quarta-feira, 4 de julho de 2018

o tempo é um fósforo que já se apagou

Comet C/2009 R1 McNaught
June 10 2010 UT 00h30m

Fotografia de Gerald Rhemann




uma fome que abafa todas as fomes

um dia que não se reproduz

a mesa ficou posta para os lugares vazios

duas travessas arrefecem na toalha florida

já não há metáforas

o sal entornou

tombou o copo de vinho da mercearia da esquina

a memória deslocalizada nas mãos para maior eficiência

um sol que foge do dia aflito

o refugiado da noite

o tempo é um fósforo que já se apagou

em frente o mar

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Processionária do Pinheiro




A processionária serve como
bom exemplo
da toxicidade
dos passivos.

Uma criatura  macia
sem iniciativa
encerra na marcha lenta
uma mensagem:
matar é existir.





quinta-feira, 21 de junho de 2018

o controlador aéreo

imagem de  Cocky Eek


no mar não há radares
leia-se 
o boletim meteorológico
a Bíblia do piloto
de nada vale
na descolagem

nada previne
a paralisação do piloto
quando na torre-farol 
o controlador aéreo
toma nas mãos 
as rédeas do céu
as manobras na pista
e nuvens ao seu ritmo
desembaraçando as linhas
de tráfego 
prevenindo colisões
conspirações à parte
não há radares

sempre que se invente
um excesso de aviões
o vínculo do piloto
é a interface cifrada
do coração aéreo
controlador férreo

porque no mar não há radares
e no céu não há simuladores
a salvação
se borregar
um dia será simplesmente
planar





 












terça-feira, 19 de junho de 2018

Cabrita




Descascar a febra
a dois belos carapaus
assados, ao almoço,
faz bem à linha
e desafia a motricidade
fina.

E no entanto, a Cotovia
o repasto temperando
convida ao suspiro
por onde se dissipa
a secreta cabidela
do Cabrita.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pós- parto


illustration by Dušan Polakovič


a manhã ondulava
o bebé dormia
e a explosão de hormonas
pós-parto
arrumara-me o cabelo
em cachos de caracóis

enquanto o corpo abria
e fechava
a sua grande boca
os cabelos convocavam
seu próprios festejos privados
enrolando-se em canudos
a vida migrando até à ponta
dos folículos
desaguando num delta de ilhas

as visitas arregalaram os olhos
imaginando-me de noite
em frente ao espelho
de secador e escova na mão
dando crédito ao dito de Goya
"ninguém se conhece"
fez ricochete a frase lida
nos rostos coriscantes
o bebé dormia imune
como um santo

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CLASH








O filme começa com as imagens do interior de uma carrinha da Polícia vazia. E lêem-se as seguintes legendas:

2011: A Revolução Egípcia põe fim a uma presidência de 30 anos.

2012: O Recém-eleito Presidente é membro da Irmandade Muçulmana

2013: Milhares de manifestantes revoltam-se contra o novo Presidente nas maiores manifestações jamais vistas no Egipto.
Três dias depois é deposto pelos militares.
Nos dias seguintes, a Irmandade Muçulmana e os apoiantes dos militares confrontam-se por todo o país. Este é um desses dias.

Podíamos traduzir Clash por "O Confronto"

Tudo o que se vai ver durante quase duas horas é filmado de dentro desta carrinha da Polícia. As cenas que se passam no exterior, nas redondezas são nos dadas a ver através das janelinhas da viatura. Ainda assim o filme agarra-nos de uma maneira inacreditável. Vi duas vezes neste fim-de-semana. E marcou-me.

A história começa quando dois jornalistas (Adam e Zein) são presos e colocados na carrinha. Adam tem dupla nacionalidade americana e egípcia.

O ambiente nas ruas é de grande agitação e violência e os dois homens resolvem pedir ajuda a alguns manifestantes pois os guardas são chamados para longe, por momentos.

Eles gritam que estão presos por engano e pedem para fazer um telefonema. Uma mulher resolve parar para ajudar e o grupo segue-a.
Quando percebem que são jornalistas a coisa muda de figura. Todos os insultam aos gritos e atiram pedras contra a carrinha. Nisto chegam os guardas e nem sequer ouvem que os manifestantes estão do lado deles: prendem-nos pelos desacatos. Vai tudo dentro, para o pé dos jornalistas que tentavam agredir. A mulher, no entanto, consegue fugir.

Os presos são: O marido da mulher que parou para tentar ajudar e depois foge, o seu filho (cerca de 13 anos), dois velhotes, 3 jovens de cerca de 20 anos, dois deles são melhores amigos, e um homem que virá a descobrir-se que é um sem-abrigo.

A mulher, Nagwa, volta para trás e exige ser presa para ficar junto do filho. Os militares não querem prendê-la, mas ela não lhes dá muita margem de manobra e começa a atirar pedras à carrinha até que eles lhe fazem a vontade.

E dentro da carrinha começam todos a bater e a insultar os jornalistas pois acusam-nos de serem traidores e cobardes e de terem apoiado a Irmandade Muçulmana. Quando o Adam diz que é americano ainda é pior, e pelos mesmos motivos, dizem que os americanos deram cobertura à Irmandade Muçulmana. Uma balbúrdia! O engraçado é que Adam, às tantas é acusado de ser um radical por ter barba e ele responde: mas vocês também têm barba! De facto, um dos jovens e o sem-abrigo têm barba e talvez ao darem conta do ridículo lá se acalmam.

A carrinha avança então pelas ruas. Um dos jovens tira um telemóvel da meia e logo todos querem fazer uma chamada para pedir ajuda. Adam pede para ligar à embaixada americana e logo um dos mais velhos reclama que não pretende ser salvo pelos americanos. Nagwa, que, bem vistas as coisas, é quem lidera o grupo, dá luz verde para o jornalista ligar aos americanos, mas este acaba por confessar que estes só o iriam ajudar a ele e mais vale deixarem o outro jovem ligar ao seu tio que é General e que sendo assim pode livrar todo o grupo daquele imbróglio. Mas é um telefonema sem sucesso nenhum. Nisto a carrinha trava e o puto deixa cair o telemóvel que se parte. Já estava tudo a correr tão bem...

Entretanto para pior bem mais o dia o veículo dá de frente com uma manifestação violentíssima dos apoiantes da Irmandade Muçulmana e desse confronto juntam-se aos presos mais meia dúzia de pessoas, desta vez radicais a sério, e por isso inimigos dos primeiros. E então começa uma luta terrível. Murros, pontapés, sangue e tudo. Um confronto na carrinha, dentro do confronto no país Mais uma vez Nagwa salva a situação pedindo ajuda aos militares, que acalmam as hostes com uma mangueirada de água.

O jornalista protesta com o chefe dos guardas pela situação absurda de inimigos presos no mesmo espaço e acaba algemado a uma janela. Ninguém curte jornalistas, muito menos americanos.

Com o avançar da história vamos ficando a conhecer cada elemento de cada fação. Na Irmandade Muçulmana existe uma adolescente de 14 anos muito aguerrida que arrastou o pai velhote para a confusão, um gordo que viaja com um tacho na cabeça e é muito engraçado, uma série de homens fanáticos que não deixam de revelar aqui e ali a sua humanidade. Eles estão em polos opostos, mas em situações limite não deixam de se unir para tentar sobreviver. As condições da carrinha vão piorando à medida que o dia se torna mais quente. Sem água e sem instalações sanitárias eles passam um mau bocado, fazem turnos à janela para respirar. E há momentos comoventes. Apetece-me contar mais mas não o vou fazer. O melhor do filme está daqui em diante. Nagwa é a protagonista num filme em que não se espera protagonismos.

Li as críticas ao filme e achei-as absurdas. Dizem que os diálogos são parvos pois há momentos em que eles dizem piadas e falam de coisas supérfluas. Aquilo é gente que percebe muito cinema, mas da vida não sabe nada. Aquelas pessoas tinham pouca coisa à mão para sobreviver. Tinham uma garrafa de plástico para urinar e sentido de humor para descomprimir o medo da morte que estava à espreita. Numa das cenas mais duras do filme eles ouvem morrer os presos de uma carrinha que estaciona ao lado da deles e está superlotada e tem a porta fechada por ordens superiores. Há um militar que tenta abrir a porta para deixar entrar o ar e não consegue e quase é executado por um superior.
Falar de futebol, ouvir o gordo cantar uma canção ridícula e rir da situação desesperada em que se encontram é do mais humano que podiam fazer. 

Outra discordância: dizem os críticos que a posição do realizador é a mesma da dos jornalistas que se recusam a escolher um dos lados. Não, meus amigos, ao dar o protagonismo a Nagwa o realizador está a escolher um dos lados. Se fosse simpatizante da Irmandade Muçulmana jamais aquela mulher seria a mais corajosa, a mais inteligente, a mais digna de respeito, e a que soube protestar com os militares e com isso salvar a vida a todos os que estavam na carrinha. Por diversas vezes. O lado do realizador é claro. Ainda assim mostrou a face humana dos fanáticos. E mostrou também a faceta animal, sedenta de sague, da turba de apoiantes dos Militares. A guerra é sempre suja.

Duas horas dentro duma carrinha da Polícia e nunca o filme se torna chato. Os últimos 20 minutos são muito dramáticos. Ao grupo ainda se junta um dos militares que os estão a guardar desde início e que fica ferido e tem de se refugiar. Nagwa ainda percebe que ele é cristão e por isso corre duplo perigo e todos o tentam ajudar a esconder a sua identidade religiosa.

É uma história emocionante até ao último segundo e não vai acabar bem para todos. Quem se irá salvar?

Agora não conto: vejam.