sábado, 7 de julho de 2018

o primeiro mestre

Os olhos do gato, Moebius




quando o mestre
é manso
o monstro
mais que ensinamentos
dispara
uma sábia fixação
pelas entranhas dos animais
dádiva ou dúvida
doidice
como um contágio
um cancro que não pára
o vício do corte
menor que o desejo da sutura
tudo o que nos vem
é involuntário
da sua parte
absorvemos com avidez
são só entranhas de animais
ainda assim é tanto
quando o monstro
é mestre
o manso
é irrelevante
agradecer

o pequeno sírio e eu, ao longe uma bela paisagem de oliveiras




encontrava-me no telhado
como o pequeno sírio
só caracóis e curtumes
à ventania
eram viçosas as oliveiras
o sorriso do pequeno sírio
elevava a cena
a uma potencial mona lisa
ó que bela paisagem de oliveiras

desejo caridoso

Queria tanto que deixasses de ser infeliz... que morresses, portanto.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Recordação vaga da Canção de Lisboa do Jorge Palma




enfia a cabeça na areia
movediça a moça
a saia uma cambraia
explícita
escolhida pela abelha
rainha
fica tudo em família
debaixo de renda
da toalha de mesa
uma risota presa
por cima de um risotto
gourmet
les escargots
escorregam na garganta
como ginjas
tudo a armar ao pingarelho
lidando o flash
das fotografias
como se fora um touro
em pontas
acontece muito
fintar a queda
quando se xuta com o pé
que se tem mais à mão
ao romper da aurora
recebendo as primeiras
lambidelas de luz
torna-se ainda cedo para falar
de sentimentos

quinta-feira, 5 de julho de 2018

the silence of the lambs




não compro borrego
como-o amiúde
saboroso
à mesa da minha mãe
o cheiro a bedum
do sebo nos dedos
pica-me a consciência
como se de sangue sujo
se tratasse
vou-me assim corrompendo
no aconchego do bom
ambiente familiar
segundo a lei dos homens
seguindo a maioria
silenciosa
condenada
aparentemente feliz

Da Ciência à Literatura

Fui da Ciência à Literatura: os poetas fazem-me melhor que os médicos.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

o tempo é um fósforo que já se apagou

Comet C/2009 R1 McNaught
June 10 2010 UT 00h30m

Fotografia de Gerald Rhemann




uma fome que abafa todas as fomes

um dia que não se reproduz

a mesa ficou posta para os lugares vazios

duas travessas arrefecem na toalha florida

já não há metáforas

o sal entornou

tombou o copo de vinho da mercearia da esquina

a memória deslocalizada nas mãos para maior eficiência

um sol que foge do dia aflito

o refugiado da noite

o tempo é um fósforo que já se apagou

em frente o mar