quarta-feira, 11 de julho de 2018

o funcionário matrimonial



chego sempre uns minutos
antes do tempo
quase raia o obsessivo
atrapalha o serviço
é mais forte que eu
o período da manhã
o mais calmo
o expediente bastante leve
os ânimos  serenados
denunciam apenas
uma ramela ou outra
febre dos fenos
tudo dentro da normalidade
deito uma espreitadela
à janela pelo rabo do olho
fraca agitação
mal me dou conta
chega o almoço convívio
o pão nosso de cada
mentira


a seguir à refeição
vem-me a traçã costumeira
passo pelas brasas discretamente
nunca fiando completamente
na modorra
benigna dos intervalos
afiambro-me à lancheira
se faz trovões é lá fora
que se dane o dia
se o bulício da cidade
interrompe a rotina
defensiva do quotidiano
que se lixe a taça
nada que não se resolva
com um breve despacho
ordinário sulfuroso
está feita a jorna
espeto uma última peta
o amor é labuta

à noite o leito é morno
em lençóis oficiais
separados

espero quinze dias de férias
merecidamente gozados
com uma ou outra corista
abençoado emprego
um lavor pra toda a vida



Poema Chiclete



mastiga a metáfora mastiga
mastiga 
a chiclete
de um poema que promete
mastiga mete fora
sem demora
se devora
se derrete

Leopardo

Ele: o Leopardo não muda as suas pintas.
Ela: por que raio deveria o Leopardo mudar as putas das pintas?
Ele: lá estás tu a meter a Poesia em tudo.

mania de cão

Illustrations by Roberto Paez for Don Quixote (Buenos Aires, 1969)
Title: Don Quixote



mania de cão
esfregar o nariz esquimó
na tua cola
confundida
entre princípio e fim
(cabeça e cauda)
da reciprocidade
não vi os sinais
de trânsito proibido
obras em curso
lomba ou depressão
descida perigosa
para homens de pouca fé
abalroou-me essa teimosia
ou realismo mágico de vice versa
mesmo com bermas baixas
há-de haver sempre
uma passagem
uma pista obrigatória
para peões
não para mim
mania de cão
com pulgas ainda por cima
a marcar o sonho como território
sem bravura sem bravecto
à revelia dos vertebrados
salvé alegria
ensalivada até ao osso
mania de cão
o trânsito interrompido
o nariz segue
do sangue o rasto


intervalo



penso
apenas existo
no intervalo
dos teus dias

terça-feira, 10 de julho de 2018

hipocrisia e marmelada

Imagem do deserto do Sahara, Argélia




nada me move
contra a hipocrisia
(essa marmelada
ligeiramente ácida
de fácil digestão)
de segunda a sábado
mas aos domingos
até Deus descansou
da dissimulação
de ter criado um mundo
aparentemente vivo
e que mais não é
que uma bola gigante
a morrer
enjoadamente
num fogo
lento

sábado, 7 de julho de 2018

o primeiro mestre

Os olhos do gato, Moebius




quando o mestre
é manso
o monstro
mais que ensinamentos
dispara
uma sábia fixação
pelas entranhas dos animais
dádiva ou dúvida
doidice
como um contágio
um cancro que não pára
o vício do corte
menor que o desejo da sutura
tudo o que nos vem
é involuntário
da sua parte
absorvemos com avidez
são só entranhas de animais
ainda assim é tanto
quando o monstro
é mestre
o manso
é irrelevante
agradecer