quinta-feira, 12 de julho de 2018
água oxigenada
Há quem use as palavras
como água oxigenada em feridas,
um engano
traduzido em atraso
da regeneração dos tecidos.
O silêncio, esse verdadeiro
cicatrizante.
a carne nunca
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| trabalho de Robert Beatty |
não sou um ser de luz
sou feita de sangue e defeitos
por isso gosto
do bife mal passado
(é a autofagia dos genes)
no entanto
se houvesse um botão
que abolisse do mundo
os matadouros
não hesitaria
um segundo
mudar o Planeta Azul para
Planeta Caldo Verde
Sem Chouriço
até lá: Posta Mirandesa
na mesa
com certeza
posso ser fraca
a carne nunca
quarta-feira, 11 de julho de 2018
o funcionário matrimonial
chego sempre uns minutos
antes do tempo
quase raia o obsessivo
atrapalha o serviço
é mais forte que eu
o período da manhã
o mais calmo
o expediente bastante leve
os ânimos serenados
denunciam apenas
uma ramela ou outra
febre dos fenos
tudo dentro da normalidade
deito uma espreitadela
à janela pelo rabo do olho
fraca agitação
mal me dou conta
chega o almoço convívio
o pão nosso de cada
mentira
a seguir à refeição
vem-me a traçã costumeira
passo pelas brasas discretamente
nunca fiando completamente
na modorra
benigna dos intervalos
afiambro-me à lancheira
se faz trovões é lá fora
que se dane o dia
se o bulício da cidade
interrompe a rotina
defensiva do quotidiano
que se lixe a taça
nada que não se resolva
com um breve despacho
ordinário sulfuroso
está feita a jorna
espeto uma última peta
o amor é labuta
à noite o leito é morno
em lençóis oficiais
separados
espero quinze dias de férias
merecidamente gozados
com uma ou outra corista
abençoado emprego
um lavor pra toda a vida
Poema Chiclete
mastiga a metáfora mastiga
mastiga
a chiclete
de um poema que promete
mastiga mete fora
sem demora
se devora
se derrete
Leopardo
Ele: o Leopardo não muda as suas pintas.
Ela: por que raio deveria o Leopardo mudar as putas das pintas?
Ele: lá estás tu a meter a Poesia em tudo.
Ela: por que raio deveria o Leopardo mudar as putas das pintas?
Ele: lá estás tu a meter a Poesia em tudo.
mania de cão
![]() |
| Illustrations by Roberto Paez for Don Quixote (Buenos Aires, 1969) Title: Don Quixote |
mania de cão
esfregar o nariz esquimó
na tua cola
confundida
entre princípio e fim
(cabeça e cauda)
da reciprocidade
não vi os sinais
de trânsito proibido
obras em curso
lomba ou depressão
descida perigosa
para homens de pouca fé
abalroou-me essa teimosia
ou realismo mágico de vice versa
mesmo com bermas baixas
há-de haver sempre
uma passagem
uma pista obrigatória
para peões
não para mim
mania de cão
com pulgas ainda por cima
a marcar o sonho como território
sem bravura sem bravecto
à revelia dos vertebrados
salvé alegria
ensalivada até ao osso
mania de cão
o trânsito interrompido
o nariz segue
do sangue o rasto
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