sábado, 28 de julho de 2018

Passerele

Trabalho de Alana Aldridge



Os sentimentos soterrados
num cardume de avalanches
de palavras
quanto consolo rentabilizado

Os sentimentos na passerele
um desfile de misses em biquíni
quanta elegância calculada
quanto empenho
engenho
arte
e o raio
que o parta

Os sentimentos nos botões
do casaquinho assertoado
rente ao corpo
todo manufacturado
um brinquinho de hortaliça

Os sentimentos na bolha
de um embrião depositado
em quente bolsa marsupial
núpcias esquecidas
pelo desaquecimento geral
da greve do gás

Os sentimentos validados
em equação do corpo
na correcta ordem em termos
de teres e haveres
tudo guisado e desaguado
na pele do contabilista

Os sentimentos saltam à garupa
da domesticada e doce
sela turca
onde repousava solene
uma hipófise de fachada

Consulte-se a cartilha
e recorde-se ainda
pelas mesma razões indecorosas
a ausência de caroço
daquela nêspera
dura e original

Prossiga-se com a próxima
Eucaristia dominical

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Achigã

Para o Roberto Gamito


Trabalho de Max Walter Svanberg


Há um enigma suspenso
pairando sobre a descrença
de quem se debate
no jogo de cintura:
forjar ou fingir
o fôlego

respirar ao contrário
injectar abismos
nos cantos perdidos
do ângulo de visão
abrir o beco à barragem
cair a pique
planar no fundo
escapando
por uma unha negra
com um pára-quebras
chamado solidão

Há um reflexo na retina
do pescador
uma vida velha
a obsessão pela sinalética retida
o alegre letreiro informativo:
transgressão

terça-feira, 17 de julho de 2018

Ouvido na Consulta





Enquanto picava uma gata na radial para recolha de sangue a dona tentava amansar a sua ferinha dizendo: Vá lá, não tem mal, é o doutor, é o médico, é o médico, é o doutor, é o doutor…
E eu o tempo todo a pensar: que raio, será que me esqueci de fazer o buço?

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Tuna Metáforas


trabalho de Bas Jan Ader

A Metáfora agrícola para mim não me convém
(não me convém)
que eu não quero passar a vista
p'los tomates de ninguém

A Metáfora geométrica para mim não me convém
(não me convém)
que eu não quero ler em livros
sobre os catetos da tua mãe

A Metáfora zoológica para mim não me convém
(não me convém)
nem cavalos que me derrubem
pirem-se os asnos também

A Metáfora religiosa para mim não me convém
(não me convém)
nem reis magos a caminho
nem sagrada família em Belém


A Metáfora fotográfica para mim não me convém
(não me convém)
não quero ser inundada
com os negativos de ninguém


A Metáfora histórica para mim não me convém
(não me convém)
Sebastião em nevoeiro
só um cão e quem o detém



Aiaiaiai, eu gosto da bela metáfora
quero inventá-la enquanto puder
ler  livros quando quiser

e etc...



água oxigenada




Há quem use
as palavras como àgua
oxigenada
em feridas
um engano traduzido
no atraso
da regeneração
dos tecidos

O silêncio
esse verdadeiro
cicatrizante

a carne nunca


trabalho de Robert Beatty
 
não sou
um ser de luz
sou feita de sangue
e facas
gosto
do bife mal
passado

houvesse
um botão
que abolisse
do mundo os matadouros
não hesitaria

mudar
o Planeta Azul para
Planeta Caldo Verde
Sem Chouriço
até lá: Posta Mirandesa
na mesa
fraca eu
a carne nunca

quarta-feira, 11 de julho de 2018

o funcionário matrimonial



chego sempre uns minutos
antes do tempo
quase raia o obsessivo
atrapalha o serviço
é mais forte que eu
o período da manhã
o mais calmo
o expediente bastante leve
os ânimos  serenados
denunciam apenas
uma ramela ou outra
febre dos fenos
tudo dentro da normalidade
deito uma espreitadela
à janela pelo rabo do olho
fraca agitação
mal me dou conta
chega o almoço convívio
o pão nosso de cada
mentira


a seguir à refeição
vem-me a traçã costumeira
passo pelas brasas discretamente
nunca fiando completamente
na modorra
benigna dos intervalos
afiambro-me à lancheira
se faz trovões é lá fora
que se dane o dia
se o bulício da cidade
interrompe a rotina
defensiva do quotidiano
que se lixe a taça
nada que não se resolva
com um breve despacho
ordinário sulfuroso
está feita a jorna
espeto uma última peta
o amor é labuta

à noite o leito é morno
em lençóis oficiais
separados

espero quinze dias de férias
merecidamente gozados
com uma ou outra corista
abençoado emprego
um lavor pra toda a vida