domingo, 2 de setembro de 2018

CORAÇÃO BOIMERANG




Coração de boi
dar e levar com ele
em cheio na nuca
nunca foi pêra
doce dor de quem
viu fugir-lhe
a carroça lá na frente
a força escoar
por nervos ou colares
missangas de esperança
entornadas no chão
da praia onde morrer
um coração
é um boi uma arma
vai e vem
contra nós marra

sábado, 1 de setembro de 2018

MÁ MENINA MÁ

Fotografia de Tatiana Gulenking



Criaturinha das trevas
desacompanhada
na escuridão celeste
criaturinha das trevas
menina fosforejante
suja

vieste do outro lado
do tempo à boleia
num túnel de minhoca
menininha misteriosa

Aprendeste a cosmogonia
do castigo esse ritual
repetido desde a Infância
na oca protetora
ao longo das eras
vens dar-me uma lição
de genealogia

percorre-te a carne
um unguento
de amargura a flecha
enterra-se na espádua
marca de Órion
Caim de cabeça
no corpo meio vazio
um desejo de dor
como um pecado

Ó criaturinha das trevas
má menina má
eu te absorvo






O Elefante Tombado




Ilustração de  Billy Shire




Xeque-mate elefante
no meio da sala
tomei a liberdade de
avançar pelo xadrez
senhora
puxando o tapete
ele tomba
numa invisibilidade
intermitente
um caso de perícia:
jaz
não jaz
elegante


a tromba é de água
criatura minando a noite
coração de um só lóbulo
consolo de lábios tantos
corroído de rugas
rasgos de fúria
um mapa de ruelas onde se
esconde a memória
(que nunca morre)
a esvair-se em sangue
exaurido chilreia
prenda de rajá
um mamute de marfim
assegura o comissário
casca grossa
salvou-se a rainha ao menos
a culpa  serve-se com chá
de  sevícias
e cardamomo

MUTANTE

Macro fotografia dos olhos de um insecto de Yudy Sauw





Acerto com força
na mosca
que insistentemente
me pousa no braço,
caramba, e não morre!

O mutante mor
cego ferra-me
os caninos
no pensamento.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Poema Americano


Fotografia de Lissy Elle



Conheceu os filhos antes
de nascerem
tinha também uma ideia
clara do momento
da sua morte a sua
maldição não saber
o dia e a hora
multiplicava a tormenta

sonhava todos os dias
com uma viagem
num descapotável
vermelho entrava nele
descontraída de cabelos
presos com lenço
de seda à boa maneira
das actrizes francesas
dos anos sessenta o carro
americano

ia divertida
estrada fora
até atravessar um viaduto
suspenso sobre um ribeiro
invisível

galgava os rails
de proteção num voo
picado atravessando
o vento rindo
de uma piada perdida
que iria durar a eternidade
ou na pior das hipóteses
três míseros segundos