terça-feira, 10 de maio de 2022

Sétimo Dia

Zeus, Foto de Rushan Gilmanshin




Talvez o problema

tenha sido escrever

Deus com maiúscula


deus

é mais tranquilo

e realista


explicação para o mal

que acontece por vezes

 às pessoas boas


a César o imposto de César

ao Homem a ira do Homem

a maiúscula a quem a trabalha


a deus a paz

o pão 

a habituação

de quem se vai espreguiçando

no descanso 

do sétimo abençoado

e eterno dia

terça-feira, 3 de maio de 2022

Já Não Há Ladies No País




 No meu tempo 

é que havia Ladies a valer

agora é só Lunas

e Ninas

muitas Méis

Marias

Kyras

Kikas

uma ou outra

Becas 

Noa

uma ambígua Madona


e todas elas se sentam

e todas elas dão a pata

a toda a gente

em troca do biscoito

com alegria

e extrema facilidade

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Baixinho

Speak Low:
espectáculo da companhia de Wim Vandekeybus



Para lá da janela, uma lágrima branca vem escorrendo das nuvens: um rasto de avião que desce à terra. É a maneira que o céu tem de chorar num dia luminoso e ameno de inverno.

A rapariga acordou há pouco e lembra-se que faz  um mês que o homem desapareceu. E com ele quase todos os vestígios da sua presença.

"Fala-me baixinho, querido, fala-me baixinho, os nossos dias de verão foram murchando cedo demais."

As suas palavras já não a inundam, diariamente, por todas as frentes: cartas, mensagens, publicações, telefonemas, ou presencialmente sob a forma de monólogos, discursos e até sermões. 

Agora, todos os sinais se apagaram. Impera o silêncio no quarto. O planisfério na parede em frente à cama é um mundo sem som. O exército de palavras bateu em retirada, derrotado.

A rapariga recorda um tempo de prazer, oferecido pela  sonoridade das frases curtas sussurradas ao ouvido na cama.

A voz do homem, uma voz de peito, densa e encorpada, ampliava-lhe o desejo até ao arrebatamento final.

Um dia, por um qualquer motivo obscuro, os ouvidos não lhe devolveram a sensação de calor daquela voz redonda e escura. Estava surda para o ruído desse amor. Quebrara-se o encanto.

"Fala-me baixinho, o nosso momento vai deslizando veloz, como barcos à deriva somos varridos tão depressa."

Uma legião de cartas lhe enviou então, o homem apanhado de surpresa, tentando resgatar o feitiço.

A rapariga resistia a ler as epístolas.

Longas missivas de parágrafos fortes e imponentes como montanhas vinham em auxílio dos vocábulos orais,  irmãos do efeito acústico gorado. Ondas de texto atacando por vagas, sonhando provocar na imaginação dela o simulacro hipnótico dos murmúrios amorosos. 

Tinta gasta em vão. 

 A destinatária desistia de descodificar os signos suplentes. A escrita não foi capaz de excitar como as palavras aladas.  Pequenas pombas de ar que voavam do ouvido ao seu refúgio secreto.

"O tempo é tão velho e o amor tão breve. O amor é ouro puro e o tempo é um ladrão"

Ficava a olhar aquelas compactas muralhas de texto, apreciando-lhes a consistência sólida, a robustez, a tenacidade. Imaginava pequenas brechas nesses sólidos muros, construídos vocábulo a vocábulo como tijolos destemidos, teimosos. Desconfiava que haveria de existir um ponto fraco naquela construção magnífica por onde a estrutura  começaria a ceder desamparada, até sucumbir no chão.

Adiava a implosão, a leitura, a confirmação do fim.

" Estamos a ficar para trás, querido. A cortina desce e tudo acaba depressa demais. Baixinho, fala-me baixinho."

Faz hoje um mês que o homem desapareceu a seu pedido,  a rapariga prepara-se para conhecer a primeira carta.

O dia abriu um sorriso de finos cirros. A rapariga desiste da leitura, deixa o quarto, vai em busca da resposta a uma última pergunta. 





sexta-feira, 8 de abril de 2022

Olhos Azuis Cabelo Preto

 

Marguerite Duras



Na parede treme o Sol

ao nível do mar

o rosto coisa incerta

entre a seda e a morte

carícia infinita

um adeus no corpo mártir

cabelo preto


A palidez dos amantes

ele

ela

órfãos de olhos

azuis

náufragos

boias rotas do barco

que passou

choram como se amassem

presos dentro de um livro

devolvidos à diluição da cidade

o corpo abandonado num deserto

azul inteiro que olha

único olhar para um amor inteiro


terça-feira, 5 de abril de 2022

Putineiro Engraçado

Putineiro engraçado

engraçado no falare:

ò Io ai que a Rússia do Putin

ó i o ai pode a Ucrânia  integrar


Putineiro engraçado

é apanhado do clima

ó ió ai devia ir à terra dele

ó ió ai, dar um salto a Kolyma


Já tenho papel e tinta

caneta e mata borrão

Ó i ó ai p'ra escrever ao putineiro

ó i ó ai um valente adeusão


Putineiro é casado

é casado e tem mulher

Ó i ó ai vou escrever ao putineiro

ó i ó ai e bloquear se eu quiser







quinta-feira, 31 de março de 2022

Marguerita




Despeço o véu

a venda

o verso

o código do poema

os signos moucos

o mundo todo 

agora

a descoberto

às escâncaras

nuvens  claras

em ondas

valsando

a cavalo do céu



uma feiticeira livre

voando

invisível 

a Lua por baixo

dos pés

na noite de mil

olhos

nua

no regresso

a casa


terça-feira, 15 de março de 2022

O Contrário de Roma

Óculos coloridos de Hans Hollein




Na vez do coração

um fogo frágil

alçapão

cidade de borboletas

negras

o contrário de Roma


a sede incendiada


mais cedo que tarde

das cinzas amargas

tecem-se memórias