sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Pedra receosa
"Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente!
Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te."
Apocalipse 3:15-16.
nem frio
nem quente
morno
morno
esquivo
ao amor
e ao ódio
morno
morno
pudesse eu
vomitar-te
morno
morno
conheço
as tuas obras
morno
morno
com fama
de estar vivo
morbo
morbo
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
DIAS DE TEMPESTADE
DIAS DE TEMPESTADE é um livro de poemas de José Duarte escritos através do método de Rasura. Passo a palavra ao autor para explicar de que se trata:
"O presente volume é uma obra de carácter experimentalista. Tomando conhecimento do processo de Erasure, que é uma forma de Found Poetry, decidi aplicá-lo a uma obra clássica: Moby Dick (1851) de Herman Melville. O processo consiste no corte/apagamento de algumas palavras num determinado texto, em prosa ou em verso, e as que sobrarem são usadas para construir um poema. São retiradas palavras, frases, e às vezes, parágrafos inteiros, que são trabalhados visualmente na página, de modo a criar o poema e dar um novo sentido ao texto.
As possibilidades de criação são infinitas: cortar palavras com uma tesoura e montá-las numa página nova, usar um marcador e apagar partes de uma texto, usar um lápis ou, até mesmo, o computador. As palavras podem ficar na mesma posição em que estavam ou ser distribuídas de forma diferente pela página. O resultado pode ser variado: um novo sentido, uma nova história ou a mesma história, mas contada de maneira diferente. Cabe a quem está envolvido no processo perceber qual é o caminho das palavras.
Julie Judkins, num workshop sobre este método, chamou-lhe uma poesia da ausência."
Chamar à Rasura poesia da ausência é a velha história de ver o copo meio vazio. Se preferirmos ver o copo meio cheio podemos chamar-lhe poesia da colheita. No fundo é como quem apanha fruta num pomar. Implica olhar por entre as ramagens e descobrir, achar, o mais importante. Ou seja ir ao núcleo poético do texto e retirar, colher as palavras que interessam. E eis que do texto se extrai um poema, o fruto. (E como o pomar é alheio pode dizer-se que é um fruto-furto.)
Neste caso particular a matéria-prima e a perícia do recolector são tão boas que o resultado é um conjunto de poemas maravilhoso.
Foi-me difícil escolher um poema como exemplo. Aqui vos deixo este:
( também podem conhecer mais poesia do autor visitando o seu blogue:aescritaemdias.blogspot.com, eu visitarei.)
XXI
Deixo atrás de mim faces pálidas
sinto obscuramente o metal sólido
falta-me a minha alma
obedecer
a um sofrimento cósmico
O tempo e
as águas são vastas.
o meu coração pesado como chumbo
relógio parado
A baleia branca
Com sentimentos
humanos
o resultado final
é bizarro
talvez o mundo
a cruzar versos não tem
tempo
é louco ou está bêbado
-os deuses e os homens no meio
dos bosques não têm entranhas
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Old Whore's Diet
Old Whore's Diet [feat. Antony Hegarty] - Rufus Wainwright from Want Two (2004). Footage from The Blood of a Poet (Le Sang d'un Poète) directed by Jean Cocteau (1930).
comida requentada
dieta de puta velha
faz-me levantar de manhã
faz-me levantar de manhã
faz-me levantar de manhã
dizer que te amo
desperta-me pela manhã
desperta-me pela manhã
desperta-me pela manhã
assim vou vivendo
aqui e no Inferno
aqui ou no Inferno
vais precisar
de uma ajuda suicida
dieta de puta velha
vai bem com sangue de poeta
dizer que te amo
vai bem com sangue de poeta
dizer que te amo
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
solve et coagula
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Auriga
Era o tempo de aprender o que é um homem.
O tempo de aprender o que são mãos grossas de homem.
Voz grave de homem.
Segredos incrustados em rochas, o mar morou no alto das montanhas, as estrelas têm nomes e formam desenhos no céu da noite.
Era o tempo de saber tudo o que um homem ensina: xadrez, coragem, deslealdade, a recordação de um amor único.
Naquele tempo estive a ponto de conhecer um homem.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
sortilégio
![]() |
| Odalisca, Mariano Fortuny |
Devia passar mais creme nas pernas,
massajar os cotovelos todas as manhãs,
escovar o cabelo contando até cem,
experimentar mais vestidos antes de sair.
Devia aconchegar os seios com as mãos
olhando-me ao espelho antes de dormir,
oferecer o tacto à pele mais escondida,
demorar-me onde a tensão me chama.
Porque o corpo é o único inocente.
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