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| Solar Megalomania, pintura de Leonora Carrington |
Veloz como um tiro
o cavalo
o mais belo filho
do sol
deita-se a correr
luz que foi
antes de ser carne
ainda nos pastos verdes
e antes no centro
do grande coração de fogo
Hoje acordei para o fim do mundo
e tu já não estavas
Ainda vejo
da véspera
um último sinal
de chamada
Agora a ausência
uma morte antecipada
a morte total
uma morte pré-morte
percorro o cenário
da cidade
vista de cima
a realidade interrompida
a claridade do código
esculpiu a noite de pedra
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| Fotografia de Lissy Elle |
As mulheres estão sempre a carregar
nas tintas
a enfiá-la
na ilhó da minha luva
ajoalharia no molhado
num lugar público
a colcha no chão
almofado por baixo do rabo
ele circuncidado
tremia
fome de dentes
autêntico escorpião
nativo
a lamber e a delamber
o hálito fresco
o sítio mais macio
suave como um pêssego
os seus hunguenotes
a marcha dos sapos
na boca
se ninguém estivesse
a olhar
tão limpo e branco
papa diluída
orvalho
o que faz o bigode poeta
nas mulheres
um marinheiro chegado do mar
a arder
sem uma palavra
nuvem matutina
in Dias Alciónicos (experiência de rasura de Ulisses de James Joyce, na tradução de Jorge Vaz de Carvalho)
Rasura de um conto da Mónia Camacho da Antologia Minimalista:
A Casa na Praia
Numa melancolia pouco rigorosa
a casa murmura o teu nome
o jornal coberto de pó
em cima da mesa da cozinha
os pássaros vêm à praia
prisioneiros de nada
uma mulher sai à rua
com pantufas de ananás
A casa é uma teia de aranha
um regresso que se esfumou
o limão das memórias
em todos os guarda-chuvas que perdi
pedaços de geometria
coisas parvas
até que o Sol cai por trás do mar
e a noite esconde tudo