terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Poesia
A poesia não conta
histórias
não deslinda
mistérios antes
tenta espalhar
pequenos recados
que fluem
da sombra projectada
no intervalo das palavras
tenras crianças
em sala de aula
com os seus bilhetes
passados por baixo
das carteiras
sábado, 9 de fevereiro de 2019
Ponte levadiça
![]() |
| Uma Arquitectura da densidade, fotografia de Michael Wolf |
Abundam no mundo
os muros
abusos claros
murros clandestinos
chegados a este ponto
trabalha a báscula
da ponte levadiça
reinventa Heraclito
o movimento vertical do ferro
sobre a água
apontando ao céu
a destruição dos caminhos
a muralha que se auto-regenera
em frente ao fosso atónito
e fica-se órfão de casa
braços e pernas arredados
das veredas
e fica-se órfão de cidade
dão de si os machados
enterrados na espera
e fica-se órfão de conterrâneos
órfão de estradas
órfão de bússola
um mundo insuspeito
suspenso
sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
A vida é sempre à hora certa
![]() |
| Relógios Derretidos (pormenor), Salvador Dali |
A vida é pontual
tudo à hora
certa tão correcta
as setas são correias
no cavalo peado
piada com data
marcada a ferro
e jorro um rio
corre ritual
segue a trote
no prado circular
mais uma voltinha
mais uma viagem
carrocel caracol
gosma coragem
erro é sal
deus nos livros
guarde a vã
liberdade
horas mortas
horas vagas
vergas amestradas
que dão livres
nas vistas longe
da retina caseira
no relógio derretido
Olhá rotina canseira!
É frutó chocolate
bolinhas
com creme ou
sem esperma
mousse treme
treme gelatina
ramerrame
pastoral abranda
a corrida desmonta
a carga regressa
a criatura ao pedestal
porque a vida cega
e segue
sempre pontual
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
Não sei de ti
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
Uma bela rotina de Guilherme Tell
![]() |
| Judi Davis numa cena do filme de David Cronenberg: O Festim Nu |
Ainda ao almoço
embala o eunuco
imaginário
a mulher-maçã
de Guilherme
Tell
a rotina diária
de besta apontada
a outra vinheta
no andar de baixo
desviada a cortina
a enxorrada à solta
rompe diques
de penetração fácil
o festim nu
arqueiro encostado
ao reposteiro
troca o alvo
diversa cona
refeição crua
e quente
ainda hoje
não morrerá
ninguém
amanhã
já parto
terça-feira, 8 de janeiro de 2019
Quetzalcoalt
a serpente quotidiana
ao pássaro ocioso
de plumas viradas para dentro
(o pássaro do avesso)
é preferível
cai
no regaço do usurpador
nem sempre é possível
a escolha
perante a vitória
biológica da guerra
um deus a trair o Homem é coisa
para frutificar
nos rodapés dos livros
de história
micélio milenar
o máximo do usurpador
é a invenção da narrativa
mas vencer
nunca alterou um dedo
à verdade
e à escuridão
dos factos
terça-feira, 25 de dezembro de 2018
Poema de Joaquim Marques
Um Grito
Do silêncio se faz um grito
o corpo todo me dói
deixai-me chorar um pouco
aqui me falta uma luz
aqui me falta uma estrela.
Há sempre uma companheira
uma profunda amargura,
ai solidão,
ai quem fora escorpião
que te mordera a cabeça a Deus,
já foi para além da vida
e o que fui já não sou.
O mundo já me esqueceu,
sombra triste
encostado a uma parede.
Ó Deus, vida que tanto duras
Ó morte que tanto tardas
Ai solidão quase loucura.
Joaquim Marques (1920-2018)
Do silêncio se faz um grito
o corpo todo me dói
deixai-me chorar um pouco
aqui me falta uma luz
aqui me falta uma estrela.
Há sempre uma companheira
uma profunda amargura,
ai solidão,
ai quem fora escorpião
que te mordera a cabeça a Deus,
já foi para além da vida
e o que fui já não sou.
O mundo já me esqueceu,
sombra triste
encostado a uma parede.
Ó Deus, vida que tanto duras
Ó morte que tanto tardas
Ai solidão quase loucura.
Joaquim Marques (1920-2018)
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