segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O DEUS DA MIOPIA

Masks designed by Cornelis Floris and engraved by Frans Huys, in 1555


Ao almoço
choques com tinta
o desperdício as palavras
afogadas em espesso líquido
jamais serão lidas

Dois tentáculos de silêncio branco
farejam a garganta
o sufoco

O dia abranda
acusando uma ausência
a luz imóvel revela
a rarefação dos minutos
moinha opressiva

Há horas que ficam
como farpas aguçadas
alojadas no sabugo
dos dedos
as unhas: testemunhas mudas
prerrogativas do Deus da Miopia

A escolha dos olhos
seria
sempre não ver

domingo, 2 de setembro de 2018

MULHER NENHUMA

Fotografia de Nicola Kuperus


Alguns olhos incautos
hão-de tomar
a poética da foda
por belíssimos poemas
de amor

Mais tarde haverá de perder
o desejo pela esposa
tendo passado a amá-la

Não a trairá
mulher nenhuma
ganhará a sua cama
só cona
mulher nenhuma

EM PARTE INCERTA

Hiding from love, João Figueira


Em parte estás
por ficar partiste-me
a certeza de estar aqui
tão longe
indo embora

CORAÇÃO BOIMERANG




Coração de boi
dar e apanhar com ele
em cheio na nuca
nunca foi pera doce
dor de quem viu fugir-lhe
a carroça lá na frente a força
escoar por nervos ou colares
missangas de esperança
entornadas no chão da praia
onde morrer
um coração
é um boi uma arma
vai e vem
contra nós marra

sábado, 1 de setembro de 2018

MÁ MENINA MÁ

Fotografia de Tatiana Gulenking


Que fazes aqui
criaturinha das trevas
que queres tu diz-me
diz-me o que fazes aqui
desacompanhada
na escuridão celeste
criaturinha das trevas
menina fosforescente
suja

Vieste do outro lado do tempo
à boleia de um túnel de minhoca
menininha misteriosa

Aprendeste a cosmogonia do castigo
esse ritual repetido desde a Infância
na oca protetora ao longo das eras
vens dar-me uma lição de genealogia
a ver:
percorre-te o corpo
um unguento de amargura
a flecha enterra-se na espádua
marca de Órion
Caim de cabeça
no copo meio vazio
um desejo de dor
como um pecado

Ó criaturinha das trevas
má menina má
eu te absorvo






O Elefante Tombado




Ilustração de  Billy Shire




Xeque-mate elefante
no meio da sala
tomei a liberdade de
avançar pelo xadrez
senhora
puxando o tapete
ele tomba
numa invisibilidade
intermitente
um caso de perícia:
jaz
não jaz
elegante


a tromba é de água
criatura minando a noite
coração de um só lóbulo
consolo de lábios tantos
corroído de rugas
rasgos de fúria
um mapa de ruelas onde se
esconde a memória
(que nunca morre)
a esvair-se em sangue
exaurido chilreia
prenda de rajá
um mamute de marfim
assegura o comissário
casca grossa
salvou-se a rainha ao menos
a culpa  serve-se com chá
de  sevícias
e cardamomo

MUTANTE

Macro fotografia dos olhos de um insecto de Yudy Sauw





Acerto com força
na mosca
que insistentemente
me pousa no braço,
caramba, e não morre!

O mutante mor
cego ferra-me
os caninos
no pensamento.