domingo, 1 de dezembro de 2019

Variação Crusoe






- Acorda, Paizinho, acorda, acorda depressa, depressa, aconteceu novidade!
- Que foi, Feirinha, há fogo na mata?
- Não, é pior, ou antes, é muito mais grave, mas melhor...
- Diz lá, que raio é que pode ter acontecido numa ilha deserta onde só vive um par de gatos pingados e volta e meia recebe a visita de meia dúzia de canibais? Encontraste uma perna esquecida? Lá se há-de enterrar, não será assim tão grave.
Não é uma perna, são duas, Paizinho, e com o resto da mulher que lhes pertence.
Como? Uma mulher? Ao fim de 27 anos? Era o que mais me faltava! Deus ou não existe ou resolveu fazer da minha vida uma comédia! Onde está ela?
Na praia dos canibais.
Tão longe? Ainda por cima, com um joelho todo fodido agora ainda tenho de me arrastar quatro milhas até à porra da praia. Mas está viva, está inteira, foi comida?
Está viva, parece-me, Paizinho, mas a dormir.
De certeza que está viva? Vai-se a ver está morta e tu a fazer um fusué para nada. Se calhar alguma vítima do teu Povo que tinha uma sabor esquisito e lhe caiu mal no goto...Vieram cá deixar as sobras de algum festim...
O meu Povo não abandona corpos na praia, Paizinho, eles respeitam muito os mortos.
Ah, pois respeitam, e gostam até muito deles, até ao tutano...
Sempre a desmerecer o meu Povo, Paizinho, eles não são assim tão maus.
Nada mesmo, nada, desculpa, não te quis ofender. Se não fossem eles eu nem tinha a tua companhia, só lhes posso estar grato. Anda, vamos lá ver da gaj... da bela adormecida. Traz um coco, deve estar com sede.
Sim, Paizinho.
Chama o Manchinhas, onde anda o sacana desse rafeiro?

Os dois amigos e um cão fazem-se ao caminho na direcção da praia onde tinha dado à costa uma mulher vinda de parte incerta.


Como é ela?
É quase bela como a Lua, deitada de borco, de pernas longas, cabelo amarelo, mais amarelo que o teu, Paizinho, e longo, muito longo, quase até ás nádegas, que por acaso não são muito redondas, mas também não sabemos há quanto tempo não come... Eu tenho fé que há-de ser bela como a Lua, se lhe dermos tempo de recuperar a saúde.
E a cara?
Não vi.
Então pode ser feia.
O que é uma mulher feia, Paizinho?
Boa pergunta, não sei. Nem me lembro do que é uma bonita, ou uma mulher tout cour.
Tu quê, Paizinho?
Uma mulher apenas, não sei o que é uma mulher simplesmente. Já não me lembro, nem me faz já falta. Durante anos pedi a Deus que me mandasse uma, como terá oferecido a Adão, roguei com fervor. Nada. E agora dizes-me que está uma de borco estendida na areia da praia dos canibais. Isto só pode ser Deus a mangar comigo.
Achas, Paizinho, que o teu Deus faria uma coisa dessas? Às vezes penso que os meus deuses são mais mansos que o teu. Não queres trocar, ou pelo menos acolher também a sua protecção? Deuses é coisa que não se deve ter em falta, se sobrarem tanto melhor.
Ó Feirinha, a tua intenção é boa, mas não se troca de Deus como se troca de camisa. Ou melhor, no meu caso é capaz de ser mesmo assim, bem vistas as coisas.
Não quero que te falte nada, Paizinho, já basta as necessidades que são tão duras neste nosso belo mundo.
Obrigada, Feirinha, és bom moço, os teus deuses podem ser muito amistosos mas não me apetece comer carne humana. Corria o risco de gostar e depois começava a olhar para ti de outra forma.
Ó Paizinho, não é assim, os amigos não são para comer.
Pois, pois, nunca fiando.
Não confias em mim, paizinho?
Em ti, sim, Feirinha, em mim é que é pior. Adiante. Achas então que a mulher está magra, teremos de a engordar não vá ela adoecer neste fim de mundo e depois não saberei lidar com a situação. Mataremos uma cabra todas as semanas, faremos uma fornada de pão extra, e uvas temos com fartura, enfim, é só problemas.
Daqui a um mês estará cheia como o lago Tundé, resplandecente como a montanha Lopi forrada de neve, bela como a prata do mar na entrada da noite...
Meu Deus, agora percebo, ela é uma oferta para ti! Tu és o poeta que a vai conquistar! Fui cego, nesta história serei apenas um personagem secundário. Resta saber quem é o Autor, o meu ou um dos teus deuses. Bem, em qualquer dos casos posso manter a minha fé.
Para mim, a mulher branca? Só pode ter sido ideia do Teu Senhor, os meus me mandariam um moça robusta da minha aldeia, foi o que eu pedi. Gostava de casar, um dia, ter filhos...
És capaz de ter razão, mas sabes que os caminhos do Altíssimo são quebra-cabeças. Como terá vindo aqui parar?
Directamente do céu, Paizinho?
Ou não. Andei pelo mundo antes daqui naufragar. Eu vim de longe, de muito longe, o que eu naveguei para aqui chegar...
Bela canção, Paizinho. Não tenho a certeza de ser eu o alvo desta oferta, o Paizinho tem uma bela voz e as mulheres gostam de música.
As vossas também? O que não pode acontecer de forma alguma é comprometermos a nossa bela amizade por causa de um rabo de saias.
Ela não tem.
Não tem o quê?
Saias.
Por falar nisso, devíamos ter trazido roupa. Vou ter de tirar este trapo roto para a tapar, que chatice, ainda por cima está sujo e mal-cheiroso.
Queres que volte atrás, paizinho? Posso trazer aquele fato de linho que veio do último naufrágio que pilhámos.
Dito assim parece que roubámos alguém, tens de ter mais cuidado como formulas as frases a a partir de agora, Feirinha.
Que disse eu de mal? Só tirámos coisas de um barco cheio de mortos, não sonegámos nada a ninguém.
Claro que não. Ainda bem que te ensinei a falar tão bem, Feirinha, é mesmo um exemplo de que o saber não ocupa lugar, vais impressionar a senhora.
O que é uma senhora, Paizinho?
Olha, ainda é mais difícil de explicar do que uma mulher. Mas é parecido. Não percamos tempo, a tip... a senhora pode estar a sofrer.


Estavam neste ponto da conversa quando avistaram o areal e a mulher ainda deitada na mesma posição de costas voltadas ao vento que começava a soprar com mais ânimo.


- Parece jovem, e tem potencial para vir a ser bela, sim, tens olho para a fêmea, Feirinha.
- Temos todos, não é verdade?
- Creio que sim, creio que sim. Espero não assustá-la muito.

Aproximaram-se devagar, cheios de cuidados, até à beira da mulher desacordada. Os dois homens olhavam-se agora em silêncio tentando decidir qual dos dois devia tocar na náufraga para a fazer voltar ao estado de vigília. Ambos procuravam a confiança para desempenhar a delicada tarefa e esperavam que o outro se voluntariasse nesse sentido. Por fim Sexta-feira ajoelhou-se junto da cabeça loira da mulher e tocou-lhe ao de leve nos cabelos, afastando-os da cara. Dormia, de boca aberta, ressonava baixinho. Com o indicador, muito a medo, pressionou-lhe a bochecha. Ela abriu os olhos, logo de seguida os arregalou dando um berro agudo que fez saltar para trás os dois homens. E num ápice já se encontrava de pé tentando esconder o corpo, a gritar e a tremer numa aflição.

- Calma, senhora, está tudo bem, somos amigos, está tudo bem, tome, vista a minha camisa, tome, tome, calma, calma...

Ela, hesitante, pareceu abrandar nos espasmos corporais, estendeu o braço para a camisa que Robinson lhe entregava. Cobriu-se por fim. E conseguiu balbuciar.

-Graças a Deus falam inglês! Obrigada!
-Eu sou Robinson Crusoe. Este é Sexta-feira.
- Eu tenho muitos nomes, para vocês serei Susan. Estou há muito dias no mar sozinha, a solidão estava quase a dar comigo em doida. Vamos, levem-me por favor à vossa aldeia, quero ver gente!

Os dois homens entreolharam-se mais uma vez com nervosismo e foi Sexta-feira que indagou:
- Digo-lhe eu ou dizes tu, Paizinho?

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Homeopoesia




As palavras
rarefeitas
afogadas


num mundo
de água


dissimulando






vários




nós





dão-nos





um




murro




no












estômago

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

terraplanistas




A Terra é plana
plana como a palma
da minha mão,
vês?
Podemos cair se
corrermos aflitos
mundo a fora
de mão dada
se sonharmos agitando
inadvertidamente as pernas
somos adultos
adultos que dedilham
no adultério
em intervalos dos dias
difíceis
soam sinfonias de antagonistas
que sobem pelas chaminés
e se propagam como imitações
de andorinhas
andorinhas com plano de voo
o mundo é um disco
um milagre suspenso
que ainda não acabou
por puro milagre
somos adultos
adultos que já foram
pequeníssimos homens
vivendo nos espermatozoides
foi só entrar no ventre e crescer
crescer como quem não conhece
as fronteiras do Universo
como astronautas enlouquecidos
pendurados no tecto por araldite
a fingir de morcegos cegos
andorinhas de imitação
que recusam ver:
a Terra é uma frigideira
e o sol uma garrafa
de vinho branco esporádico
que queremos beber
até à exaustão
dá-me a mão
sonhemos















segunda-feira, 14 de outubro de 2019

não vais morrer


Peça de Jan Rafman



Podes ficar descansada: não vais morrer, calma.
Essa que vês aí será resgatada.
Morrerá outra pessoa, muito diferente da que se apresenta diante de ti. 
Esse rosto não vai entrar num caixão, não vai ser o banquete num festival de vermes.
O pó não será o seu destino.
O que vês agora no espelho, daqui a uns anos, terá dado lugar a uma outra imagem.
A figura reflectida, vai transformar-se noutra, como uma lagarta a metamorfosear-se subtilmente  noutro bicho ainda mais indiferenciado e neutro: uma mulher envelhecida.
Essa outra pessoa, por sua vez, cederá o lugar a uma outra que fará o mesmo a uma seguinte e assim sucessivamente.
Até um dia.
No final sobrará a testemunha da morte.
Não serás tu.
Com um bocadinho de sorte estás a salvo.
Foste ilibada.
Só tens de desaparecer silenciosamente, bem devagar.
Começa, pois, agora, a ir-te embora.















quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Férias




Numa terra sem tempo
bisturis
utopias
a pele veste
o silêncio inteiro
o vento  morde
os cabelos
como uma gaivota
doida e atrevida
adivinho  por entre
a longínqua  solidão do mar
na companhia dos dois cães
e um  sumo de beterraba
o remédio
para a inevitável renovação
do sangue

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Aparição

Foto de Tamsin Swait


Era de noite
e não fui autorizada 
a contemplar o teu corpo
como seria devido

o tempo breve foi 
avidamente gasto pela pele
a invadir a pele

o olhar ficou em falta
não se permitiu demorar 
nos contornos da carne

todas as imagens 
foram fotografias 
subtraídas à memória

foi sempre de noite
mesmo quando havia Sol
cada fugaz encontro 
era um retrato 
roubado à investida

entender o fulcro 
da aparição é recorrer
ao arquivo 
da polpa dos dedos

ficaram marcados 
pelo relevo dos ossos
emergindo à superfície


o tacto resgatou 
o território do diálogo
a confirmação de uma escultura
adivinhada na escuridão

um escudo no quiasma óptico
máquina de filmar sem luz
um sequestro irreparável
de negativos 
ondulados pelo calor


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Valete de Paus ou Espingarda? (isto de não ser amado é fodido)

Valete



O verdadeiro artista faz o que quer, escreve o que lhe vem à cabeça, inventa o que a sua liberdade oferece.
Estamos todos de acordo: não há machado que corte a raiz ao pensamento, como dizia Carlos de Oliveira.
O pensamento liberta mas também pode prender. Todos construimos as nossas prisões, as nossa fugas, as nossas viagens. Somos feitos de água e ferro. Deslizamos e vamos ao fundo. Dizemos coisas.

No meio da polémica "Valete versus Feministas" senti necessidade de analisar a letra da obra de que tanto se fala.. A que ele nega ter mensagem para depois vir a admitir que a dita só se revelará no fim de uma trilogia de músicas.

A liberdade passa regularmente por aqui. E hoje vamos dedicar a nossa atenção à letra do BFF de Valete.


Foda-se a sério mano?
Não te ia mentir, mano!
Foda-se!
Ya, não te ia mentir
'Tá-se bem, eu vou ver isso! Tchau ai mano
Ya Tchau



Vê-se claramente que são dois estudantes de filosofia a falar (o videoclip esclarece que a conversa é telefónica o que prova que são alunos aplicados, até à distância se dedicam à matéria)
Discutem Kant, obviamente.
No meio do seu elaborado sistema metafísico Kant "perdeu" algum tempo a discutir sobre o valor da “mentira por propósitos altruístas”:

“Imagine que esconde um amigo inocente na sua cave. Vem um assassino à sua procura para o matar. Pergunta por ele. Deve mentir para o salvar?”
A situação inventada por Kant era esta e a resposta dele é “Não”.
Argumenta que, mentindo, o assassino iria embora, continuando a sua busca e, entretanto, o amigo sentindo-se em perigo teria fugido pelas traseiras e inevitavelmente eles iriam dar de caras um com o outro. Parece estúpido e várias pessoas sérias conjeturaram que o senhor nesta altura do campeonato estaria já com Alzheimer.
Mas, depois de bem meditarem, outras pessoas concluíram de modo diferente. Ou seja, o que Kant descobriu (sem ouvir Rap nem ter saído de uma pequena cidade da Prússia toda a vida) foi que o poder que temos sobre as consequências das nossas ações é muito pequeno. Não controlamos nada do que acontece. Por isso mais vale cumprir as regras. E dizer a verdade.

Portanto é isto que o estudante faz ao telefone: diz a verdade ao amigo na esperança que tudo corra pelo melhor. Mentindo talvez o desfecho tivesse sido bem mais trágico. Mas não quero dar spoilers...



Com o coração golpeado gravemente
Ansiosamente ele põe a chave na fechadura
Roda a chave para a esquerda ele roda suavemente
Abre a porta e vê a casa toda escura
Do quarto ouve um som que parece Jovanotti
Nah, afinal é Luciano Pavarotti




Aqui nitidamente começa a mensagem de preocupação social implícita na obra musical. Trata-se um homem com claros problemas auditivos. Ele confunde Pavarotti, um cantor de Ópera com Jovanotti, um cantor pop e de rap. São ambos italianos e isto prova que a personagem desta história está a usar um aparelho auditivo. Valete a chamar a atenção do público para este flagelo que é a venda agressiva, e sem regras, destes aparelhos sem um correto diagnóstico dirigido à patologia de cada um. Isto tem levado a um aumento exponencial de queixas como dizia um senhor da DECO que eu vinha a ouvir na Rádio no caminho para aqui. E estão a ver as consequências, baralhar Pavarotti com Jovanotti não lembra nem ao diabo.

Por isso, malta, não façam mau figurino: para melhor ouvir Valete  escutem o vosso otorrino.



Para não fazer barulho ele anda bem ligeiro
Sorrateiro enquanto anda assenta o calcanhar primeiro
Tem a caçadeira no armário do escritório



Muito bem: a caçadeira está no armário no escritório, fechada, para segurança da família, segundo as regras da lei da caça. É muito importante esta medida para evitar acidentes envolvendo crianças, seres ingénuos, que tomam as armas por meros brinquedos, podendo aleijar-se a sério. Ninguém quer essas tragédias.


Instinto predatório para mandá-los para o crematório

Preocupação ambiental explícita. A cremação é o processo de transformação do corpo sem contaminação de agentes patogénicos nem resíduos sólidos ou líquidos, só se liberta cálcio e potássio.
Ainda por cima há um problema de falta de espaço nos cemitérios: Valete bem.


Pega na arma com uma postura insegura
E a tremer empurra para a direita a patilha de abertura



Mensagem política: virar à Direita é perigoso e mete medo.



Bem insano ele vai entrar sem plano
Um cartuxo em cada cano e cerra o semblante
Puxa a patilha e pensa no amigo de infância
A seguir engatilha a arma para a trilha de vingança
Faceta de louco põe a mão na maçaneta
Ele quer matá-los e fazê-los apodrecer numa sarjeta
Revolta macabra ele quer ver a cabra morta
É a reviravolta, respira fundo ele abre a porta



Crítica à política de detenção de armas nos EUA onde até os loucos podem possuir armas e daí o absurdo número de massacres de pessoas.




Uma vida radicada numa entrega tresloucada
Uma vida debitada, dedicada a ti
O esforço que fiz para teres a vida acautelada
Porque trabalho como um escravo para que não te falte nada

Senti-te estranha, senti o clima alterado
Eu devia ter calculado que era tudo falseado
Relação já não tinha chama
Mas nunca pensei que acabasses com essa doninha na minha cama
Forreta, era o que ouvia nas tuas bocas
Quando fui eu que comprei as tuas joias, as tuas roupas



Atentai bem nestes versos, jovens, que neles reside um grande ensinamento de Valete: o amor e a lealdade não correspondem a qualquer valor pecuniário.

Precisam que esmiúce mais um pouco esta noção?
Amor e lealdade não se compram. Não se compra uma pessoa. Portanto não se pode vir depois cobrar o carcanhol investido quando as coisas dão para o torto.
Aliás, já vai sendo tempo de os moçoilos perceberem que não têm de sustentar as mulheres, elas bastam-se a si próprias, o mundo do trabalho já não lhe está vedado como nos tempos de antanho.
Portanto, jovem: entre uma rapariguinha do shopping bem vestida e petulante e uma moça que tem de manter dois empregos para sustentar os filhos do casamento anterior escolhe a segunda, porque ela nem tempo vai ter para ti quanto mais para o teu melhor amigo.

E para as garinas: não têm de servir para serem servidas. Vocês bastam-se a si próprias. Estar na dependência financeira de um homem é uma perda de autonomia limitante que nos dias de hoje não faz sentido, nem sequer é vantajoso. Libertem-se da educação machista que tiveram.

Acabo de ler um clássico da literatura, do Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde esta problemática é desenvolvida quando ele nos conta a primeira paixão da personagem, ainda muito jovem e ingénuo: a bela Marcela. Uma moça que tudo fazia em troca de joias caras. Só muito mais tarde o incauto apaixonado se dá conta que era a cobiça e não o amor que movia a donzela.

Por isso, amigos, leiam os clássicos, releiam-nos, ou então atentem no que diz Valete.




Puta, cona alargada, pura insana
Encharcada de moralismo sempre armada em puritana
Agora vais sentir a sequela
Com a caçadeira enfiada na tua goela
A bala a perfurar a traqueia



Outra dica importante de Valete para os adolescentes: não comparem pilinhas uns com os outros. São brincadeiras que parecem inconsequentes: ai e tal, deixa cá medir a tua e a minha, a ver quem tem maior e assim, mas depois aquilo fica a germinar na cabecinha, na de cima, bem entendido: o nosso melhor amigo é mais abonado que nós. Vai daí um dia acreditamos que a cona da nossa namorada fica alargada só porque levou com um mangalho maior que o nosso, e não fica, que o criador fez o músculo vaginal com uma elasticidade a toda a prova e de modos que ser grosso ou fino, ser curto ou comprido o efeito no feminil saguão é o mesmo.



E o teu corpo como plateia enquanto a morte fraseia:



Bela metáfora, ironias à parte.



Nós éramos únicos, os últimos moicanos
Melhores amigos desde os 8 anos
Éramos os putos das trapaças e chalaças e toda gente
Com graça chamava-nos de comparsas
Laço alquímico, sentimento mítico
Dei-te amor bíblico tu eras só um cínico




Amor bíblico é um sinónimo de sexo e assim estamos perante um momento Brokeback Mountain o que só prova que a homofobia não está a passar por aqui. Valente bem.




Lembras-te do nosso pacto de sangue
Se fosse preciso era morrer um pelo outro como num gangue
Para a minha mãe eras como eu, deu-te o me'mo trato
Sangrámos juntos, comemos do me'mo prato
Quem diria que iria ver-te com essa fingida
Quem diria que seria o teu melhor amigo a tirar-te a vida
Vosso casamento no inferno é o que eu prevejo
Puta, dá-lhe um beijo e pede um último desejo
Vê a gruta do abismo na viagem conjunta
E a bruta pena capital, o karma da vossa conduta




Momento "abaixo a xenofobia": se na Arábia Saudita o adultério é crime e aqui em Portugal, na mente de muito boa gente, também deveria ser, é porque somos todos irmãos, não?

Falemos então de Monogamia.
O Valete tem uma música cujo título é: Monogamia. Fala de uma relação que o Valete tem com a Liberdade. Em oposição à Liberdade existe a Religião. E o nosso artista é um fundamentalista desta Monogamia: não troca a Liberdade pela Religião nem para dar uma escapadelazinha sequer. E tem toda a razão. Haverá melhor Monogamia?

Desconfio que a protagonista feminina do BBF é uma fã incondicional do Valete. Somos todos, não é verdade?


Tiago- “Uhn Uhn”
Ana- “Ei então o que é que foi?”
Tiago - “Foda-se, pesadelo do caralho!”
Ana - “Estás todo suado!”
Tiago - “Foda-se!”
Ana- “Vai Tomar um banho!”
Tiago- “Ya!”



Momento de defesa da saúde pública: o suor é um meio ideal para a multiplicação de bactérias. Tomar banho dá saúde e faz crescer.


Esta é a minha interpretação do texto do artista. Se ele não gostar tenho outras. (nah, estava a brincar.)