quarta-feira, 3 de maio de 2017
quarta-feira, 26 de abril de 2017
temp
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| O Abraço, Egon Schiele, 1917 |
no acto bendito
e dilatado da visita
encontro
corpo adentro
o outro
no átrio o recebo
com carinho
dirigido que foi
com a mão
ao caminho
da porta trampolim
ele entra
e entra
e entra
entra ainda
e se repete
marinheiro repescado
prendendo-me na surpresa
do passadiço
de cordas içadas
perdendo-se em mim
vai o mar encapelado
temporal mais que perfeito
desagua náufrago
no fim do mareio
vem a nós um mar
domado na ponta
eterna
do lingote dourado
segunda-feira, 24 de abril de 2017
coração cordeiro
sábado, 15 de abril de 2017
A morte tem a minha cara
| Salvador Dalí, Ballerina in a Death’s Head, 1932 |
a morte tem a minha cara
na geometria incendiada
das mãos
atravesso a rua
desconhecido sorriso
famoso mil
vezes monalisa
para o outro lado
do espelho
onde os ossos
meros traços confluem
no logradouro da despedida
os veios rubros servem
de amparo comprometido
desculpa à libertação
da cauda pendente
(de cadáveres ondulantes)
rasante do vestido
no chão
terça-feira, 21 de março de 2017
Mistério diário
O dia é sempre o mesmo,
recomeça pela manhã,
mistério ao rubro.
De muito olhar
pela janela,
o homem
desamparado,
vai morrer
por
falta de asas.
Ainda hoje
e sempre.
quinta-feira, 16 de março de 2017
domingo, 12 de março de 2017
os russos
Devo a minha vida aos russos.
Não falo do povo da Rússia, nada contra, mas sim dos bolos, aqueles
deliciosos folhados com recheio branco no meio, quase chantili, muito
melhor que esse creme. Ainda parece que estou a saboreá-los agora, a
sentir essa espessura por todos os dentes e com todo o poder de
língua como por altura dos meus sete anos quando a minha mãe
chegava da baixa e me trazia, da pastelaria Suíça, uma caixa branca
fechada a cordelinho com meia dúzia deles.
Eu era, na época, uma
criancinha enfezada de muito pouco apetite, quase sempre afectada por
amigdalites recalcitrantes. Era um castigo para comer, para mim e
para a minha família. Levava horas à mesa enrolando a comida nas
bochechas, mastigando a custo, cuspindo sempre que podia e de cada
vez que ninguém via. Levava até umas belas palmadas da minha avó
que era dada a enervações repentinas durante as dilatadas horas das
refeições de fastio.
Teria sido uma infância feliz não fosse este
martírio da alimentação.
A vida mudava perante a caixinha
dos bolos. Mal eu pressentia a minha mãe chegar dessas paragens
gastronomicamente paradisíacas corria para a receber, ou melhor,
para usufruir da minha iguaria preferida. Não, minto, não se
tratava de primazia, na verdade, para além desses doces, não havia
mais nada que me soubesse bem ou ingerisse com satisfação. Os
russos ou o jejum, sem compromisso.
Foi assim que um dia, ao abrir a
caixa e olhar para as ditas guloseimas recusando-as, a minha mãe
correu comigo ao hospital onde me salvaram de morrer sufocada. As
amígdalas estavam transformadas em duas bolas gigantes de pus
branco. E, não fora a caixa dos bolitos, ninguém adivinharia os
monstruosos abcessos. Benditos, os russos.
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