sábado, 1 de setembro de 2018

MÁ MENINA MÁ

Fotografia de Tatiana Gulenking


Que fazes aqui
criaturinha das trevas
que queres tu diz-me
diz-me o que fazes aqui
desacompanhada
na escuridão celeste
criaturinha das trevas
menina fosforescente
suja

Vieste do outro lado do tempo
à boleia de um túnel de minhoca
menininha misteriosa

Aprendeste a cosmogonia do castigo
esse ritual repetido desde a Infância
na oca protetora ao longo das eras
vens dar-me uma lição de genealogia
a ver:
percorre-te o corpo
um unguento de amargura
a flecha enterra-se na espádua
marca de Órion
Caim de cabeça
no copo meio vazio
um desejo de dor
como um pecado

Ó criaturinha das trevas
má menina má
eu te absorvo






O Elefante Tombado




Ilustração de  Billy Shire




Xeque-mate elefante
no meio da sala
tomei a liberdade de
avançar pelo xadrez
senhora
puxando o tapete
ele tomba
numa invisibilidade
intermitente
um caso de perícia:
jaz
não jaz
elegante


a tromba é de água
criatura minando a noite
coração de um só lóbulo
consolo de lábios tantos
corroído de rugas
rasgos de fúria
um mapa de ruelas onde se
esconde a memória
(que nunca morre)
a esvair-se em sangue
exaurido chilreia
prenda de rajá
um mamute de marfim
assegura o comissário
casca grossa
salvou-se a rainha ao menos
a culpa  serve-se com chá
de  sevícias
e cardamomo

MUTANTE

Macro fotografia dos olhos de um insecto de Yudy Sauw





Acerto com força
na mosca
que insistentemente
me pousa no braço,
caramba, e não morre!

O mutante mor
cego ferra-me
os caninos
no pensamento.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Poema Americano


Fotografia de Lissy Elle



Conheceu os filhos antes
de nascerem
tinha também uma ideia
clara do momento
da sua morte a sua
maldição
não saber o dia
e a hora multiplicava
a tormenta

Sonhava todos os dias
com uma viagem
de automóvel um descapotável
vermelho entrava nele
descontraída de cabelos
presos com lenço
de seda  à boa maneira
das actrizes francesas
dos anos sessenta o carro
era americano

Ia divertida
estrada fora
até atravessar um viaduto
suspenso sobre um ribeiro
invisível

Galgava os rails
de protecção num voo
picado atravessando
o vento rindo
de uma piada perdida
que iria durar a eternidade
ou na pior das hipóteses três
míseros segundos

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

taser


Instalação com Ondas de Daniel Palacio



tentar transpor o silêncio

quando pronunciar o termo certo

é taser

uma arma incapacitante

tântalo contraindo

distendendo a pele

o músculo preso

tremendo

arpões paralisantes

dois gatilhos

tudo o que irá transbordar

dessa baixa letalidade

será o fluir das ondas

e os danos colaterais

decididos em plenário

transitando em julgado

quando pronunciar o termo certo

o teu eletrochoque

música a legendar o fogo

para os meus sentidos

toldados