segunda-feira, 7 de julho de 2014

UM POEMA DE REINALDO FERREIRA


QUERO UM CAVALO DE VÁRIAS CORES

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores? .


Não chove




Não chove,
não faz sol,
as árvores
plantam-se à escuta
e cai-me um inverno no colo,
os meus pés estão frios
como um gato morto.
Há qualquer coisa por acontecer
mas não chove ainda
nem o sol comparece
na janela,
só as árvores avançam
pelo dia a fora
enquanto o gato morto
a meus pés
finge dormir.
Se ao menos chovesse
um dilúvio que fosse
e afogasse o gato morto
talvez o sol viesse
de vingança visitar-me
no final.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Life On Mars


Existe o original do David Bowie, existe a versão (magnífica!) do Seu Jorge e encontrei esta minha versão que tinha ficado perdida nos FICCIONAUTAS. É uma espécie de brincadeira-homenagem à letra do Seu Jorge, esse génio.






LIFE ON MARS

Muitas vezes o coração
É o primeiro a entender
O que escondes no teu porão
E tens medo de conhecer

O meu sonho desde que te vi
Está ao alcance das minhas mãos
O futuro vai decidir
Se iremos viver em vão

Meu amor, nós estamos sós
E está Marte a sorrir p'ra nós!
E no dia em que lá chegar
Há-de ter vida em Marte, então

Vem cá, lambe-me o ouvido
Sei lá, já nada faz sentido
Enfim...
A tua força é um sol
No meu peito
Meu bem, vamos plantar a vida
Então vem, senão não chego a ser quem sou
Tu vais ter um lugar
Na minha life on Mars.

Gin Tónico




Desculpa
vou ficar séria
parar de rir
manter o tom
austero
que vem à baila
sempre que se puxam
brasões
e se testam heráldicas
sei ser séria
embora seja o riso
o meu  mais antigo vício
tão bárbaro
quanto o do Gin-tónico
quando transparece
o gelo
espreitando o sol
jogando
às escondidas
com a minha teimosia
rio-me
ai desculpa
cara séria
foi um improviso
mais um
daqueles que saem
disparados
e seguem directamente
para os teus aposentos
sem arrependimento
sem castigo
sem solução.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Mostra-esconde




Mostra. Esconde.
Mostra. Esconde.
Mostra. Esconde.
A luz pálida do planeta
é sólida, fixa
em monotonia
de real solidão.
Só um estrela
mostra sem recato
e sem descanso
a sua intermitência
feliz.

Jogo de Fintas




Atropelo-me,
pernas trocadas,
nesta corrida
trôpega
de caroços
de nêspera,
uma pressa,
uma vespa,
ferrão
de tantos ossos,
uma arrelia,
um jogo de fintas,
à rabia,
um volteio zonzo,
num carreiro
de saída longa,
um corrupio
e um joelho
de adesivos
nessa busca,
três tiros volvidos
do início
da viagem
para encontrar
o descanso
melacólico
da tua prosa.