quinta-feira, 12 de março de 2015

Pã e Syrinx


Pagaste com mal
o bem
pagaste com mal
o mel
pagaste com sal
o acém
pagaste com vale
o desnível
pagaste com metal
a lã
com fogo letal
a fiel fã
com fome
o amor de Pã
com tua música
a flauta surda
e vã.


quarta-feira, 11 de março de 2015

O passado é a luz das estrelas

Céu estrelado, Luci




olho as estrelas
no céu da noite
como quem vê o passado
eras tu e eu
sem nós
na luz desse dia
indesculpável
como um cordão que se estreita
como um adeus que se estica

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sumo de memória





Lembro-me do dia em que fui fazer uma visita a trezentos quilómetros de distância. Tinha uma saudade crónica que era como um furúnculo a latejar sem descanso. Às tantas a bolha rebentou. Uma dor aguda é muito mais difícil de apaziguar.
Peguei então no carro, no mapa, no cão e fiz-me ao caminho.
A memória, por vezes, é uma enguia escorregadia. Outras faz batota e inventa. Neste caso é uma laranja demasiado densa, das que se espremem e deitam pouco sumo, quase nenhum.
O dia tornou-se inesquecível mas as imagens que dele retive são imprecisas e incompletas, um nevoeiro.
Sei que foi um dia feliz. Houve gargalhadas, bom humor, muitas pessoas, tranquilidade.
Não sei onde almocei, quantas horas demorou a minha permanência no local. Quem se despediu de mim quando regressei à estrada.
Tenho apenas dois ou três segundos de imagens de um dia que é importante.
Do que me lembro como se fosse ontem é da paragem que fiz, quase a chegar ao destino, para pedir indicações a um transeunte. Algures no meio do campo, à beira de uma rotunda, um rapaz de sotaque ucraniano ou russo ajudou-me a descobrir a rota certa. Preparava-me para rodar a chave quando me tocou suavemente no vidro com os nós dos dedos. Baixei a janela e disse-me: tem muito boa aparência. Muito obrigada, respondi.
Fui-lhe agradecendo em silêncio aquele estímulo de coragem nos últimos escassos quilómetros do final da minha viagem.
E é por estas e por outras que continuo a confiar na generosidade de estranhos.
Da memória desconfio cada vez mais.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Derrota

ilustração de Reginald Birch para o conto de John Galsworthy: "Defeat"


Hoje não te escrevi. Não por falta de vontade, aliás nunca é. Para te escrever não basta o desejo. É preciso uma certa urgência na mensagem, uma força excepcional que vença a minha auto-censura. Não posso simplesmente dizer a primeira coisa que me venha à cabeça. As palavras têm de ter um significado para que nunca se apaguem da memória.
Ao invés de te escrever fiquei a pensar na conversa da mulher gorda. Nos seus olhos de derrota ansiosa. Os olhos, pequeninos e semi-cerrados, mais pareciam duas linhas rectas.
Sempre pensei que a derrota fosse um estado de paz. Como uma morte. Aquela mulher, no entanto, não estava em paz. Daquelas duas linhas trémulas vinha o olhar de quem nunca descansa. A sua ansiedade confirmava-se na voz. Era uma voz meio rouca, meio meiga, aflita. Aquela mulher sentada diante de mim, contava-me a sua história, a história da sua derrota, de alguém que não encontrou alívio.
Passava as mãos na cabeça da gata. O animal apesar de condescender apresentava um ar de sofrimento, de medo. A mulher, carinhosamente implacável, mexia com força na cabeça do bicho enquanto me contava a sua tragédia pessoal. Primeiro os dias felizes com o noivo, o sucesso no emprego, a vida desafogada. Tentou avançar pormenores de sintonia sexual no paraíso perdido mas auscultando o meu desconforto arrepiou caminho. 
A gata parecia ouvir a mulher com olhos de pânico. Como se mal aguentasse a repetição do relato em modo exaustivo. Inteligentes e dotados de memória de elefante os gatos jamais esquecem o que os humanos lhes dizem. Este animal sofria com a memória encalhada da dona, aquela narrativa era tudo o que escutava. E sempre que a ocasião surgia a conversa era reiniciada. Todas as pessoas representavam novas oportunidades. Aquela era a minha vez.
Ela era linda. Ela era feliz. Ele era lindo e perfeito. Iam casar. No dia do casamento ele teve um acidente de carro e morreu. O vestido de noiva ficou por estrear. Fim.
Agora ela tinha mãos papudas e papos debaixo dos olhos e cabelos longos eriçados e uma gata. Uma gata que ouvia a mesma história vezes sem conta com olhos de pânico. 
Tinham passado anos, décadas, tanto tempo e a mulher não aceitara a derrota. Podia ver-lhe a ansiedade no olhar. A aflição na voz ao falar do vestido de noiva por usar, novo. O noivo era lindo, mostrou a fotografia para eu verificar. Sim, era, disse-lhe eu consoladora. A gata miou de pânico. A mulher apertou-a contra si criando-lhe mais medo.
Por fim levantou-se lentamente e a custo. Ajudei-a a alcançar as canadianas. Andava com muita dificuldade. Coloquei-lhe a gata na caixa transportadora e acompanhei-a ao carro. Elogiou-me e desejou-me sorte. Sorte, muita sorte, é tudo o que precisamos na vida, disse, eu não a tive.
Fiquei a pensar nas palavras da mulher gorda e na gata a saltar da caixa em casa para se esconder debaixo de algum sofá. E a mulher a tentar convence-la a sair para lhe afagar o pêlo com as mãos pesadas e implacavelmente carinhosas. Imaginei a mulher a contar a história da sua vida, da sua derrota, ao homem que vem contar a luz. Depois ao homem que vem contar a água, ao carteiro, à vizinha que se acabara de mudar para o apartamento da frente, à enfermeira que lhe vai mudar os pensos dos joelhos, como quem recusa o silêncio, o esquecimento. A mulher gorda deve pensar que a repetição da história é a negação da sua rendição. De resto sabe que está derrotada. Apenas quer prolongar o fim. Não lhe interessa o alívio, a paz, a ausência de dor. Prefere a recordação em loop, a dor reproduzida ad aeternum, a memória incendiada, a renovação dos votos de quase viúva, a dilatação do momento trágico.
Mas nada disto é suficientemente importante para te escrever. Hoje, se calhar até sempre, ficarei em silêncio. Eu, ao contrário da mulher gorda, abraçei a derrota.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

BARBELITH

The Invisibles by Grant Morrison,




É um caminho muito longo, tão longo que não sei
se há-de ser recto ou curvo,
é uma estrada feita de muros,
morros intransponíveis,
entulho,
tábuas de perdição,
mãos que nascem do chão,
sem dedos,
querem agarrar e apenas
mordem.
Um caminho de fendas
negras,
a cada solavanco apressam
as pernas,
relâmpagos que congelam
os braços
em transe
num intransigente sentido
rumo
à revelação.
Um caminho longo
feito de passos,
espera,
travão
talhado 
inventado
num vulcão.
E há outro caminho,
mais límpido e subterrâneo,
que nos cola, irredutíveis,
ao primeiro chão,
que diz:
atrás da Lua
há uma placenta
vermelha e complacente,
alimentando as histórias,
a imaginação.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

tio Alfredo

pormenor de decoração na Pensão do Amor



O tio Alfredo era só putas e vinho verde. Qualquer tipo de vinho aliás, que a sua esquisitice não se estendia aos licores de Baco. Trabalhar não era com ele. Bonito demais, engatava quem queria. Para mal dos seus pecados também haveria de engatar quem não queria.
Um dia depois de cravar a  irmã mais velha em dois contos de réis, saiu para a farra, frenético. Seduziu, incauto, um travesti. Quando descobriu o equívoco partiu para a violência esquecendo-se que não era com uma mulher que lutava. Não foi suficientemente forte para superar os músculos másculos que, de forma aviltante, desprezara. E uma queda abrupta da escada da pensão levou-o a um longo internamento no Egas Moniz. Era assim derrotado pelo preconceito, um vencido da homofobia. Ao traumatismo craniano recente juntou-se a loucura congénita e um belo dia lançou-se de uma janela do edifício para o meio do chão.
O tio Alfredo, de pélvis partida, ofereceu-se a si mesmo mais um ano de hospitalização. Jamais haveria de largar a cama.
Passaria para a casa de repouso onde espalhava o terror pelos velhinhos espancando-os até partir ossos ou fazer sangue.
Morreu aos cinquenta anos da funesta doença cujo diagnóstico permaneceu obscuro.
Ainda hoje, em eventos familiares, quando olho os rostos à mesa, ainda consigo ver, mais diluído, menos diluído, o tio Alfredo entre nós.

crime sem perdão


Camille Claudel, The Implorer, 1899. Bronze, France, private collection.


Se
o olho cobra
o olho,
se
o dente  dobra
o dente,
quero
o amor como vigança
o amor como sentença
do crime sem perdão
agravado 
de palavra,
nome e nervo.
Gratidão.