segunda-feira, 19 de março de 2018
passageira
como o estrangeiro na terra de Faraó
não sou de cá
de passagem
venho
quarenta anos pelejando
contra os outros povos perdidos
sempre as mesmas ratoeiras de areia
no deserto
(duro é o calo que arranca
a nota à corda da guitarra)
como forasteira no colégio veterinário
saliente e excedentária
mais uma no conjunto de milhares
estrangeira em Trás-os-Montes
ceifada nas frágeis raízes
devolvida ao remetente
por morada desconhecida
como o penetra na terra do lisboeta
passageira
esperando o regresso de paquete
alienada
como o turista no mundo do poeta
caída de pára-quedas, em desgraça
peso quase morto
p'ra lá de pesado no mundo
das corridas do atleta
no final dessa meta
onde estivesse a terra prometida
apenas a certeza do engano
não houve milagre no mar
apenas morte
um acidente
que na família aterrou
fui sempre
de onde não sou
Velho Amigo
![]() | |||
| "O Grito do Joker" de Ben Chen, paródia do "Grito" de Munch |
Voltaste, meu velho amigo,
após um considerável interregno, por alguns momentos até consegui
esquecer-me de ti, confesso. Mas agora aqui estás, viçoso, forte e
possante como nos bons velhos tempos, é admirável como os anos por
ti não passam. Não posso dizer que tive saudades tuas, senti, porém,
a tua falta, e foi de alegria a sensação que essa ausência me
proporcionou. Tenho de ser sincera, pois tu tudo vês, tudo entendes,
de nada adianta mentir ou ocultar. Sou transparente aos teus olhos
mas também nada apresentas que eu não tenha memorizado ao pormenor.
Conheço as tuas manhas, os segredos, os tiques, os truques, as
hesitações, os contra golpes, os caprichos, os argumentos, as
razões, os desejos. Sei a tua sombra. Acompanhas-me desde outras
eras e aprendi a reconhecer-te apesar de chegares sempre com novas
caras, vestindo diversos corpos, outras roupagens. É a sombra, que
tudo invade, que te caracteriza. Uma sombra que sobe por nós a
cima e nos mina por dentro. Sei o teu poder. Nada sobra que me possas
esconder.
Regressas então, uma vez
mais, para reinar sobre mim. Demasiadas vezes dei luta, uma vã
resistência que me deixou exausta. Não vou cair nos mesmos erros.
Vou evitar as estratégias que, tendo sido já experimentadas, se
demonstraram infrutíferas, prejudiciais até. Espernear não posso.
Terás de mim total aceitação, conivência, resignação. Não te
darei as boas vindas, mentir não posso, tudo sabes, tudo vês. Não
me alegrarei na tua volta. Serenamente te abraçarei, meu amigo,
velho companheiro de outros dias, outras épocas. Conta-me histórias
antigas, parceiro. Dá-me boas novas doutros países. Meu camarada, o
Silêncio.
quinta-feira, 15 de março de 2018
Amor no Forno
![]() |
| Ilustração de Vanessa Diniz |
Hoje o jantar é Amor
assado no forno
em sangue
mal passado
portanto
com batatinhas
a murro
vai em cama
suave de verduras
aconselha-se o corte
de fatia fina
evitando assim
o enjoo
e o delírio
cai melhor em toalha
de velho linho
com guardanapos
a condizer
é self service
pois estamos
com uma baixa
no pessoal de servir
quarta-feira, 14 de março de 2018
bichinho bom
beagle caçador
bichinho bom
e bestial
seda de caniche
sede de Chow Chow
comestível
ao semi natural
cão de parar
perdigueiro
galgo galopante
fugindo
lulu da pomerânia
ladrando em dialecto
fiducial
labrador recolector
deixando a meus pés
oferendas do Alasca
o malamute
dálmata de pouca pinta
daltónico para variações
de maus humores
pastor boiadeiro
perigoso pitbull
disfarçado de persa
miniatura de farsa
pincher pruriginoso
cuidado ao pisar
toy para os amigos
rottweiler de matar
Coletânea de ridículos
Medo de morrer não sei se tenho, não me aflige muito, pelo menos. Mas há uma coisa que me atormenta: dizem que no momento final passam imagens da nossa vida como um pequeno filme, um vídeo dos melhores momentos, parece. Ora com a sorte que eu tenho, e se a coletânea de imagens minhas for a dos momentos de ridículo? Como uma espécie de anti colecção de beijos do Cinema Paraíso: todos os momentos de humilhação que passei na vida. Seria épico mas em mau.
homens florescentes
Os homens florescentes da Câmara Municipal, debaixo de densa chuva, vêm recolher o cadáver inútil de um pobre pinheiro bravo.
As amigas, rasteiras, ralham e rabujam, nervosas que estão, contra a ventania assassina e mouca.
Parecem minadas de cansaço ou caruncho, talvez até de ambos, mas a revolta fala mais alto que as raquíticas copas.
Sentem-se fustigadas pelos elementos e tentam em vão ripostar com protestos de ramos e raízes. Não baixarão os braços.
Os homens de plástico, florescentes, da Câmara Municipal munidos de moto-serras eliminam agora as sobreviventes.
Agitam-se as trombas de água, os ares e as árvores rasteiras.
Não foi sem uma pequeníssima luta que se deixaram vencer pelas moto-serras municipais. Nem tão pouco sem sede de vingança.
terça-feira, 13 de março de 2018
Lady Girl
![]() |
| Mulher sentada, em roupa interior, por Egon Schiele |
Tomas-me (suavemente)
a ponta dos dedos
(entretanto dirigidos ao chão)
como auxílio ao impulso
das pernas
uma antes da outra
na saída do armário
rumo à claridade do dia
A luz solar
salpica os beijos
uma segunda língua
saltitando como uma aia
confidente e fiel
que se alegra
a nosso favor
Em breve
ao entrar a noite súbita
regressarei ao fundo
seco e secreto do móvel
despida de glamour
pelo meu próprio pé
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