                                                                            

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Jesus e os Joelhos




Os joelhos de Jesus
a descoberto
na pequena capela
do cemitério modesto

costumo frequentar
os cemitérios

os epitáfios:
a nossa humanidade
o que vai além
dos outros animais
não apreciamos a designação
"outros animais"
queremos mais
nunca nos contentámos
com o nosso desígnio

creio
nos joelhos de Jesus
a metáfora possível
pequena história comum
da dor colectiva



A Morte ameniza
a maldade dos homens
tornando-os amáveis

encontrarmos nos cemitérios
os melhores vizinhos
boa companhia são
as suas breves palavras
enquanto aprendemos a amar
os vivos
que têm muita dificuldade
em deixar-se amar

o sangue pisado
dos joelhos
de Jesus
lembra-me o quarto
na penumbra onde tento
por vezes esconder
o meu corpo exposto


quinta-feira, 17 de maio de 2018

os astros são umas bestas




Sistema Solar




cavalos desembestados
desalinham-se 
nas suas translações desenfreadas
trocam-nos as voltas
em teimosas órbitas
revolucionárias


e por vezes no decurso de um milénio
lá se ajustam 
em favorável posição 
premonitória
durante o nano segundo
da nossa pequena distração

sexta-feira, 11 de maio de 2018

quando o amor vai à máquina




que não haja dúvidas
o poeta é cerebral
sabe usar a pistola
amputar pernas
para sobreviver
compreende bem
as conveniências
dos favores sem fervores
que raramente se encontram
a não ser na prostuição
e que os preços seguem
a lei da oferta e da procura
e por isso não hão-de ser
nem muito caros nem
muito baratos
o poeta descobriu recentemente que
quando o amor vai à máquina
encolhe
excepto no programa das lãs

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Não há palavras

Cristais de estruvite na urina




há bolas de espuma
contra paredes de lama
pulguinhas anémicas
a chupar macacos
raquíticos cristais
a roçar as vias urinárias
pequenos e herméticos
ataúdes hérnias
imaginárias
cordas de vime

beijar pescoços condenados
a mão que embala
o lombardo na salsicha
gotas de chuva ácida
a brotar a urticária da face
pó de vidro
a condimentar a sopa
cacofonia das entranhas
desavindas
o lacrau à espera do pé
que vai calçar a bota
a razão do medo
nas palavras

joelhos floridos
de hematomas no amparo
da queda o chão
molhados os prémios
da feira sempre
que acertavas no alvo
à espera o teu sorriso
atrás da porta
palavras não há
corações fumegantes
após a matança
o ego a insuflar

roupas espalhadas
na cama areia salgada
pelas ondas montanhas
em descanso
após a avalanche
serigrafias  de marionetas
por cima do sofá da sala
garrafas de cerveja artesanal
a  mitigar o gemido

cartazes de festivais
seco o cinema
alternativo farol
perdido na noite
fígado cansado do gelo
não há palavras
há figueiras carregadas
do fruto mel
que se derrama no mármore
fogos que alastram
sôfregos testamentos
futuros que jamais
serão abertos

bocas suspensas
numa prece realejo
espreguiçando uma canção
sopa de abóbora a arrefecer
na mesa do canto
os teus dedos
nus meus dentes
nunca haverá palavras










terça-feira, 8 de maio de 2018

embrião

Daughters Embryonic State: Rubbing Eyes
Robert Gadreau

Vejo-te com os meus olhos de cinco minutos de vida
olhos embrionários
sem filtros
que se vão esvair em água à primeira maré de lágrimas
olhos rasos de incertezas
olhos pretos com o cordão umbilical ligado ao mundo das sombras
a tua cara fecha-se
a boca um corvo vermelho furioso
a fugir para longe
a voz é um vento a fustigar-me os cabelos
o meu corpo bate em retirada até à toca de fantasma
os braços a enrolarem-se nas pernas a enrolarem-se no peito
a fumegar fumo espesso e negro a correr veloz dali para fora
para ir desnascer na toca de fantasma
fui