segunda-feira, 22 de maio de 2017

O mundo é nosso



O mundo, farto de paz,
começou com uma explosão
e fez-se implacável.

O Sol fez-se
para arder e devorar.

O predador fez-se para cobrar
as presas
com a força de entrar na carne
e quebrar os ossos.

Tu obedeces à lei do mundo
cumprindo essa prisão
libertadora,
a biológica missão
que carregas
no ventre.

Não será por tua vontade
que se dissolverá
a vantagem do mais
forte.

Ah, a ilusão doce
de que o mundo é nosso.

chuvinha da boa

chove a tua língua
na fonte
da minha sede
trava fome
seminal
até ao dilúvio
terminal

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Palavra Voadora Não Identificada




O ventre estacionado no convés
e eu montada na tua sela
ou tu na minha,
confundidos os cavalos que éramos nós.

A palavra luminosa,
um néon pendendo ao alto.

A minha mão tateando os teus rochedos,
o pensamento preso na decifração da imagem.

A palavra fintando-me a leitura

e eu subindo a colina do teu peito.
Procuro uma resposta no livro
que mostravas nos olhos mas
só lá está agora o branco.

A palavra sinuosa
submergindo na pele.

No centro do leito dois corpos
vão rasgar um mar ao meio
num minúsculo milagre precário
e logo serão subtraídos
ao silêncio,
espuma das sobras
na voragem da maré.

Da palavra nem sombras.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

temp

O Abraço, Egon Schiele, 1917


no acto bendito
e dilatado da visita
encontro
corpo adentro
o outro
no átrio o recebo
com carinho
dirigido que foi
com a mão
ao caminho
da porta trampolim
ele entra
e entra
e entra
entra ainda
e se repete
marinheiro repescado
prendendo-me na surpresa
do passadiço
de cordas içadas
perdendo-se em mim
vai o mar encapelado
temporal mais que perfeito
desagua náufrago
no fim do mareio
vem a nós  um mar
domado na ponta
eterna
do lingote dourado

segunda-feira, 24 de abril de 2017

coração cordeiro

Wool heart from Sarah Illenberger



no fim dessa roda viva
de holocaustos
para aplacar o teu medo
o meu coração cordeiro
cansado da ressuscitação
deixa-se ficar

sábado, 15 de abril de 2017

A morte tem a minha cara

Salvador Dalí, Ballerina in a Death’s Head, 1932




a morte tem a minha cara

na geometria incendiada
das mãos
atravesso a rua
desconhecido sorriso
famoso mil
vezes monalisa
para o outro lado
do espelho
onde os ossos
meros traços confluem
no logradouro da despedida
os veios rubros servem
de amparo comprometido
desculpa à libertação
da cauda pendente
(de cadáveres ondulantes)
rasante do vestido
no chão