sexta-feira, 10 de agosto de 2018

taser


Instalação com Ondas de Daniel Palacio



transpor o silêncio
pronunciar
o termo certo
é taser


uma arma incapacitante
tântalo contraindo
distendendo a pele
o músculo preso
tremendo
arpões paralisantes


dois gatilhos
tudo o que irá transbordar
da baixa letalidade
será o fluir das ondas

os danos colaterais
decididos em plenário
transitando em julgado
pronunciar o termo certo

o teu eletrochoque
música a legendar o fogo
para os meus sentidos
toldados

Respigadora

pintura de Kwangho Lee



Do que é teu
quero apenas
o que não usas
de resto
podes ficar
com o prato
principal

O Homem à solta

Para o Roberto Gamito


Trabalho com Mapas de Mathew Cusick


Deus pariu
o Big Bang
e abalou
para férias
prolongadas
na conchinchina
partiu mais a Esposa
na sua própria paz

anda o Homem à solta
oremos Senhor

brinca aos Olimpos
e às Bolsas de Wall Street
uivos no Universo
nova Meca reconquistada
o maravilhoso
jogo da Macaca
oremos Senhor

diverte-se a alterar
as Alterações milenares
subtileza espetada
no flanco da Natureza
a mudança que tudo muda
implodindo o Antes
oremos Senhor

condimenta  com o medo
a carne dos animais
urina suor cerveja
sangue no caldo
fervente e pervertido
da sofisticação
dos ricos o pitéu
tem por sobremesa
a Pandemia
oremos Senhor


ri Satanás
refastelado
enquanto Sísifo
agarra a pedra
duas mãos arma
de arremesso
contra o olho da noite
oremos Senhor

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

As palavras não contam

Fotografia de Francesca Woodman




À porta
as palavras não contam
cada minuto
vai descendo
não sem antes
arranhar
a garganta
como unhas de gato
pata ante pata
intercalando cada lado
da ferida
sessenta estilhaços
penetrando a pele
até à badalada final
o canino de um tigre
pedra a lapidar
lápis infernal
cautério queimador
e eu capitulando
caindo
dilatadamente
muito abaixo
do chão

a porta cumprirá numa hora
as penitências desse ano
que as palavras não contam

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Barlavento

Pintura de João Figueiredo


dar o corpo
dar o corpo às balas
derrames de borracha
mortíferos
bluffs intempestivos
bíblias e búfalos
os cornos espetados
nas coxas exangues
barra o vento
o corpo
barragem de sabão
bolhinhas e bolhinhas de veneno
à bolina a barca
do inferno as crónicas
em prestações

dar o corpo
dar o corpo à queda
com estrondo
amparar o fim da festa
salvar uma réstia
de suavidade última
suspiro e suor
os braços cravados
cravinho especiarias várias
o chão alagado em hematomas

coser a boca à musa
impôr-lhe a sapo-condição
regredir encolher
num último caso
receber
recados de uma puta mansa
por obséquio
digestão e manta


Slogan


escultura de cerâmica de Ken Price

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

Narciso Sim
Nenúfar Não

domingo, 29 de julho de 2018

o barbeiro faz barba a si próprio


Pintura de Gustav Klimt


a amante é uma mulher
que se deixa humilhar

saber se há mais-valia
ou prejuízo
no processo
só ela o avalia
como o médico que tira o pulso a si mesmo
o juiz em causa própria
ou o barbeiro
que faz a sua barba
e no espelho recebe
o reflexo da medida da grandeza
do olhar do outro

a amante é uma mulher
que se deixa emudecer
e mede as perdas
os ganhos
os tralhos
os bugalhos
pelo método das temperaturas
haja humidade