quinta-feira, 24 de maio de 2018

Jesus e os Joelhos




Olho os joelhos de Jesus
na pequena capela
do cemitério modesto
com casa de banho pública, muito útil,
pouco comum.
(costumo frequentar os cemitérios)

Nos epitáfios inscreve-se a nossa humanidade,
o que nos distingue dos outros animais.
Não apreciamos a designação "outros animais".
Queremos mais.
Nunca nos contentámos com o nosso desígnio.

Por isso creio nos joelhos de Jesus
enquanto metáfora possível
da pequena história comum,
a nossa dor colectiva.

A minha casa de sonho partilha o muro
com o melhor cemitério.
É o cemitério mais belo da Terra.
A casa parece abandonada.
Gosto de pensar que me espera
com o ardor
de quem quer regressar
ao mundo dos vivos.

A Morte ameniza a maldade dos homens.
Torna-os amáveis.
(será essa a sua benigna intenção?)
Daí encontrarmos nos cemitérios
os melhores vizinhos.
Fazem-nos boa companhia,
com as suas breves palavras,
enquanto aprendemos a amar
os vivos.
Os vivos têm muita dificuldade
em deixar-se amar.


Olho o sangue pisado dos joelhos
de Jesus
pregado na cruz,
lembra-me o quarto na penumbra
onde tento, por vezes,
esconder o meu corpo exposto.

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