sábado, 19 de julho de 2014
O DESERTO DOS TÁRTAROS
Vejo ao longe a Fortaleza
na orla do planalto
plantada,
vejo as muralhas e os fortins,
imagino pátios desertos
redutos, penumbra,
uma nesga de luz
que passa numa seteira,
o render de sentinelas
num revelim.
E agora estou aqui
na Fortaleza
onde o tempo não passa
não foge
não nos mata
e a vida é a
cadência dos passos
na neve
de soldados que se rendem
uns aos outros
ao som de fanfarras
e nitridos de cavalos
chamando os Tártaros
além do deserto.
Agora a vida é
uma obstinada ilusão
de poder vencer o tempo,
conquistar o deserto,
os Tártaros,
a Fortaleza,
o vale pedregoso,
a topografia dos redutos,
o esquecimento do teu
sorriso
nas alamedas românticas
inundadas do sol.
O medo
Fecho os olhos
não se mantêm fechados
nem abertos,
o medo
é um bater de asas
paradas
nas nossas costas.
O meu medo
é maior que o teu.
Mas eu tenho mais força.
Tu que não sabes ainda
que me esperas,
não tenhas pressa,
espera mais um pouco,
estou a chegar.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
diligências
Como o teu pão
Panda,
papo
e peço-te
um perfume de éter
com lavanda.
No século passado
apanho boleia
da diligência
do correio
extraviado
pela concorrência.
A pedra monumental
repousa
contra a audácia
da formiga,
endiabrado
animal.
Pés
Queria ser
modelo de pés,
descansar
a cabeça
com essa anónima
monotonia.
Unhas
como todas as unhas.
Dedos
como todos os dedos.
Queria experimentar
sandálias decoradas,
propagandear
vernizes coloridos,
sapatos atrás de sapatos.
Deixar
de tentar decifrar
os teus enigmas,
tentar entender,
ficar zen,
aturdida.
Procurar nos pés
apoio
que a cabeça
não concebe,
não alcança
e requer couraço
para descalçar
este cansaço.
Pensar
pelos pés,
partir
de pressupostos
ao avesso
que estes estão
gastos,
ou, pelo menos,
a precisar
de meias solas.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
capuchinho
uns dedos
no fim das palavras
para te tocar melhor
meu Avôzinho
e uns dentes
no fundo das frases
para te trincar melhor
meu Avôzinho
domingo, 13 de julho de 2014
limpa metais
O coração
usa o sangue
para afagar
o corpo
e limpa
pelo poder
do ferro,
torna brilhante
tudo o que reluz
e é de ouro.
O coração,
esse manto
de penas
aquecedor
de pele
e de alma.
usa o sangue
para afagar
o corpo
e limpa
pelo poder
do ferro,
torna brilhante
tudo o que reluz
e é de ouro.
O coração,
esse manto
de penas
aquecedor
de pele
e de alma.
Ponto de interrogação
Sou um ponto de interrogação.
Meia volta e um tracinho.
Uma dúvida.
Um ponto de interrogação
não é novidade nenhuma.
Meia volta e um tracinho.
Uma dúvida.
Um ponto de interrogação
não é novidade nenhuma.
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