sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Poema Perverso


Reclining female nude by Egon Schiele


Por vezes, por verso,
de assalto,
temos o avesso
do que está escrito.
Não temo a dulpa
estocada artística
de duas cabeças
condecoradas
ao leme,
à vez
singular
num barco
de alto aprumo.
Amar
é uma soma
de correntes
contramão
multiplicadas
num fio inconcreto,
linhas que se cruzam
desalgemadas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Bagagem

Beetle car, Brienna Pruce



seguindo
sem hora
estrada a fora
o risco
sob o pneu
as entranhas
do poema
peixe por dentro
aberto
marca pacho
em ferida
pulsação
na curva da voz
peso pesado quase
a fazer voar
as oscilações
do volante
lavo versos
clandestinos
ocultos em maços
dos pacotes
da bagagem
silêncio sôfrego
montanhoso
que me protege
da condenação
pelo colectivo
de meretrizes







terça-feira, 31 de outubro de 2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

JÚLIA POSSUI UMA ARMA




está enganada
a hora é certa
preces são
mundanas ameaças
vãs
quando as ausências
involuntárias
são catástrofes naturais
por decifrar
observações patológicas
destreinam a vista
para os melanomas undercover
e seres do outro mundo
longe de casa
saudosos
que só pretendem dizer olá
alguém vai ter de pagar
a corda parte
o tiro corre
mas a culpada
não estará em casa

sábado, 7 de outubro de 2017

memória futura








o tempo plantou-se à espreita nas palavras

e esperou que viesses

a língua depositou caligrafias na pele

decalque

para a memória futura do teu corpo

surpresa

na maré viva

do meu ventre







segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Pessoas do passado, pessoas do futuro

Há dois tipos de pessoas, as do passado e as do futuro.
As pessoas do futuro são as que se transportam diariamente para o dia seguinte. Quando lá chegamos encontramo-las à nossa espera. Antecipam-se ao pensamento e, assim, por lá continuam a habitar.
As do passado não avançam. Fixam-se no dia em que as deixamos de ver. Para que as encontremos temos de nos lembrar delas. Ora, como bem sabemos, recordar é contra as forças da natureza, dá trabalho. Por vezes incomoda.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Fogo




O elemento
da protecção civil
deu o fogo
como controlado
mas não extinto.

Aquiesci,
dei o peito
às cinzas
e ardi
silenciosamente.