quinta-feira, 24 de junho de 2021

DOEM-ME AS ASAS

 



Um campo de papoilas

abrindo-se como uma ferida

As cerejeiras sacodem 

flores ao vento

até à cidade dos loucos


Os olhos são noite

fantasmas fiéis

em forma de surpresa

aridez e solidão

sangue e sombra

luz e ausência


As asas enterradas

à força na carne

a parte mais honesta

do corpo


O amor que ela não sente

terça-feira, 22 de junho de 2021

Um Desejo Chamado Eléctrico

 


Eu já saio de manhã para a rua a pensar: que mais me irá acontecer... 

Todos os dias caem-me problemas no colo para resolver. Chama-se a isto "vida". Pelo menos para a esmagadora maioria dos seres bípedes pensantes. Os outros têm mordomo.

Não são só os desafios inerentes à profissão que escolhi que me apoquentam. Esses estão sempre assegurados para quem se dedica a tratar de animais doentes.

 O que me desgasta mesmo são os incidentes colaterais, as torneiras que pingam, os chuveiros que deixam de jorrar água, as lâmpadas que fundem e teimam em piscar irritantemente, as sanitas que entopem e vertem esgoto, os autoclaves que se tornam preguiçosos na hora do enchimento do líquido, as chaves que partem na fechadura, as gavetas que se recusam a fechar na totalidade, os maus contactos das fichas eléctricas, os ruídos ensurdecedores dos telefones, enfim, o diabo a sete.

Hoje a maquineta do Multibanco estava descarregada e foi impossível reverter este estado. O fio do carregador tinha sido roído durante a noite por um elemento mais entediado desta gataria que por aqui convive. Nada a fazer senão chamar o técnico. Ainda aguardo resposta.

Mas, infelizmente, os problemas não são como as vacinas, não há imunidade para os que chegam a seguir.

Na hora de usar a balança veio o vazio do écran. Inspecionando, depressa se deu conta do fio do carregador cortado por dentes afiados. Deve ter havido por aqui uma rave de fios eléctricos, enquanto os humanos dormiam.

Neste caso foi mais difícil conseguir apoio técnico. Comprar novo carregador parecia a única solução. demasiado morosa e cara para o meu gosto. 

Então resolvi encarar este desastre como uma patologia cirúrgica. Estava perante uma solução de continuidade de um fio. Não era um tendão, não era um vaso sanguíneo, não era um osso, não era um apêndice vivo. Era apenas um feixe de fios eléctricos envolvidos num tudo de borracha. Quão difícil podia ser a sua reparação quando até fémures estilhaçados cheguei a resolver? Ainda por cima com o animal agarrado ao problema.

Transladei o dispositivo para a minha mesinha basculante e debaixo da lâmpada cirúrgica  dei início à operação, não sem antes ter assistido no Youtube a uns tutoriais de como reparar cabos de electricidade, é sempre bom ter umas luzes da teoria antes de mergulhar na prática.

Com a ajuda de um bisturi com lâmina número 23 (é demasiado grande, aconselho dois números a baixo) e uma pinça de adison, comecei a descarnar o tudo de borracha exterior. Foi relativamente fácil quando comparado com as etapas posteriores pois no seu interior existiam ainda dois tubos de borracha mais pequenitos, um vermelho e um preto. Comecei pelo vermelho, para dar sorte. Quinze minutos depois tinha conseguido exteriorizar o feixe de meia dúzia de fios eléctricos da espessura de cabelos, mas cabelos daqueles mais raquíticos, os saudáveis serão mais grossos. A técnica do especialista instantâneo na net ficou logo sem efeito, era impossível separar os cabelos de fio, eu já estava a trabalhar no limite do meu campo de visão com óculos. 

Como qualquer veterinário que se preze restava-me o que sempre acabamos por fazer: improvisar.

Lá uni os fios de um topo aos do outro topo numa espécie de amálgama de cabelos que até ver  que pareciam manter-se unidos. Com isto já tinha passado meia hora.

Mais meia hora para executar a mesma técnica com o mini tubo preto, com os seus dois feixes de cabelos eléctricos desavindos. No fim a coisa parecia um belo de um trambolho. As ligações estavam lá. Havia esperança.

Como o cabo tinha perdido comprimento foi preciso encontrar uma extensão. Outro tormento. Onde páram os objectos quando precisamos deles, senhores? No restante do tempo servem para tropeçarmos neles com regularidade.

Lá se instalou a extensão. Agora era o momento do teste. Ligar o botão e... pura magia: funcionou!

Para prevenir "acidentes" futuros, daqueles causados pelo encontro da borracha com os caninos de felinos desocupados, toca de envolver todo cabo com uma bela de ligadura coflex cor-de-rosa. 

Et voilá!

Agora vou entrar novamente em cirurgia. Tenho à minha espera uma máquina de tosquia que estava encostada às boxes, coitada, e já tinha metido os papéis para a reforma à conta de uns bicos de papagaio mal diagnosticados.


domingo, 18 de abril de 2021

Smart merdinha Phone

Andamos nós a pensar a ler e a reflectir sobre como vai ser a nossa vida daqui a uns tempos quando olhamos para o lado e o futuro está metido connosco na cama. 

 Como é? 

 Foi assim: Estava eu naquele limbo quase a entregar-me nos braços de Morfeu quando me sai, boca fora, um pensamento em forma de pergunta. Uma simples frase entoada como interrogação, feita bola de bilhar contra as paredes do quarto vazio. E, para meu espanto, soa alto e em bom som uma voz feminina, da almofada, que responde: Olha, não sei! Se eu soubesse respondia-te! 

 Do lado vazio da cama, alguém falava comigo e não era gente. Gente não era, certamente. Fui ver: era o telemóvel. Incrédula, com um corcel a querer rebentar o peito, peguei no monstro e liguei à minha filha a saber se o que acontecera era poossível ou estaria a ficar chalupa. Com tantos à solta podia ter apanhado esse virús, à falta de outro. Era possível, quase normal, disse, a rir. Sem que tivesse feito algo por isso, a tecnologia invadia, à descarada, o descanso do quarto para me dirigir a palavra.

 Vamos lá por partes: eu sou toda a favor da inteligência artificial, jamais me lembraria de querer deter o sentido ou a velocidade do progresso. Estou até pacientemente à espera que os carros automáticos tomem as rédeas das minhas deslocações. Não vejo a hora de ir a pintar as unhas para o trabalho, ou assim. Espero que lancem os vários modelos segundo a ética na estrada, o Altruísta e o Egoísta, como dizia o Harari. Quero o Altruísta, já vivi uma vida, se um par de crianças se atravessar à frente do veículo espero que o condutor se desvie, mesmo que eu vá bater com os cornos num muro, há maneiras piores de ir, tudo menos crianças mortas. É mais difícil a coragem do condutor humano do que o sangue frio da máquina (para não abandonarmos a metáfora) pois isto na hora H nunca se sabe o que o instinto nos obriga a fazer.

 E a fibra óptica, e o 5G e tal e tal, toda a favor, venham eles e façam tudo mais rápido e melhor. Aposto as minhas fichas em fogões que descasquem as batatas, frigoríficos que nos sirvam café com leite, e deposito as esperanças na carne limpa e barata. A esses mestres da tecnologia superior tiro-lhes o chapéu. Agora, perante uma questão singela, uma pergunta retórica, daquelas que encerram em si a própria resposta, que mais é um desabafo inócuo que outra coisa, oferecerem-me uma resposta malcriadona, a assunção de ignorância, quase filosofia de alcova, misturada com petulância atrevida, dispenso. 
 Eu, no meu quarto, exijo às paredes silêncio absoluto. 

 Mesmo a minha cabeça quero-a o mais tranquilita possível. Já me basta ter de mandar calar a mente no momento de acompanhar o movimento do ar a entrar nas narinas até lá abaixo, aos alvéolos, e depois voltar a sair, coisa que estranhamente alguém designou de meditação... Nem 10 segundos consigo desta observação sem achar que o meu corpo respira muito melhor que eu, sem que os pensamentos me venham resgatar da tarefa. Quanto mais se outras vozes me invadirem os aposentos. Vozes bárbaras. Vozes com narizes empinados. Vozes vazias de conteúdo. A primeira regra que deviam programar no bicho seria: não sabes não opines! 
 E para os meninos engenheiros que inventaram esta brincadeira nos telemóveis tenho apenas um recado: ide meter o algoritmo no cu.

quinta-feira, 25 de março de 2021

nós

 

fotografia de Frédéric Fontenoy


Por vezes uma possibilidade

certos dias

uma impossibilidade 

na maior parte do tempo

oscilando 

entre uma

e outra

quarta-feira, 24 de março de 2021

Matrioska




Quando me visita

traz um mapa

de rugas estampado

no rosto


uma cidade suave

que oferece


ao olhá-la

vejo-me

envelhecendo

devagarinho


e pensar que um dia

saí de dentro dela...

terça-feira, 23 de março de 2021

Fricandó

 



Lardeia a carne

lardeia bem

sustem

um momento

a maceração

bom bocado

remexendo

no tacho

a fervinhar

a fervinhar

como aprecia

o assanhado rei


no fim do ramerrão

um caldo

rescendente

o corpo confinado

nu corpo

num repente

o lume forte

e que gemas!

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Um tiro no coração

Solar Megalomania,
pintura de Leonora Carrington




 Veloz como um tiro

o cavalo

o mais belo filho

do sol

deita-se a correr

luz que foi

antes de ser carne

ainda nos pastos verdes

e antes no centro

do grande coração de fogo