sábado, 17 de setembro de 2016
a vidente infeliz
Desde tenra idade que tenho fortes pressentimentos. Premonições e certezas saltam-me do peito, quase acompanhando a regularidade da respiração. Presságios invadem-me os sonhos e acordam-me a meio da noite, em urgência. Infelizmente, estão sempre errados. Nunca nenhum se veio a concretizar.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
quando a máquina de enxotar pássaros...
quando a máquina de enxotar pássaros avaria... passamos a noite a ouvir "tiros". Como um relógio que marca a hora de quarenta em quarenta segundos...
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
Cornupópia
Mais uma viagem (Lisboa- Beira Baixa), mais uma compilação, outra uma sessão de corte e colagem. Continua a ser malta portuguesa a cantar e assim sendo é só amor e melancolia aos molhos, um dó.
O título (Cornupópia) foi inventado e gentilmente cedido pelo Nuno Miguel Lopes.
1-VideoMaria, GNR
2- 40º à Sombra, Radar Kadafi
3- Se Te Amo, Quinta do Bill
4- Maria Albertina, António Variações (versão Humanos)
5- Com um brilhozinho nos olhos, Sérgio Godinho
6- Isto Anda Tudo Ligado, Sérgio Godinho (versão do CD Irmão do Meio)
7- Zap Canal, Três Tristes Tigres
8- Namoro, Fausto (versão Teresa Salgueiro)
9- Atrás dos Tempos (versão Né Ladeiras com Jorge Palma)
10- Problema de Expressão, Clã
11- Bem Bom, Doce (versão Rui Reininho)
12- Solta-se o Beijo (Ala dos Namorados)
13- Chuva Dissolvente, Xutos e Pontapés
14- Eu estou aqui, Pedro Abrunhosa
15- Cavalo à Solta, Fernando Tordo
16- Saudade, Trovante
17- 125 Azul, Trovante
18- Saiu Decidida para a Rua, Rui Veloso (versão Sara Tavares)
Cornupópia (poema compilação II)
aquela rapariga
eu já nem sei o que fazer
que dizer
confesso às paredes de quem gosto
e é tão difícil dizer amor
é bem melhor dizê-lo a cantar
quem canta sempre se levanta
calados é que podemos cair
ah se não tenho a vergonha de o dizer
Maria Albertina deixa que te diga...
hei-de ouvir o teu parecer
hás-de me dizer
às duas por três
quem sabe onde isto irá parar
eu mandei-lhe essa carta
(o que é que foi que ele disse?)
e ela disse que não
chegou hoje no correio a notícia
por ti renego
por ti aceito
atirem-me água fria!
de Lisboa vou fugir
não sei mesmo se Lisboa
não partiu para parte incerta
o corpo em câmara lenta
e eu estou aqui
tantos anos tantas noites
sem nunca sentir a paixão
e o que foi feito de mim?
e o que foi feito de ti?
terça-feira, 30 de agosto de 2016
Pop Corno
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| Humanos: David Fonseca, Camané e Manuela Azevedo cantanto músicas de António Variações |
Vinha na viagem Algarve-Lisboa a ouvir uma compilação de música portuguesa que já tem uns anitos quando me lembrei que seria giro fazer um poema com frases soltas das várias músicas da mesma. E como tinha 3 horas sem nada para fazer senão guiar entretive-me a cortar-baralhar-e-voltar-a-dar com as 18 músicas. (Em boa verdade o CD tem 20 faixas mas eu costumo passar sempre duas delas e não me apeteceu gramar com elas só para roubar frases). Como aquilo é malta portuguesa a cantar tinha de dar para o choradinho, ou para a dor de corno, como se costuma dizer, daí o título.
1- Gaivota, The Gift (Amália Rodrigues)
2- Clandestino, Deolinda
3- Tatuagem, Mafalda Veiga (com Jorge Palma)
4- Hip Hop Sou Eu e És Tu, Boss AC
5- Mudar de Vida, Humanos (António Variações)
6- Coisas Tontas, Paulo Gonzo e Rui Reininho (
7- Advérbios de modo não combinam com amor, Gato Fedorento
8- Luz Vaga, Mesa
9- Ana Lee, GNR
10- Ouvi Dizer, Ornatos Violeta
11- Dance, David Fonseca
12- Casa, Rodrigo Leão ( com Adriana Calcanhoto)
13- Dancemos no Mundo, Sérgio Godinho (com Clã)
14- Re-tratamento, The Weasel
15- Picture of my own, Fingertips
16-Sopro no Coração, Clã
17- Balada da Gisberta, Pedro Abrunhosa
18- Ok! Do You Want Something Simple, The Gift
Pop Corno (poema compilação)
ouvi dizer que o nosso amor acabou
pois eu não tive a noção do seu fim
já não me deixas ser assim
pequeno almoço só p'ra mim
você me trocou e como alternativa
escolheu um cara que somente adjetiva
perdoar
como perdoar?
faço pinturas de guerra
que eu não sei apagar
as a tear comes from inside
I feel like I'm gonna drown
quis pedir ajuda
mas a língua estava morta
sei lá
sei lá eu o que desejei:
não voltar nunca...
amantes, outra casa...
chega só um pouco perto de mim
acredita nunca me senti assim
só queria dançar contigo
sem corpo visível
dance dance dance dance dance dance
ritmo e poesia é o que nos caracteriza
e quem não sabe dançar improvisa
o amor é tão longe
o amor é tão longe
sim, o amor é vão
todo o amor é vão
ópio do povo
que perfeito coração
no meu peito bateria
behind this sacrifice, can't you see the words?
a cidade está deserta
e alguém escreveu o teu nome em toda a parte
nas casas nos carros nas pontes nas ruas
em todo o lado essa palavra
repetida ao expoente da loucura
ora amarga ora doce
pra nos lembrar que o amor é uma doença
quando nele julgamos ver a nossa cura
(olha que a vida não
não é nem deve ser
como um castigo que terás de viver)
promessas vãs
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| foto de Sofia Pires |
ninguém escapa à sua sombra
desconfia
de quem quer estar sempre feliz
é sentir pela metade
ninguém vai abortar
todas as lágrimas
há qualquer coisa de perverso
em querer amputar do destino
toda a tristeza e dor
enquanto há coração
o sangue corre
o sangue escorre
nos espaços por onde foge
também não verás vida
sem fuga
ou promessas vãs
maratonas de alusão
sábado, 27 de agosto de 2016
um homem extraordinário
![]() |
| ilustração de Frédéric Forest |
Ele reclama. Chama o seu nome. Ela pára, volta-se para ele, à saída do quarto, mão na porta, à espera. Ele tenta articular uma palavra, uma frase jocosa e erudita mas desiste sem dizer nada. Ela abre a porta. Ele volta a chamá-la. Ela estaca ao nível da ombreira da porta e espera.
- Não vás ainda.
-Diz lá então.
-Não sei que te diga mas peço-te um pouco mais de tempo.
-Para quê?
-Para falarmos.
-Então fala.
-Não sei o que queres que te diga.
- Eu não quero que me digas nada, és tu que parece que queres dizer alguma coisa.
- Muita coisa, eu quero dizer muita coisa. Fui eu que falhei, é certo. mas não foi por mal, não foi por querer.
-Sim, e o que adianta isso agora? Já tomaste a tua decisão. E eu já acatei essa mesma decisão.
- E se eu voltasse atrás...
-Que lata! Que grande lata. Não, não vais voltar atrás, porque eu não vou andar aqui para trás e para frente ao sabor dos teus caprichos. Já me julgaste e condenaste e agora vou cumprir a sentença proferida. Sem apelo e sem recurso, e quanto mais rápido o tempo começar a contar melhor, mais depressa me vejo livre de...
-De mim, era isso que queria, afinal de contas, deste-te a este trabalho todo para me veres pelas costas. Tinha sido mais fácil se tivesse sido sincera e...
-Tretas! Sabias que eu não estava bem, nada estava bem e fingiste sempre, não querias ouvir, adiaste sempre as conversas, nunca dava jeito, nunca era o tempo certo, porque havia muita coisa importante a acontecer e não dava para parar e falar sobre assuntos desconcertantes, era tudo muito muito desconcertante e eu... eu fui deixando andar, adiando também, fui-me fechando na minha concha, fazendo a minha vida... isolando-me...
-Não lhe chamaria isolamento, propriamente dito...
-Foi isolamento sim, foi isolamento. E o isolamento leva à carência e a carência leva ao desejo e aconteceu, aconteceu-me e nada posso fazer para voltar a trás e desfazer o que fiz e se pudesse nem sei se queria desfazer!
- Está tudo bem então, foi bom para ti, ao menos agora nem preciso de perguntar...
-E quando é que te lembraste de perguntar?
- Nunca, de facto, tens razão, já disse que fui eu a errar
-Não, não te finjas de sonso, tu não te consideras culpado de nada. aqui a rameira sou eu.
-Nunca te disse isso!
-Não, não dizes, é demasiado educado e polido, não desces tão baixo. Não dizes mas pensas e eu até vejo os teus pensamentos como se congelassem no ar, no balão gigante, bem por cima da tua cabeça: RAMEIRA. Não é assim que me classificas? Não é este o termo erudito para puta, o termo clássico?
-Não faças isso, vamos conversar...
-Mais ainda? Não me dissestes já tudo como ironia primeiro, depois com sarcasmo, depois com mágoa, depois com raiva, depois com fúria louca... Já ouvi de tudo e de todas as maneiras, já chega.
Vou-me embora, vou expiar a culpa e tentar um dia, um dia quem sabe... possa fazer tudo diferente, tudo muito mais limpo...
-Desculpa-me, desculpa-me, eu sei que também sou culpado, desculpa-me...
- Nem sei se estás a ser sincero...
-Duvidas de mim? Alguma vez te menti?
-A ausência de mentira não implica sinceridade. Sabes bem disso, és inteligente.
-Que importa isso, não fui suficientemente expedito, suficientemente intuitivo, ou possessivo, talvez...
-Enterraste a cabeça na areia e recusaste falar, foi só isso. De resto não te faltam qualidades.-
-Quais? Diz uma.
-Tu és um homem extraordinário...
-Por isso me traíste com outro.
-Pois, deve ter sido, sou maluquinha e foi isso, não suporto homens bons.
-Então o que foi? Se sou assim tão bom...
-Não és assim tão bom, és extraordinário mas não assim tão bom, tens defeitos, muitos defeitos e eles fizeram-se notar e eu não consegui lidar com eles da melhor forma...
-Então afinal esta traição aconteceu pelos meus ou pelos teus defeitos?
-Pelos meus, agora adeus e até um dia destes. Felicidades.
-Não vás!
-Vou. Aliás tu não precisas de mim para nada, nunca precisaste. Nem de mim nem de ninguém, Tu precisas da ideia de uma mulher, precisas de uma mulher no teu passado para teres material de escrita. Por isso até te estou a fazer um favor. Ficas com a tua história triste e a tua melancolia agora plenamente justificada, quase de papel passado, digamos assim.
-Não digas asneiras!
-Na mouche diria eu, consegui pôr o dedo na ferida. Se começar a escarafunchar muito até vejo que fizeste tudo de propósito, deste trela, fizeste-me apaixonar, depois começaste a cortar trela, a deixar-me à toa, tudo para me destabilizar e entrar em abstinência...
-Que disparate, não fiz tal coisa, estás a virar o bico ao prego. Foste com outro porque quiseste e traíste-me e mentiste-me e foste uma autêntica cabra por me esconderes tudo, eu é que descobri...
-Adeus, tens razão, para quê falar do assunto, chorar sobre leite derramado, adeus, desculpa, desculpa, tens razão...
-Não vás.
-Pára! Pára e deixa-me ir embora! Não quero continuar a alimentar esta tortura. Não tenho mais nada a fazer aqui, deixa-me!
-Não, vamos falar...
-Não temos feito outra coisa durante esta semana toda. Não aguento mais, quero parar com isto, é muito massacre, tenho a cabeça em água.
-Tens razão, tens razão, vamos fazer uma trégua, entra, senta. Calma, vamos ter calma, parar de bater sempre na mesma tecla. Vamos ficar em silêncio, isso, senta-te, Vamos dar uns minutos de silêncio.
-Não sejas condescendente, detesto quando és condescendente.
- Não, pára, a sério, vamos dar uns minutos, nem que sejam uns minutos de paz. Por favor.
-Está bem, eu sento-me, tens um copo de água?, tenho a boca seca. Isto é palavras a mais.
-Sim, vou buscar, espera um bocadinho.
Ela sai assim que ele entra na cozinha.
Ele chega de copo na mão e vê a sala deserta.
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