quinta-feira, 29 de maio de 2014

Fora de época




Está frio, caralho!
Tem cuidado poeta
Na rua usa agasalho
Delicado anacoreta.

Leva um bom nagalho
Por cima dessa jaqueta
O Inverno é uma treta
Põe-te mas é ao borralho!

Mais treta é o Inverno
Se já devia ser Verão
Por pouco não hiberno
Veste o casaco, cabrão.

Assoa-me esse nariz
Esse pingo, esse coalho
Faz fugir bela actriz
O amor dá trabalho.

 Não há poema que valha
Ao frio que vem aos dedos
O amor é uma navalha
Corta a direito nos medos.

Ó poeta, o tempo é feio
Mesmo tomando atalho
Põe, evita bloqueio
Casaco grosso, caralho!

TRAPÉZIO


Aqui no trapézio, de pernas para o ar, vejo a vida diferente. As cabeças lá em baixo seguramente sentadas nas cadeiras maciças. O silêncio por momentos é um cristal tão leve que consigo ouvir pensamentos. Imaginam-me ao avesso do que sou.
Aqui no trapézio, quando salto, a tua mão constante dá-me as asas que fazem planar e anular o risco da ausência de rede.
Vejo pequenas esferas perto do chão que parecem suspensas e trémulas. Arrepiadas. Enquanto isso eu voo para os teus braços de aço e de certeza tão doce. E sorrio. Para os que me vêem de baixo para cima sem perceberem que sou eu que estou na posição natural.
Olham para os nós que fazemos a quatro mãos e que sustentam duas vidas feitas do lado de cá.
Aqui no trapézio vivo o sonho diariamente. Acordada. Em plena acção. E os que vejo, diferentes de mim, apreciando a minha extravagância, não entendem.
Oiço ainda o rugido do leão cansado e o choro do palhaço vencido enquanto me lanço uma vez mais ao teu encontro num espaço suspenso, concretizado com músculos.
O espanto esboça uma exclamação admirada. Sorrio uma vez mais.
A vida aqui no trapézio, de pernas para o ar, é diferente. Estou segura voando constantemente para o refúgio do corpo do meu amor. Que me acolhe em cada salto. Sem rede e sem risco. Ao contrário dos normais lá na terra.
 Mal oiço os aplausos ofereço um sorriso final.

TEATRO DE SOMBRAS





Chove lá fora, oiço uma música triste na rádio enquanto espero por ti. Vens tarde mas nada vou dizer. Nem quando tentares articular as desculpas habituais. Calarei os teus lábios com beijos. Não me olhas de frente. Para ti, agora que só nela pensas, eu sou uma dançarina do teatro de sombras chinesas. Uma presença para lá do pano, na escuridão. Um corpo mal iluminado, oculto num plano secundário.
Chove sempre e não oiço os teus passos entrando em casa. Deitei-me para que te seja leve a cama. O escuro é teu cúmplice. Tal como as mãos, os abraços que afagam e confortam recebendo os teus queixumes.
Choras baixinho. Engulo as tuas lágrimas e espero. Por trás do manto que recebe uma luz suave uma silhueta permanece indefinida, dançando lentamente. O som é um lamento compassado e complacente da voz de uma esposa paciente.
Serei a tua âncora, o teu esconderijo, a réstia de força após a luta sem tréguas.
E quando ela desaparecer eu estarei cá. Por trás da cortina, feita sombra chinesa.
Espero um tempo sem fim.
Chegarás numa tarde pardacenta. Eu um fumo desvanecido.
Regressarás vencido pelas saudades de quem fui e farás desaparecer o pano com um gesto forte. A luz do sol entrará em mim e poderás olhar-me nos olhos.
Chove dolorosamente. Esperarei, nas sombras, até ao fim.

MIND THE GAP







Ainda lhe oferecera um sorriso antes de sair e bater com a porta. Tentava agora decifrar esse movimento de lábios. Demasiado rasgado? Trémulo? Do que tinha certeza era das mãos ansiosas na véspera, antes de subir para se deitar quando viera despedir-se dela à cozinha enquanto acabava de retirar os bolos do forno. Reparara-lhe no afagar das mãos, uma contra a outra em movimentos circulares como se tentasse matar um frio que teimava em atacar os ossos. Falava num tom suave. Demasiado doce? Naquele momento não pensara nisso. Apenas recebia a voz como tudo o que vinha dele. Com assombro. Por isso por mais que tentasse descortinar um pormenor, um prenúncio do que estaria para vir, era em vão. Nada do que acontecia antes se podia relacionar sequer de relance com o que se passaria depois. Como se houvesse um degrau no tempo a separar o passado do presente, o antes e o depois. Como se as duas realidades estivessem desalinhadas no espaço, presas em dois compartimentos contíguos mas independentes.
Quando subiu ao seu encontro, ele ainda era o mesmo de sempre. O mesmo que havia conhecido aos dezassete anos no liceu. Apenas disse que precisava de ir ao café. Os motivos eram fúteis mas verosímeis, ela nada havia contraposto.
Dormia um sono suave quando ele retornou ao quarto e penetrou no leito tentando continuar a viagem por ela fora. Foi com surpresa e depois com espanto e logo de seguida com terror que verificou que ele já não era ele. Quem seria esse outro tão pleno de violência e de esquecimento de si e dos dois? Atacando-a sem remorsos nem piedade. Sem motivos. Tentou a defesa mas as perguntas não lhe deram descanso ao espírito para investir em estratégias corporais que lhe permitissem um alívio, uma hipótese de alcançar a fuga. E sucumbiu com horror à investida, desistindo de retaliar, tentando apenas encolher-se o mais possível, tentando escapar para dentro de si mesma.
Não tinha ideia do final. Apenas se lembrava de sentir que estaria há horas deitada no chão. Em silêncio. Recordou o sorriso que lhe enviara ao bater com a porta antes de ter saído para o café e ela ter adormecido sem suspeitas ou ansiedades.
Sabia que o momento em que a sua vida tinha deixado de ser o que era para passar a ser o estava sendo seria o instante desse levantar de beiços ao sair pela porta do quarto. No aferrolhar da porta terminara uma sucessão de acontecimentos e após o intervalo do café viria iniciar-se outra, que a esta seria totalmente estranha.
Ela não testemunhara esse começo de segunda parte, esse reabrir da mesma porta para uma nova realidade, pois dormia e visitava os sonhos da rotina regenerativa normal de uma vida comum. Um sono ligeiro. E logo a vigília a impor-se pelo repouso adentro, rasgando imaginações, utopias e devaneios reconfortantes. Para lhe mostrar que vida era afinal mais delirante que o mais desconcertante pesadelo. Quando se deu conta já estava acordada nesse outro cenário, nesse novo plano de existência que afinal sempre ali morara ao lado, invisível e mudo.





deuses



A ambrósia e o néctar corriam livremente. Os deuses eram felizes e tinham trabalho porque as gentes acreditavam. Pouco a pouco a crença foi esfriando e eles passaram a sentir fome. Desempregados, foram colocados na Terra. Eram deuses, passaram a ser loucos. Em asilos. Júpiter fumando ópio num manicómio decadente para esquecer o tempo em que alguém confiava nele e por isso ele era. Mercúrio comia bolos e ficou obeso. Vénus olhava com infinita tristeza para as suas mamas que não eram agora senão dois saquinhos de café. Eles tinham sido, nós tinhamos autorizado, Deuses.

Bambu



Agora que estás como querias sentes que és uma flor ou uma árvore? Parece-te possível que o teu corpo consiga transformar-se em estátua de bambu? O sangue se torne sopa caudalosa? A carne se faça celulose rígida? O pulso se converta a zunzum frouxo?
Pensas que um Deus tão grandioso que produz uma Primavera de beleza extrema será mesquinho ao ponto de criar o ser encovado no qual te vais tornar?
Consideras honrosa a tua solidão estéril? Essas montanhas nem vão parir mais plantas porque esgotas a terra fértil pelos caminhos onde passas.
O guarda da alfândega já vomitou três vezes após ter escrito esses teus ais de cobarde alucinado.
O que é um homem?

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O Cérebro e Eu



- Bom dia Cérebro, quer dar-me uma palavrinha?
- Já lhe dei todas as que sabe mas volto a repetir as que quiser.
-Obrigado, não será preciso chegar a tanto. Conte-me por exemplo como se sente hoje,  por obséquio.
- Hoje por acaso sinto-me um bocado inchado.
- Ó diabo, terei de tomar algum comprimido? É que isso geralmente significa dor de cabeça...
- Pois, irá doer-lhe mais a si que a mim.
- De qualquer forma, as consequências podem ser graves também para o meu amigo. Dependendo das causas e da gravidade do edema. Pode ser preciso aliviar a pressão. Não quer que chame o médico? Pode ser preciso abrir a toca.
- Boa metáfora, geralmente basta abrir um buraco, com broca.
- Um orifício para alívio do Cérebro... de broca...
- Ahahah , está inspirado.
- Pelos vistos porque o meu amigo está iluminado. Mesmo sem estar na melhor das formas.
- Pode ser que seja condição passageira. Por acaso não tem por pistas que ajudem a explicar o fenómeno?
- Como assim?
- Alguma coisas que tenha feito nas últimas 24 horas que possa estar na origem deste aumento de líquidos no seio das minhas células...
- Nada. Estou a subir umas escadas.
- A subir escadas. Há quanto tempo?
- Desde anteontem.
- Está a subir escadas há mais de 24 horas? Mas porquê?
- Porque  as escadas ainda não acabaram.
- E onde vão dar essas escadas?
- Não sei, ainda não cheguei ao fim.
- Está explicado o problema: falta de oxigénio.
- Olhe amigo mas eu continuo bem.
- Não vê que em breve ficará afectado?
- Nesse caso tenho de ir mais depressa.
- Não! Isso só vai agravar o problema.
- Sim, mas o que é importante é alcançar o objectivo.
- Mas qual é o objectivo?
- Não sei, mas assim que chegar lá acima conto-lhe.
- Ó homem não vai conseguir dizer nada, desfalecerá.
- Tem a certeza?
- Não há certezas. Só probabilidades.
- Óptimo, então há esperança.
- Irra que é louco!
- Isso quer dizer que o amigo é fraco?
- Não, apenas quer dizer que não me dá ouvidos.
- Dou, dou, o que tenho estado aqui a fazer este tempo todo senão a ouvi-lo?
- Não vejo que me esteja a ouvir.
- E eu não oiço que me esteja a ver.
- Brinca comigo?
- É um convite?
- Estou a perder a paciência.
- Boa, também sou impaciente, seremos mais unidos desse modo.
- Não creio que isso venha a ser possível.
- Ó criatura de pouca fé!...
- Olhe, se não se importa vou sonhar.
- Força, eu vou continuar a subir, não se incomode, sou sonâmbulo.
- Boa "sonambulice".
- Sonhos "cor-de-prosa".