quarta-feira, 15 de maio de 2019

Uma Só Volta do Sol




É uma distopia ou é um retrato crítico dos nossos conturbados tempos? Ou uma mistura dos dois?
Esta é uma história sobre a urgência do Amor, a influência do Amor na nossa capacidade de continuação enquanto espécie neste planeta. O que acontecerá à humanidade quando deixarmos de sentir por completo?
A Mónia dá-nos um retrato de um possível futuro que já está entrando pelo nosso presente dentro, escrito de uma forma tão profunda quanto subtil, poética mesmo.
Dá vontade de continuar a ler mais, esta história tem potencial para se tornar longa. Vou ficar à espera da continuação, esperançosamente.

sábado, 11 de maio de 2019

É Tarde


Foto de Franco Rubartelli





É tarde
não tenhas medo
vais andar por cá
mais uns tempos
saboreando memórias
o passado entrelaçará
a mão ao presente
gémeos inventarão
um futuro juntos
fotocópia do filho:
uma mentira

o estrugido pegou-se
ao tacho teclando
ao telemóvel fodeste
o jantar é tarde
a dieta finalmente
tem efeitos e contudo
não trará de volta
a beleza não
há vagar
para tentativas
é demasiado tarde
os erros foram
testados comprovados
dissecados em divãs
pagaste caro não
importa a janela
é uma guilhotina
ameaça direita
ao pescoço é tarde
e falta a despedida
ao derradeiro amante
o despertador em breve
cumprirá a chamada
para a linha rasa
é tarde


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Ainda Há Tigres na Malásia




Ainda há tigres na Malásia
em extinção claro está
é quanto basta
não estamos todos?

o que importa é
couraçar o coração
fazer pelo menos
uma viagem exótica

voltar para o café
fumegante da cozinha
adormecer esquecida
e quente na lareira
do teu colo

terça-feira, 7 de maio de 2019

finitude

Colagem de Max Bucaille



No princípio era a gota
agora inflama-se
a finitude na ponta
dos dedos
nem alívio
nem alopurinol
só a esperança
de catalogar
a morte como doença
que a medicina um dia
há-de resolver

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Vanitas

"Still Life With a Skull and a Writing Quill", pintura de Pieter Claesz



O vapor de água sempre
foi a melhor cortina
tapar sem fumo é superior
 à simples espera de um olhar
precrustante a antevisão
do que está por vir
tudo o que não sei
já tenho imaginado
o espectaculo é
um grande limão solitário
onde as guitarras gemem
contra veias e ampulhetas
a bolha um destes dias
rebenta


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Insónia

Imagem de 1973, do filme animado francês, La Planète sauvage
 (Fantastic Planet), realizado por René Laloux.




Paredes ao alto
coração aceso
um chibo
a correr na noite
contra a vidraça
trémulos mil
milhafres fluídos
atrapalhando
nos estores
a fúria

frágil o dique
rebenta
o aneurisma
à solta minotauro
correndo contrário
ao ponteiro do relógio
a fome sinistra
de chegar
a nenhum destino

no final
de ferir o céu
e abalar a terra
um silêncio
que fulmina
um anátema

conto sílabas
como carneiros
engomo frases
junto ao colarinho
sinto o pulso
à carótida o teu
ritmo






terça-feira, 16 de abril de 2019

categórica



durou um inverno só
a colecção memorial
de altos cedros
e baixos nomes

agora
antes da saliva o som
comove-me a descrição
da zona franca nativa
a palavra donairosa
o arremesso da voz
reverberando
contra o peito
uma palavra categórica
eis a questão
penso insisto
no discurso
desbravando cornucópias
ao toque de uma geometria
descritiva audível
variante do vocábulo singular
a palavra detonada
o arremesso da voz

depois
o silêncio
tradução de Aquiles
quase flecha
uma incapacidade
na queda
um calcanhar