quinta-feira, 5 de julho de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

o tempo é um fósforo que já se apagou

Comet C/2009 R1 McNaught
June 10 2010 UT 00h30m

Fotografia de Gerald Rhemann




uma fome que abafa todas as fomes

um dia que não se reproduz

a mesa ficou posta para os lugares vazios

duas travessas arrefecem na toalha florida

já não há metáforas

o sal entornou

tombou o copo de vinho da mercearia da esquina

a memória deslocalizada nas mãos para maior eficiência

um sol que foge do dia aflito

o refugiado da noite

o tempo é um fósforo que já se apagou

em frente o mar

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Processionária do Pinheiro




A processionária serve como
bom exemplo
da toxicidade
dos passivos.

Uma criatura  macia
sem iniciativa
encerra na marcha lenta
uma mensagem:
matar é existir.





quinta-feira, 21 de junho de 2018

o controlador aéreo

imagem de  Cocky Eek


no mar não há radares
leia-se 
o boletim meteorológico
a Bíblia do piloto
de nada vale
na descolagem

nada previne
a paralisação do piloto
quando na torre-farol 
o controlador aéreo
toma nas mãos 
as rédeas do céu
as manobras na pista
e nuvens ao seu ritmo
desembaraçando as linhas
de tráfego 
prevenindo colisões
conspirações à parte
não há radares

sempre que se invente
um excesso de aviões
o vínculo do piloto
é a interface cifrada
do coração aéreo
controlador férreo

porque no mar não há radares
e no céu não há simuladores
a salvação
se borregar
um dia será simplesmente
planar





 












terça-feira, 19 de junho de 2018

Cabrita




Descascar a febra
a dois belos carapaus
assados, ao almoço,
faz bem à linha
e desafia a motricidade
fina.

E no entanto, a Cotovia
o repasto temperando
convida ao suspiro
por onde se dissipa
a secreta cabidela
do Cabrita.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pós- parto


illustration by Dušan Polakovič


a manhã ondulava
o bebé dormia
e a explosão de hormonas
pós-parto
arrumara-me o cabelo
em cachos de caracóis

enquanto o corpo abria
e fechava
a sua grande boca
os cabelos convocavam
seu próprios festejos privados
enrolando-se em canudos
a vida migrando até à ponta
dos folículos
desaguando num delta de ilhas

as visitas arregalaram os olhos
imaginando-me de noite
em frente ao espelho
de secador e escova na mão
dando crédito ao dito de Goya
"ninguém se conhece"
fez ricochete a frase lida
nos rostos coriscantes
o bebé dormia imune
como um santo