Chamas.
Chamas.
Chamas.
Deixo-me ficar.
Ou gosto do fresco
ou prefiro ignorar.
A Sibéria é tão longe.
domingo, 14 de agosto de 2016
A memória tem mãos de médico
![]() |
| Hands and Eyes, Stanko Abadzic |
A memória tem muitas mãos.
Umas afagam-me o cabelo,
outras tapam-me os olhos
para que não entre a luz afiada
na pele cortando caminhos
através da carne,
dilacerante.
A memória tem mãos
que tiram a febre,
auscultam a incapacidade
de voltar a repetir feridas
demasiado ferozes.
A memória tem mãos
que tapam os ouvidos
e nos deixam a salvo da voz
que anunciava
a ilha a arder,
mais não éramos
que essa ilha a arder.
Mãos que nos contagiam
com um sono acordado,
o precário sono da vida.
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
dentro do cavalo
![]() |
| Horse Drawing - Andalusian Horse Drawing by Angel Tarantella |
A mãe levou-a pela mão
ao matadouro
à procura de uma cura antiga,
sofria dos ossos.
Mandaram-na entrar.
Não queria.
Obrigaram-na. Era pequena.
Lá dentro as paredes eram carne.
O tecto era carne.
O chão era carne.
Dentro do cavalo o cheiro era sangue.
Mas aos ossos foi a solidão,
apenas, que se colou.
sábado, 23 de julho de 2016
terça-feira, 19 de julho de 2016
amnésia querida
Amnésia querida, amnésia querida,
do melhor que a gente tem,
não há outro remédio na vida
igual ao que com amnésia se obtém.
Feliz de quem possa esquecer
o que na vida o faz aborrecer.
Feliz de quem possa apagar
da memória do que o faz chorar.
Graças a Deus, tive esta sorte,
passo todo dia alienada.
Bati com a tola, fiz um corte
e agora não me lembro de nada.
Amnésia querida, amnésia querida,
do melhor que a gente tem,
não há outro remédio na vida
igual ao que com amnésia se obtém.
Dia da amnésia devia ser
todos os dias, alguma coisa esquecer.
Santa branquinha, que alegria,
abençoada esta calmaria.
Nunca na vida, por coisa alguma,
vou agarrar a ideia que se esfuma.
Feliz de quem possa dizer
não tenho magoas, o que é doer?
sábado, 16 de julho de 2016
o meu primeiro morto
Era um homem bonito,
um rapaz, parecia
novo, deitado no chão
de pedra, dormia,
parecia, tinha eu cinco anos.
Na casa dos meus avós
trabalhava com outro homem
mais velho
fechando uma marquise.
De repente o silêncio cortou
o rugido do berbequim.
Algo estranho acontecia,
na marquise semi fechada,
ele dormia em tronco nu,
parecia.
Tudo estaria bem não fosse
a voz trémula da avó,
o ar demasiado bíblico do avô.
Não me lembro de mais, só um mistério
que ficou no ar
e, na altura, resolver
não sabia.
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