sexta-feira, 27 de julho de 2018

Achigã

Para o Roberto Gamito


Trabalho de Max Walter Svanberg


Há um enigma suspenso
pairando sobre a descrença
de quem se debate
esse jogo de cintura
forjar ou fingir
o fôlego
respirar ao contrário
injectar abismos
nos cantos perdidos
do ângulo de visão
abrir o beco à barragem
cair a pique
planar no fundo
escapando
por uma unha negra
com um pára-quebras
chamado solidão

Há um reflexo na retina
do pescador (uma vida velha)
a obsessão pela sinalética retida:
o alegre letreiro informativo:
transgressão

terça-feira, 17 de julho de 2018

Ouvido na Consulta





Enquanto picava uma gata na radial para recolha de sangue a dona tentava amansar a sua ferinha dizendo: Vá lá, não tem mal, é o doutor, é o médico, é o médico, é o doutor, é o doutor…
E eu o tempo todo a pensar: que raio, será que me esqueci de fazer o buço?

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Tuna Metáforas


trabalho de Bas Jan Ader

A Metáfora agrícola para mim não me convém
(não me convém)
que eu não quero passar a vista
p'los tomates de ninguém

A Metáfora geométrica para mim não me convém
(não me convém)
que eu não quero ler em livros
sobre os catetos da tua mãe

A Metáfora zoológica para mim não me convém
(não me convém)
nem cavalos que me derrubem
desapareçam os asnos também

A Metáfora religiosa para mim não me convém
(não me convém)
nem reis Magos a caminho
nem sagrada família em Belém


A Metáfora fotográfica para mim não me convém
(não me convém)
pois não quero ser inundada
com o negativo de ninguém


A Metáfora histórica para mim não me convém
(não me convém)
Sebastião em nevoeiro
só um cão e quem o detém



Aiaiaiai, eu gosto da bela metáfora
quero inventá-la enquanto puder
ler  livros quando quiser



água oxigenada




Há quem use as palavras
como água oxigenada em feridas,
um engano
traduzido em atraso
da regeneração dos tecidos.

O silêncio, esse verdadeiro
cicatrizante.

a carne nunca


trabalho de Robert Beatty
 
não sou um ser de luz
sou feita de sangue e defeitos
por isso gosto
do bife mal passado
(é a autofagia dos genes)

no entanto
se houvesse um botão
que abolisse do mundo
os matadouros
não hesitaria
um segundo
mudar o Planeta Azul para
Planeta Caldo Verde
Sem Chouriço
até lá: Posta Mirandesa
na mesa
com certeza
posso ser fraca
a carne nunca

quarta-feira, 11 de julho de 2018

o funcionário matrimonial



chego sempre uns minutos
antes do tempo
quase raia o obsessivo
atrapalha o serviço
é mais forte que eu
o período da manhã
o mais calmo
o expediente bastante leve
os ânimos  serenados
denunciam apenas
uma ramela ou outra
febre dos fenos
tudo dentro da normalidade
deito uma espreitadela
à janela pelo rabo do olho
fraca agitação
mal me dou conta
chega o almoço convívio
o pão nosso de cada
mentira


a seguir à refeição
vem-me a traçã costumeira
passo pelas brasas discretamente
nunca fiando completamente
na modorra
benigna dos intervalos
afiambro-me à lancheira
se faz trovões é lá fora
que se dane o dia
se o bulício da cidade
interrompe a rotina
defensiva do quotidiano
que se lixe a taça
nada que não se resolva
com um breve despacho
ordinário sulfuroso
está feita a jorna
espeto uma última peta
o amor é labuta

à noite o leito é morno
em lençóis oficiais
separados

espero quinze dias de férias
merecidamente gozados
com uma ou outra corista
abençoado emprego
um lavor pra toda a vida



Poema Chiclete



mastiga a metáfora mastiga
mastiga 
a chiclete
de um poema que promete
mastiga mete fora
sem demora
se devora
se derrete