sábado, 12 de julho de 2014

Portugal, Portugal




Não há organismos.
Há desenrascanço
intermitente,
gente à rasca.
Há ultra ricos
de olhos salgados
quase a fugir à polícia
se houvesse justiça.
Há belas acções
proibidas
que valem pouco,
só valetes.
Escasseiam
pulseiras electrónicas,
umas são tão leves
que ainda permitem
matar uma mão cheia
de velhas.
Há quem aplauda.
Há poucos marinheiros,
dois submarinos
para uma imensa maré
sempre baixa.
E há este meu medo
recente e quieto
de não te poder valer.
O medo do deserto fundo
um dia cobrir tudo
e vencer.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Pomelo




O funcionário diligente
 os benefícios apregoa
dos extractos do pomelo
que também é cimboa
branqueia  dentes
dá força, emagrece
é xarope de vanguarda
o delegado esclarece
como é o medicamento
vai bem com alga parda
retira-se do belo citrino
que tem a forma da laranja
e a cor verde do limão
não confundir com toranja
tomai dia sim dia não.
E digo eu confundida
 p'los predicados do pomelo
p'la surpresa dessa fruta
tentando não ser bruta:
mais valia comê-lo!







quinta-feira, 10 de julho de 2014

VAMOS BRINCAR AOS POETAS





Perdoa-me
o mal que te faço
pelo bem que me sabes.
Durmo vinte horas por dia
para que te vingues de mim
em sonho.
Brinca comigo, é a sério
serei secreta, invisível,
eu espampanante,
tu taciturno,
melancólico.
Conta-me do azul,
se é escuro ou claro,
dos olhos que o sol
me impediu de ver,
encadeada que estava
pela boca,
mistério maior.
Prometo rir
da pistola
encostada à têmpora
com carinho
de madrugada
e vou cumprir
desamparada
aquela paz precária.


Feridas




Especializei-me em feridas. Não, não é uma metáfora. Podiam ser números, receitas culinárias ou pintoras mexicanas mas no meu caso foram as feridas de pele. Fiquei presa ao fenómeno da cicatrização. O modo como a natureza enfrenta o caos com toda a calma. Por mais que a destruição seja devastadora a reconstrução acaba por chegar. E o segredo no tratamento das lesões é tão simples como respeitar a natureza. Porque a cicatrização depende do tecido vivo que existe ao redor do que morreu. A vida invade a morte num entrelaçar de fibras. Basta que se dê tempo ao tempo. 
O erro da maioria das pessoas é o excesso de zelo na desinfecção. Querem matar os germes, os invasores, os estranhos, o que pode ser diferente. E nessa ânsia de controlo usam substâncias tão poderosas que matam o  próprio corpo. Dificultando, atrasando, complicando a reparação do dano. Lutam contra si mesmas, por engano. Pura ignorância.
Por isso o que há a fazer é ter calma. Ter confiança. Aprender a esperar e a escutar as vozes íntimas, profundas. Aceitar que existe um caminho que pode ser doloroso mas que conduz a um estado melhor. 
A vida tem os seus mecanismos de defesa. A vida sabe construir. A vida é muito inteligente.
Já disse que não estou a usar metáforas, não disse?

quarta-feira, 9 de julho de 2014

GANDAIA (Poema Oferta, o segundo)




Ai a aia ama a ama
Clama a Dama da Damaia
Pois amai-a se arde a chama
Mas duas mulheres na cama
É coisa que não se ensaia

Esta pobre Dama reclama
De criadagem de tal laia
Bom nome da casa na lama
Ter duas mulheres na cama
Mesmo debaixo da sua saia

Debaixo de tão pública vaia
Da gente púdica da Damaia
Uma criança chora sem mama
Que a Dama despediu a ama
E mesmo destino levou a aia

No final da sórdida trama
Desta ama e desta aia
Partiram para longe ambas
Viram-se livres da má fama
Feliz lesbiana gandaia.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

saliva

Num abraço em hélice dupla
quero, numa   transcrição secreta,
fazer a prova do teu ADN.




O peixinho vermelho




D. Amori hesitava em frente à porta  por de trás da qual esperava o Sr. Godofredo. Deveria partilhar com ele o segredo ou deveria manter o recato e a discrição que sempre haviam sido as melhores qualidades do seu carácter?
O seu peixinho vermelho começara desde a véspera a formar palavras com as bolhinhas que fazia com a boca. Primeiro tinham sido: PAZ e DEDO. Hoje já tinha feito CORDAS, MODA e BOLO. Por um lado precisava ardentemente de alguém que a ajudasse a decifrar aquela intrigante mensagem, se alguma houvesse proveniente daquele bafo de guelras, por outro temia cair em total descrédito perante a vizinhança. Não que duvidasse por um segundo da sua lucidez de raciocínio mas compreendia que a natureza daquele animal pertencia às profundezas dos oceanos e por conseguinte não estava ao alcance de ser prontamente entendido pelos seres humanos. Imagine-se que o peixe vermelho, Igor, como D. Amori o costumava chamar, se inibia de produzir efeitos visuais, com as bolhinhas de ar que exalava, em frente a vultos estranhos. O que seria então da respeitável imagem que de si fazia o prédio inteiro mal o rumor da sua bizarra invenção se espalhasse?
Não havia tempo pois o Sr. Godofredo já tocara pela segunda vez. Prolongar a demora era aumentar a estranheza e as consequentes perguntas. D. Amori nunca permitia um segundo toque de campainha, muito menos ao Sr. Godofredo na sua costumeira visita.
Abriu e disse: "o Igor aprendeu a escrever".
Ele apenas esboçou uma ligeira interrogação, muito longe da dúvida. Entraram os dois na sala e plantaram-se em frente ao aquário redondo.
O peixinho vermelho soprou da sua boca circular: AMEM.