| McNamara surfando uma onda gigante na Nazaré |
Dançar com Deus
não é só a boleia roubada
à crista da onda
impossível
mas também o baile
implacável
dos meus olhos
nos teus olhos
esse vaivém absoluto
e extremo de mar
No quintal da mãe há uma figueira em fuga para o céu. Crescendo em altura, contrariando os padrões da espécie, tenta, talvez, proteger os frutos da cobiçosa mão humana. Ou pode ser, simplesmente, por altivez. Quem disse que todas as figueiras devem ser humildes?
Uma árvore é uma cidade para os pássaros, escreveu Aquilino Ribeiro. Mas isso era dantes, no campo. Aqui, nos subúrbios da capital, uma árvore é uma aldeia despovoada de asas.
Escasseiam os sicófagos, pousando nestes ramos aéreos. Assim, vão amadurecendo virgens, os figos, aconchegando-se na rugosa folhagem protectora. Esborracham-se moles contra o chão. A pasta de melaço agarra-se teimosa ao pavimento. É preciso varrer com afinco e mangueirar na máxima pressão, durante um par de horas para que tudo volte a ficar limpo. É setembro, os figos sentem pressa em desabrochar.
O Verão a despedir-se.
A rapariga limpa o chão e as escadas de mármore diariamente. A pedra está preta. É uma azáfama tornar tudo branco outra vez. A orgulhosa figueira faz da rapariga um sísifo.
No silêncio do dia vai tocando uma música que só a rapariga escuta: a mamã é giraça, o papá tem umas massas, por isso, cala-te miúda, não choramingues.
Há um momento de esperança, quando o saco cheio da papa de frutos fermentados e folhas velhas é colocado no lixo.
E logo outro figo fará ploc, cumprindo a gravidade dos corpos. Mas neste momento o quintal está lavado e varrido e valeu a pena.
Na manhã seguinte a rapariga retornará à rotina, no quintal da mãe. Novos frutos esponjosos irão resistir à devoração animal para se entregarem à dureza inanimada dos minerais.
Miúda, acalma-te, não chores mais. Os peixes saltitam, o algodão cresce.
Haverá novo momento efémero de tarefa cumprida. A luta é inglória.
Num destes dias, pequena, vais crescer até ao céu. Vais abrir as asas e sair voando pelo mundo.
As vassouras repousam encostadas às sebes. A mangueira pinga, sem fé. Os cães observam distraídos.
Por enquanto fica tranquila, bebé, nada te faltará. Os papás estarão sempre por perto. Eles cuidarão de guardar as tuas costas.
Durante duas horas matinais, no setembro de um quintal de subúrbio, a vida torna-se uma pasta de melaço rijo. O Verão a despedir-se.
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| Desenho de Moebuis |
A rapariga senta-se a ler na mesa da cozinha, de frente para a janela das traseiras.
Se levantar o olhar encontra o quotidiano da vizinha no prédio adiante. Ela estende roupa. Daqui a nada chega a moradora do apartamento contíguo, apontando uma pistola de água aos pombos que teimam em lhe invadir a varanda.
Deve ter vasos semeados no chão por isso enxota exaustivamente as aves do seu território. Torna-se uma rotina diária, para a velha e para a rapariga que observa.
A rapariga está de volta ao livro. É um volume grosso, difícil, provavelmente de alta literatura.
Consegue concentrar-se meia hora sem interrupções. E logo pára.
Foi um professor de inglês que lhe ensinara o truque, há muito anos, segundo o qual o cérebro necessita de paragens regulares para atingir a rentabilidade máxima. É preciso descansar para depois prosseguir.
Assim, a rapariga, aproveita o breve intervalo para lavar os escassos pratos do almoço que descansavam sujos na pia.
De novo no livro outra meia hora.
Se fosse uma escrita muito pesada a rapariga não aguentaria senão vinte minutos. Não é o caso.
Quando leu o Catch 22 só conseguia dez minutos de cada vez. Apesar deste ter fama de livro cómico, encontrou as piadas abafadas pela opacidade da prosa. Larachas que não desabrochavam, meras intenções de bom humor. Desistiu a meio da obra. Uma narrativa abortada é sempre triste.
Agora estava absorta na história passada em Berlim, no início do século XX.
Mas a matrona da frente volta à varanda para dar guerra aos pombos.
Tinha sentido algum receio antes de iniciar a leitura actual. As amigas compartilharam dificuldades, preconizando problemas em abraçar incondicionalmente o livro.
Mas ainda hoje de manhã, o amigo falara-lhe bem da obra. Isso descansara-a. O amigo sabia de literatura, além do mais.
O amigo era um tesouro escondido, além do mais.
A rapariga vive no décimo andar, consegue ver as varandas abertas e as marquises fechadas dos edifícios em frente de cima a baixo até ao passeio. Chegam-lhe dezenas de histórias familiares à boa maneira do James Stewart na Janela Indiscreta hitchcoquiana, mas sem a distinção e o status do atraente cavalheiro de meia idade.
Na rua, ao centro, quando olha para baixo, está a mercearia do bairro.
Os bêbados fizeram deste local o seu poiso costumeiro. Encostam-se ao corrimão das grades que separam o passeio do beco onde encostam os camiões que vêm descarregar os víveres.
Parecem aves de grande porte, das que não voam, e descansam uma perna de cada vez contra o metal. A estes ninguém enxota com pistolas de água. Ficam ali a tarde toda, de garrafa na mão, emborcando cerveja atrás de cerveja até começarem a vociferar.
No início da noite o doido dá a volta ao quarteirão e grita alucinado no meio da avenida. Já ninguém estranha, teve uma vida trágica.
A vida é um vaivém de concertina. Um movimento entre dois extremos: o medo da solidão e o desejo de estarmos sós. Corremos de um lado para o outro. O sumo da existência é a música que se produz do rame-rame constante entre os polos opostos.
Os bêbados não têm ninguém em casa. Fizeram por isso, afastando tudo e todos dos seus territórios. Depois procuram a companhia dos outros bêbados, à porta da mercearia, nem chuva, nem sol, nem ventania, nem quarenta cães a ladrar, nada os demove daquelas matinés.
O Mike um dia saltou de um quarto andar atrás de um gato. O seu próprio animal de estimação decidira voar à caça de um passarinho. O Mike é gentil quando não está no meio de um surto. Raramente fica agressivo, muitas vezes cede à ira. E grita. Urra. Vocaliza de forma como nunca se costuma ouvir. Não soa como um humano. Nem como um animal. É o Mike a manifestar-se. Ninguém estranha. Se calha a estarem acordados durante a noite ouvem-no. Se dormem nem se dão ao trabalho de acordar. O Mike é um doido totalmente familiar, quase um pombo doméstico de asas goradas.
A rapariga, por vezes, acena-lhe da janela do décimo andar, ele responde levantando o vasilhame em jeito de cumprimento. É a ternura que acontece, também, à distância.
A rapariga deitando olhares reprovadores aos fregueses sociais da mercearia só mais tarde irá perceber que partilha com eles a mesma solidão líquida. Uma semelhante condição de cegueira selectiva.
Ela passa as tardes virada para fora pois deixou de ser capaz de olhar para dentro da sua própria casa.
A casa passou a ser um vácuo. Não existem paredes, apenas simulacros de paredes. Nem ladrilhos, nem tecto, nem móveis, nem cores. O olhar ancora-se nos bêbados para que o corpo se firme no chão da cozinha. Apenas este compartimento existe como ponto de fuga. A janela é salvação. Ela vê os bêbados e vai deglutindo mentalmente cada gole de cerveja que cada um sorve das garrafas castanhas. E brinda com eles ao naufrágio regular do dia-a-dia.
Voltar a cara para o interior da casa é constatar a implosão do lar recém destruído. Então, agarra com o olhar o fio condutor que a ampara até ao lado de fora do vidro, como uma Menina Dos Fósforos reversa, procurando avidamente a vida dos outros, uma pequena labareda que a impeça de submergir no seu escuro mar interior.
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| Fotografia de Rodchenko |
Não vem do alto dos céus
nem de cima nem de baixo
do centro ou arrabaldes
é uma ideia do corpo
um cacho caduco
acontece
derramando-se
depois solta-se
do seu eixo
sem premeditação
Apenas ossos e ânsias
do corpo e lama
uma ideia sagrada
como futuras guerras
antigas
Dizem entre dentes
até um rei
roeu a garrafa
da lei das núpcias
quando o ar falta
respira-se
por guelras
O Amor é teimosia
que vem à gente
por intervalo
Para passear preferia o autocarro
perdendo-se todas as tardes
pela cidade
descia de casa
apanhava o 42
na rua Ciríaco de Cardoso
(maestro do Porto)
encontro esse Ciríaco
ao espelho de manhã
nas linhas e sulcos
nas feições do meu rosto
o meu avô deambulando
por Lisboa
um lundum chorado
nas minhas rugas
a sua Carris
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| Gravura de Konstantin Kalynovych |
Somos peixes
Platão
subindo o rio
contra a corrente
contra o urso o som
que o cão faz ao arfar
ainda pandas
Platão
que nem salmões
caracóis
com a caverna às costas
rumo à origem quando parece
que nos lançamos no infinito do sol
morcegos cegos
vampiros solidários
Para ti reservo
o sangue inteiro de uma noite
Um copo na mão e um vazio na cona. Dez dias à espera dele sem saber quando nos voltaremos a ver.
Na maior parte do tempo está tudo bem, calmíssima, animada, abro uma garrafa de Papa Figos e sirvo num copo elegante de cristal. Tudo cheiroso no reino da Dinamarca mediterrânica do sul. Até que chega aquela meia hora aterradora de voltar à terra, à boa maneira do major Tom, queres voltar ao solo, e estás sem rumo fora de órbita, cada vez mais longe de casa, fora de controlo, socorro. Ninguém para te ouvir. Um universo de silêncio.
Estás há dez dias sem saber quando vais ver o homem. Que homem? Como, que homem? O homem, caralho! O único homem que te interessa de momento, esse homem. Ah, claro, o homem, pois então.
A casa é só caixotes. Caixotes à espera da mudança. A casa é um caos temporário. O meu companheiro está de saída. A solidão em suspenso.
Cozi um polvo para o jantar que ainda é a dois. E penso: quando voltarei a ter pachorra para cozer um polvo só para mim? Que farei então: corto e divido por 5 tupperwares? Não vai valer a pena essa trabalheira toda, mais vale uma caixa de gelado em frente à televisão. Qualquer coisa comprada já feita, uma salada, conservas, uma merda dessas. Polvo cozido: o fim de uma era.
As ratoeiras, para a maioria de nós, são transparentes. Não as conseguimos ver, mesmo que nos entrem pelos olhos dentro as pernas garrotadas, o sangue pisado, as esquírolas, os estragos, a dor. Pensamos que somos livres. Mas estamos agarrados até ao tutano.
O homem, por exemplo, está refém do casamento. Do seu casamento perfeito, da sua relação ideal com a sua mulher de sonho. Depois fica rezando aos deuses que a esposa se ausente em trabalho uns dias, o maior número de dias possível, para que se possa encontrar comigo e ter prazer. Ser feliz, como gosta de dizer. Mas será que é feliz quando se satisfaz comigo na cama? Ou com ela, em camas separados, partilhando as refeições, cada um matutando nos seus problemas, nas suas obsessões, fantasias, melodramas com personagens secundários.
Personagem secundária, eis o que sou, nesta história-cliché. A minha cona ressente-se com a falta de glamour.