terça-feira, 23 de agosto de 2016

HOTEL E PASSOS PERDIDOS DE PAULO VARELA GOMES






















Da pilha de livros que resolvi trazer para férias, de acordo com a popular expressão "mais olhos que barriga" para quem só vem por 15 dias, resolvi pegar num dos que vinham associados a grandes expectativas: Hotel de Paulo Varela Gomes.
Se eram altas foram largamente ultrapassadas sem dificuldade nenhuma pois à terceira página fiquei rendida à obra.
Que o homem escrevia bem já eu sabia das crónicas do Ouro e Cinza e da Granta mas que nos desse uma história ( uma não, duas. E ainda me faltam dois romances) destas apenas podia ter uma leve suspeita bem fundada.
PVG não só nos oferece uma escrita elegante e admirável mas também um olhar único. Ou não fosse ele um historiador de Arte e de Arquitectura. Primeiro ele ensina-nos a olhar, depois a ver o que estamos a olhar e depois oferece-nos o que estamos a ver. E isto em relação a países, cidades, sítios, ruas, rios, edifícios, portas, janelas, monumentos, flora, enfim, dá-nos o mundo.

Em Hotel a acção centra-se quase toda no dito edifício. Uma das personagens principais é o homem que o engendra (ou não fosse ele um engenheiro), Joaquim Heliodoro (abreviando, que os apelidos são mais que muitos); a segunda é o dito Hotel. Que é uma obra rara e absolutamente fascinante. Para o descrever PVG vai usar  muitos alpendres, torreões, ameias e pináculos, vãos de arco apontado, abóbadas em leque, silhares de pedra e  de azulejo, intradorsos, frontões curvos, conversadeiras e coruchéus, cúpulas e baldoquinos, pórticos e galerias, janelas maineladas e portas manuelinas, bow windows, e outras coisas que tais, tudo na posição correcta e adequada a um edifício monumental e inesquecível.
Hotel é um hotel onde queremos passar férias, onde queremos ficar temporadas, onde queremos viver para sempre. 
E o que dizer do próprio Joaquim? Pois PVG não se fica por personagens estériotipadas e fáceis. Joaquim é tudo menos agradável à vista e ao trato. Mas torna-se uma personagem tão complexa, tão desalinhada, solitária, perdida, partida, fora deste mundo que nos irá prender do princípio ao fim. Diria até que nos consegue contagiar com o o seu vício e arrastar para ele. Seduz-nos, tal como às duas mulheres da história Manuela e Margareta, personagens secundárias, à sua maneira anti-sedutora. 


Depois de Hotel só poderia ter começado imediatamente com outro livro do mesmo autor.
Passos Perdidos faz-nos viajar. À medida que acompanhamos a história de desamor das duas personagens principais Anna W. e C. Brandon vamos conhecendo vários sítios. Primeiro Santa Helena, uma ilha no meio do Atlântico, onde foi exilado e morreu Napoleão. Fiquei a conhecer e a gostar da ilha de tal forma que posso dizer que é talvez o meu "sítio onde nunca irei" favorito.



Apesar de gostado bastante do que se "vê"( do que PVG  nos oferece a ver ) de Milão, Munique,várias cidades belgas, Bijapur, e Diu, o que me ficou na ideia foi Valleta em Malta e as seguintes linhas: "O autor é incapaz de dizer de Valleta o que a cidade merece. É muito bela, muito. É preciso ir lá. É preciso não morrer sem ter conhecido Valleta.

Claro que se trata de um profundo exagero, pois neste ponto já ele nos tinha descrito ao pormenor toda a ilha de Malta e nos tinha feito apaixonar pelo local.
Há quem considere que o romance é uma espécie de vários ensaios encadeados com a ajuda das personagens, não sei, pode ser também considerado uma obra de literatura de viagens. Sei que a história que serve de fio condutor ao passeio pelo mundo tem bastante interesse. Porque mais uma vez, PVG não escolhe figuras certinhas e aprumadas. São seres profundamente perturbados, este homem e esta mulheres que viajem juntos mas se mantém separados por uma ligação angustiante.
Chego ao fim e fico a pensar que este volume merecia um segundo de continuação, se o autor tivesse tido mais tempo. 
E não me conformo com esta interrupção na obra de Paulo Varela Gomes, na vida de Paulo Varela Gomes. Uma grande injustiça para todos.



pais e filhos

The Doubtful Guest, Edward Gorey


Os filhos têm os pais inscritos no seu ADN.  Os filhos têm, por isso, dos pais, um retrato inato. Conhecerem-se é ir reconhecendo a herança que receberam deles e o que depois vão construindo com esse legado. Os filhos vão entendendo os pais à medida que se conhecem a si mesmos. É uma dupla viagem.

Já os pais não têm dentro de si nenhuma pista do que passaram aos filhos. Tudo o que podem saber sobre os filhos vem destes e do esforço que fizerem no sentido dessa descoberta. É um retrato totalmente adquirido onde apenas podem tirar, se prestarem muita atenção, parecenças, à posteriori.
Será uma dupla viagem, totalmente facultativa.






domingo, 14 de agosto de 2016

A ignorância do xamanismo

Chamas.
Chamas.
Chamas.
Deixo-me ficar.
Ou gosto do fresco
ou prefiro ignorar.
A Sibéria é tão longe.

A memória tem mãos de médico

Hands and Eyes, Stanko Abadzic


A memória tem muitas mãos.
Umas afagam-me o cabelo,
outras tapam-me os olhos
para que não entre a luz afiada
na pele cortando caminhos
através da carne,
dilacerante.

A memória tem mãos
que tiram a febre,
auscultam a incapacidade
de voltar a repetir feridas
demasiado ferozes.

A memória tem mãos
que tapam os ouvidos
e nos deixam a salvo da voz
que anunciava
a ilha a arder,
mais não éramos
que essa ilha a arder.

Mãos que nos contagiam
com um sono acordado,
o precário sono da vida.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

dentro do cavalo

Horse Drawing - Andalusian Horse Drawing by Angel Tarantella



A mãe levou-a pela mão
ao matadouro
à procura de uma cura antiga,
sofria dos ossos.
Mandaram-na entrar.
Não queria.
Obrigaram-na. Era pequena.
Lá dentro as paredes eram carne.
O tecto era carne.
O chão era carne.
Dentro do cavalo o cheiro era sangue.
Mas aos ossos foi a solidão,
apenas, que se colou.

sábado, 23 de julho de 2016