quinta-feira, 12 de abril de 2018
hamurabi
hamurabi
o dente por dente
a língua pela língua
o olho por olho
a pele colando a pele
o lábio lambendo o lábio
rigoroso hamurabi
o dente por dente
a verdade a vir à tona
a saliva selando a saliva
o olho por olho
cego e doce hamurabi
o abel dente no dente caim
o sexo afogado no sexo
a desforra a consumar-se
o quente queimando o quente
o molhado chovendo no molhado
cândido hamurabi
o olho arreganhado no olho
o dente aberto no dente
a verdade emergindo do poço
a saliva enrolando a saliva
o sexo serrando o sexo
a vingança a estalar
grande justiceiro
hamurabi meu amor
quinta-feira, 5 de abril de 2018
Corvos tontos
![]() |
| Seara com Corvos, Vicent Van Gohg (versão Luciano Duarte) |
esses corvos tontos
de fraca bússola
perdidos nos vasos
tempestades no corpo
de pescoço partido
aos magotes
contra as paredes
do tórax
os tontos corvos
temperamentais
desorientados
de bússola estilhaçada
no chão do tronco
tontos
corvos em corso
chovem contra
a carne dilacerada
tentam escapar
acusam a fatalidade
do cárcere
toscos
tantos em volta
busca
desesperada pelo centro
magnético da terra
prisioneiros do corpo
tontos
quase mortos
os corvos
sábado, 31 de março de 2018
Mulher (i)movél
![]() |
| Profonde Pensée, de Camille Claudel |
Mulher (i)móvel
tábua rasa
pronta a usar
onde repousa
a mulher miniatura
sentadas duas
criaturas excêntricas
fora de esquadria
numa dupla aliança
esperam ordens
superiores do verdugo
que as manipula
Mulher aparador
onde circula conversa
de volta à partida
ponto por pequeno ponto
no nome
da mulher abreviatura
pousam nelas
metálicas avionetas
e o berlinde abafador
brinquedos do verdugo
que lhes há-de infligir
um iníquo silêncio
Mulher estatueta
o contrário da fotografia
na poltrona em frente
uma bacante em delírio
desafiadora
da mulher fotocópia
duas presas no cativeiro
de incapacidade
fruto do ventre
um tição
esse verdugo
que as irá despejar
despidas
na torrente
qual pluma ao vento
sábado, 24 de março de 2018
alerta carta
![]() |
| Encontro no Espaço, Edvard Munch |
quando te oferecer
uma carta
desconfia
fica alerta
estarei bêbada certamente
caída em vão de escada
possuída por algum
alienígena transviado
tu não és recebedor de banalidades
rodriguinhos delico-doces
merdas para abafar a melancolia
distrações
palavras mascadas
entre dentes
na boca de mil povos
extintos ou contemporâneos
as tagarelices e tretas do costume
mosto da solidão
fermentada
fruto do esforço
da marcha parada
de muitos pés
apenas te darei
um ou outro
poema de raiva
poema de vingança
bofetão metafórico
(aguenta aguenta)
ou alguma daquelas cambalhotas
monumentais
das que me arrancam
lágrimas de alegria profunda
e gargalhadas
palavras p'ra quê?
e tudo por dizer
segunda-feira, 19 de março de 2018
passageira
como o estrangeiro na terra de Faraó
não sou de cá
de passagem
venho
quarenta anos pelejando
contra os outros povos perdidos
sempre as mesmas ratoeiras de areia
no deserto
(duro é o calo que arranca
a nota à corda da guitarra)
como forasteira no colégio veterinário
saliente e excedentária
mais uma no conjunto de milhares
estrangeira em Trás-os-Montes
ceifada nas frágeis raízes
devolvida ao remetente
por morada desconhecida
como o penetra na terra do lisboeta
passageira
esperando o regresso de paquete
alienada
como o turista no mundo do poeta
caída de pára-quedas, em desgraça
peso quase morto
p'ra lá de pesado no mundo
das corridas do atleta
no final dessa meta
onde estivesse a terra prometida
apenas a certeza do engano
não houve milagre no mar
apenas morte
um acidente
que na família aterrou
fui sempre
de onde não sou
Velho Amigo
![]() | |||
| "O Grito do Joker" de Ben Chen, paródia do "Grito" de Munch |
Voltaste, meu velho amigo,
após um considerável interregno, por alguns momentos até consegui
esquecer-me de ti, confesso. Mas agora aqui estás, viçoso, forte e
possante como nos bons velhos tempos, é admirável como os anos por
ti não passam. Não posso dizer que tive saudades tuas, senti, porém,
a tua falta, e foi de alegria a sensação que essa ausência me
proporcionou. Tenho de ser sincera, pois tu tudo vês, tudo entendes,
de nada adianta mentir ou ocultar. Sou transparente aos teus olhos
mas também nada apresentas que eu não tenha memorizado ao pormenor.
Conheço as tuas manhas, os segredos, os tiques, os truques, as
hesitações, os contra golpes, os caprichos, os argumentos, as
razões, os desejos. Sei a tua sombra. Acompanhas-me desde outras
eras e aprendi a reconhecer-te apesar de chegares sempre com novas
caras, vestindo diversos corpos, outras roupagens. É a sombra, que
tudo invade, que te caracteriza. Uma sombra que sobe por nós a
cima e nos mina por dentro. Sei o teu poder. Nada sobra que me possas
esconder.
Regressas então, uma vez
mais, para reinar sobre mim. Demasiadas vezes dei luta, uma vã
resistência que me deixou exausta. Não vou cair nos mesmos erros.
Vou evitar as estratégias que, tendo sido já experimentadas, se
demonstraram infrutíferas, prejudiciais até. Espernear não posso.
Terás de mim total aceitação, conivência, resignação. Não te
darei as boas vindas, mentir não posso, tudo sabes, tudo vês. Não
me alegrarei na tua volta. Serenamente te abraçarei, meu amigo,
velho companheiro de outros dias, outras épocas. Conta-me histórias
antigas, parceiro. Dá-me boas novas doutros países. Meu camarada, o
Silêncio.
quinta-feira, 15 de março de 2018
Amor no Forno
![]() |
| Ilustração de Vanessa Diniz |
Hoje o jantar é Amor
assado no forno
em sangue
mal passado
portanto
com batatinhas
a murro
vai em cama
suave de verduras
aconselha-se o corte
de fatia fina
evitando assim
o enjoo
e o delírio
cai melhor em toalha
de velho linho
com guardanapos
a condizer
é self service
pois estamos
com uma baixa
no pessoal de servir
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