quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
Rapsódia
o poeta vive na rapsódia
e no baixo cima baixo cima
baixo da guitarra
vim encontrar
a palavra incêndio
mas não um incêndio vulgar
dos que queimam e deixam
tudo negro à saída
um incêndio que larga
pontos de luz depois
das chamas
e não gasta o ar respirável
antes o reproduz
e de tantos poetas que há
uns tombados pelo tempo
outros pelo chão voluntários
em cinzas boiando
escolhe-se de meia dúzia
que vive numa melodia
imprópria
para consumo privado
o único que haverá
de nos fazer atravessar
a cidade
de uma ponta à outra
por um compasso
de espera e esperança
até deixar de nos doer
os pés e a alegria
de um hino
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Aniversário
Um adeus é um espelho estilhaçado
no chão
migalhas de uma enorme recusa
que se reproduziu
por geração espontânea
entrou a pés juntos
e foi expelida pelo organismo
como uma maré baixa
mil pontos negros
a descoberto
O último pedaço entra na pá
por intermédio
da prestimosa vassoura
a contragosto pensa
o que faço aqui
depois do adeus
e dos trezentos
e quarenta e cinco
bocados de ruína
já enterrados no lixo
agora que tudo se perdeu
Uma sobra temerária
encontrada meses depois
debaixo de um móvel
esquecida
um pedaço de um adeus
um negativo por revelar
destroço de uma memória
futura
esquecida na máquina
de viagens no tempo
avariada
O último grão de areia
na grande engrenagem
o derradeiro eco
da sequência maldita
a punir o ouvido derrotado
um pequeno nada
do qual nenhuma vida
foi feita
embora hoje seja dia
de aniversário
e por isso apenas
e como resquício de um adeus
obsoleto
os meus Parabéns
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
Matimar
Lembro-me
como se tivesse
alguma vez assistido
ao dia-a-dia no grande armazém
de revenda
os soutiens de copas
extra generosas
as cintas xxl
das mulheres roliças
à antiga portuguesa
as larachas entre colegas
as toneladas de tecido
o contar dos tostões no final do mês
dia de salário
Lembro-me com a memória possível
a quem ouviu os relatos
vezes sem conta
e visitou verdadeiramente
o escritório principal
uma única vez
uma fotografia fosca
de uma cabeleira
preta e espessa
e a certeza da amabilidade
sem mácula
nos lábios
Um homem singular
chamado Joaquim Matias
quando me levaste
a conhecer o teu ex-patrão
e patrono
Sr. Matias
um homem bom
que não foi recompensado
em vida
porque se compensações
houvesse
não existiriam homens bons
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Impostos
o sangue pensa
a pele pede
a boca pesa
só mais um sopro
um tumulto
a mente mói
e manda
o corpo cobra
e cai
na roda da vida
avança
pondo a nu
em cada transação
o seu vascular
valor acrescentado
assim a natureza
colhe alegre
e distribui
os seus dividendos
a providência
alvoraçada
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
urgência
A meio do dia a urgência
um sinal
a luz que precede a ânsia
a queda
de véspera a urgência
de viver o dia a meio
o sangue a confluir
a ir ao fundo no dia
no meio a urgência de vir
e permanecer na vida
um momento na curva
a mão a embalar o sangue
o mundo a virar girando
na urgência de cair
a meio do momento tácito
na teia a confluir
ao segundo o sangue
para a urgência
de ouvir cair o mundo
a luz
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
Bypass
Toda a salvação é efémera
Por vezes
ao fim da noite
faço um desvio
uma ponte
sobre a artéria principal
para que o sangue contorne
a rotunda adormecida
a volte a fluir pelo torax
aberto
sabendo de antemão
que toda a salvação
é efémera
procedo à operação
como quem procura
o equilibrio da respiração
sincronizada ao segundo
Ainda que a dor se esbata
irradia pelo corpo
uma aurora que vai durar
apenas até ao nascer do dia
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
A fusão do hélio
Lembro-me de olhar pela janela
absorvendo as imagens da fusão do hélio
o ferro das entranhas da casa
era uma espada enterrada de ausência
assim era a vontade alucinada
do homem-eucalipto
os alicerces cresceram trémulos
pilares que lançavam de tempos
a tempos um tentáculo de alegria
um encontro
recolhia breve
um polvo hesitante
como um lampejo de farol
em rotação regular e escassa
pingando na memória
Parco é o alimento
capaz de saciar a imensa fome
migalhas que chegavam de anos luz
de distância
das fontes do hélio em fusão
e eu via essas longas viagens
na casa soterrada
por uma avalanche de palavras
entrelaçadas na sua própria decifração
salvando-se apenas um par de mãos
numa prece a desejar testemunho
uma pequena morte
As casas de homens-eucaliptos
crescem à mingua de água
e dão aos jardins raquíticos arbustos
até ao dia em que a enxurrada tudo varre
e tudo volta a crescer como manda o hélio
pela porta há-de entrar um aríete
de febre incandescente quebrando
a estrutura matematicamente rigorosa
da seca severa
por momentos o encontro
um polvo hesitante
entrelaçado nos alicerces da casa
em rotação regular e breve
enquanto eu olho pela janela
absorvendo as viagens de anos luz
até às fontes da fusão do hélio
a minha pequena morte
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