sexta-feira, 21 de agosto de 2015

insanidade temporária




Vou alegar, em minha defesa,
insanidade temporária,
senhor juiz, alegre-se,
não era eu.
Alguém na minha cabeça
tomou a pessoa estranha pelo próximo,
ama o teu próximo, disse a voz,
e ela obedeceu.
Eu não estava em casa,
em mim, fui
testemunha de acusação,
advogada oficiosa,
do diabo, de recurso,
observando de fora,
parar não podia.
Não estava nas minhas mãos
lavadas, (Pôncio, camarada Pôncio!)
ouviu a voz:
obedeceu.
Assisti à matança,
uma chuva de esquírolas,
estrelas caídas,
sonhos desfeitos,
pouco sangue, pouco chão,
uma morte limpa, ainda assim,
outra atenuante.
Voltei agora, senhor juiz,
cumpro a pena.

4 comentários:

  1. Um belo poema ou uma perfeita alegação. Merece absolvição,

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. ufa, já me safei à pulseira electónica... :)

      Eliminar
  2. Claro. Nem sequer um simples termo de identidade e residência. O direito à "insanidade" é livre. :)

    ResponderEliminar