segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Esfregona versus caneta

Carmen e Frankie


A esfregona rouba-me a caneta.
Por vezes a caneta rouba-me a esfregona.
Ficaria mais feliz, neste caso,
não fora o cheiro a xixi.

domingo, 7 de janeiro de 2018

CONSTRUÇÃO, UM POEMA DE CHICO BUARQUE








Estava eu, outro dia, a ler um livro do Ricardo Araújo Pereira quando me deparo, a abrir um capítulo, com o poema do Chico Buarque de Hollanda “Construção”.

Começo por fazer um curto parênteses para declarar que não aderi à moda de dizer mal do RAP. Não porque tenha alguma coisa contra a Moda em geral, até costumo seguir as suas tendências, mas há de facto modas que não fazem o meu género. Lembram-se daquelas botas de cano alto muito bicudas, mais conhecidas como botas-de-matar-baratas-ao-canto-da-sala? Pois eu sempre as achei abomináveis e não adquiri nenhum par. A ponta das minhas botas quer-se redonda, ou na pior das hipóteses quadrada, vá. Bicuda: nunca.
Isto para dizer que sou admiradora do rapaz. Vou discordar com ele num ponto mas é um acaso, uma excepção.
Então inicia ele com o poema “Construção” um capítulo que tem por título. “Mudar uma Coisa para outro Sítio”
E pensei eu, mas que raio está um poema destes a fazer num livro sobre o Humor?
Eu até percebo, diga-se de passagem, porque se fosse eu a escrever um livro, fosse sobre que tema fosse, futebol, ovos mexidos, bacará, etc, eu tentaria encontrar um pretexto para enfiar lá o dito poema. Porque este é um dos poemas da minha vida.
Quando eu era pequena o meu pai tinha lá em casa um álbum do Chico Buarque chamado “Construção” e como podem ver nas fotos, na contra-capa do disco vem o poema com o mesmo nome.
Ora isto foi num tempo em que eu não tinha acesso a livros de poesia, começava a ler na escola alguns poemas que vinham no manual da disciplina de Português. Mas este poema estava ali à mão de semear e pronto para ser cantado, que era uma coisa que gostava muito de fazer. Então devo ter lido a “Construção” dezenas de vezes, para não dizer centenas. Obviamente decorei o mesmo. E a páginas tantas comecei a pensar sobre o que queria dizer aquilo.
Ao fim de muitos anos fui capaz de avançar com uma explicação para a composição poética do Chico.
“Construção” é um poema sobre a construção dos poemas, é um meta-poema. O poema é, aqui, como uma casa.
Senão vejamos:

Na primeira estrofe os versos são escritos com uma linguagem quase comum:

“Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego"


É como se o autor vertesse em verso uma notícia de jornal: Morreu no Sábado passado, um operário da construção civil que estava a trabalhar no cimo de um prédio quando caiu do mesmo. Deixou mulher e filhos.
Portanto ao transformar a notícia em versos consegue-se um poema no seu estado bruto. Como uma casa que tem, no seu início, os alicerces, as vigas de cimento envolvendo o ferro no interior, o que irá dar suporte à construção, ou seja, ao poema. Podia ficar assim? Podia, há muitos poemas deste estilo, nus, despidos de adornos, secos, mostrando apenas a sua força mais interior. Quando se olha para uma casa nesta fase já se percebe que aquilo é uma casa.

Segunda estrofe:
"Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com o seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e solução como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público"

Aqui a linguagem já não é comum, afasta-se do que viria numa notícia de jornal, as palavras associam-se de forma mais inusitada. O que acontece é que começamos a dar conta que aquele homem quando saiu de casa já vinha transtornado, notamos agora o seu sofrimento, entramos no seu mundo interior e percebemos o seu drama. É a casa-poema ganhando paredes, tijolo a tijolo, que são as palavras a serem colocadas no sítio certo.
Se olharmos, agora, a casa já é mesmo uma casa, com paredes e tecto e tudo o que uma casa precisa.

Mas, o Chico dá-nos ainda uma última liçãozinha de poesia:

Um poema pode ser ainda melhor se a linguagem for mais invulgar, associação de palavras for ainda mais surpreendente. Então:


“Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o Sábado”

Agora eu consigo ver o desespero do homem com outra nitidez, como se o pudesse entender, como se pudesse ler-lhe os pensamentos e sentir a sua dor.
Isto é a casa a ser rebocada, a sofrer todos os acabamentos finais, a ficar perfeita e pronta a ser habitada. É o poema a conseguir a sua força máxima.

E por tudo isto “Construção”, ao contrário do que o RAP afirma, não é um poema onde simplesmente umas palavras mudam de lugar. É muito mais que isso.

“Construção”: uma lição de poesia.
Toma, RAP. De nada, pá.

Nota: o livro em questão chama-se “A Doença, O Sofrimento E A Morte Entram Num Bar” ( Uma Espécie de Manual de Escrita Humorística) e é muito bom, recomendo vivamente a sua leitura.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Poema Penso-rápido




Seja por divertimento
por sorte ou condenação
dói de igual modo
o pacto de sangue
esse vinho tonto
derramando o drama
nos indicadores colados

das duas criancinhas delambidas
e mordiscadoras
dói como carne
interrompida
urge o curativo sério
no imediato, no entanto,
cada um vai sacar do seu bolso
um poema penso-rápido
estacando o sonho
na cabeça do dedo
latejante,
um dói-dói
no fim da linha
do seu verso
adiando a sutura definitiva
que virá, talvez, depois
por sorte
por divertimento
por ironia
ou convicção contracorrente

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Farol



Farol da Marca da Mama, Carnaxide


uma centelha intermitente
numa volta completa
em torno do maior eixo
um flash de sinais codificados
em amplitude modulada

o farol guia
guina-me o flanco
contra as rochas
dão à costa
as minhas pernas
ele entre elas
num silêncio
ondulante

faça-se uma ilha de luz
cercada de trevas
por todos os lados
ou tudo me faltará
o ar a água o faro
no calaboiço uma craca
a crescer por dentro
numa interrogação
proibida

um Farol é uma passagem
para a mesma margem

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Kombucha




Uma bruxa
é uma ferida aberta.
Há dias em que um excesso de metáforas
põe o dedo na ferida aberta:
um empurrão
para a fogueira a arder.

Uma bruxa
é uma espécie invasora
convidada a entrar na casa
em estado livre
e breve se agarra
ao tecto como um bolor
que alastra cálido.

Uma bruxa
pode até ser uma kombucha
retrai-se se tocada sem cautela
não sendo propriamente um animal
nas feridas abertas
é tal e qual.

Uma bruxa
é um veneno involuntário
que ninguém deseja beber ou cheirar,
inquina tudo à volta
e só um perímetro de segurança
de vários quilómetros
ou um excesso de metáforas
nos poderá salvar.

Uma bruxa
é carne para canhão
sempre que é preciso atear o lume
quando há visitas e festas
porque há quem jure serem
as feridas abertas o melhor carvão
a condimentar a carne
que assa.


Uma bruxa
é uma despedida anunciada,
uma morte crónica pressentida
ao virar da esquina
talvez por alergia
porque até há quem afirme
que um excesso de metáforas
também não passa
de um bolor cálido, afinal.


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

de tempos a tempos

The Walk, filme de 2015


recordo agora o nome
de uma rua
que repousava num tempo
em final de época
quando para surpresa de todos
o que era conhecido
se tornou estrangeiro
e o que era estranho
se encontrou familiar
o que era próximo
se tornou longínquo
e o que estava afastado
se tornou íntimo
o que se sentia chegado
se voltou misterioso
e o que se imaginava
quase alienígena
virou gémeo
nesse revoltoso tempo
o que era angular
ficou redondo
o antes trocou de lugar
com o depois
o primeiro com o segundo
o último com o seu antecessor
uma reviravolta matemática
de maré em quebra ciclo
uma bolha que rebenta
e não rebenta
um suster de respiração
uma batida falhada
pausa suspensa e presa
uma gotícula de um milagre


lembrei-me também da mão
que fecha o dique
a mesma travando a boca
já doca seca
não vem de cima
nem de baixo
nem do meio
mas da profunda natureza
de todas as coisas
em precário equilíbrio
e ameaça com um final
de tempos que antecedem
outros de recomeço

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Farpa do lar



em casa
sento-me no sofá
observando os passos
que daria fazendo a lida
se fosse a fada deste lar
olho as tralhas pelo chão
como quem fuma um cigarro
e o fumaria displicente
se fumasse
antes levo à boca uma farpa
que é a lembrança da tua língua
na minha língua castigando-me
por ser uma imagem sem corpo
sem um copo de água
para matar esta sede
vejo-me então brincando
aos pais e às mães
às voltas com os trabalhos
domésticos aspirando
o pó para de baixo do tapete
do rato do computador
onde faço a cama aos sonhos
cozinhando uma sopa de letras
onde estendo o puzzle das meias
verdades a cozer ao sol
limpo o forno de lenha
onde a tua ausência assa
esse pão nosso sem noz
manteiga ou ilusão
e se querem mesmo saber
senhores
o certo é que se acabou
o sal
e o meu papel higiénico