sábado, 9 de julho de 2016

INTERVALO PUBLICITÁRIO: NADA, FAZ BEM A TUDO




NADA, faz bem a tudo.





Chegou o comprimido verdadeiramente inovador.
Contra a doença, contra tudo, contra a dor.
Para quem não gosta de químicos agora há NADA
comprimidos que,  quase por milagre,
deixam qualquer pessoa sarada.

E para tirar as dúvidas a quem está de queixo caído, aos mais incrédulos,
deixo o testemunho de uma senhora que desde há meses tem vindo a tomar NADA:

" Dou-me muito bem com NADA. Tomo todos os dias e deixei de ter dores. Tinha uma dor, volta e meia, no joelho, que me chateava bastante. Aquilo só me doía quando estava para vir chuva. O que me irritava bastante pois assim que me dava a dor eu dizia logo, olha, amanhã vai chover. E chovia. Só que, dá-se, eu gosto bastante de ver aquele programa de televisão, o Boletim Meteorológico, e a dor tirava-me o elemento surpresa, é que eu já sabia o que o homem ia dizer. E aborrecia-me. Agora é uma maravilha, mal chega a hora e eu já estou em pulgas para saber que tempo vai fazer no dia seguinte. Tudo graças a NADA. Dantes recusava-me a tomar comprimidos com medo das complicações, das porcarias que lá devem botar. Agora não, tomo NADA, sem problemas e sinto-me feliz.

NADA, até a morte vai ficar desenganada. 



sexta-feira, 8 de julho de 2016

Andrógino




Queres comédia, Aristófanes,
queres? Entra o Andrógino,
o rei dos palhaços,
bicéfalo e balofo,
um par de gémeos, comédia.
Como se algum par de siameses
abdicasse da longa luta
de bisturi e legião
de batas brancas
pela chance de ser só um.
Que comédia!
A pele fez-se para ser tocada,
as mãos querem alcançar,
as pernas querem caminho
para andar
porque não há encontro
sem distância,
não há viagem
sem separação
para quem quer ser inteiro
e completo
a amar o Outro.







terça-feira, 5 de julho de 2016

vingança

no sonho
foi melhor
que na carne
e no osso
a minha
mais dura
vingança

Sylvia

Ilustração de Goya


Nesta cidade tudo é ideia,
nevoeiro.
O Mayor é uma quimera
que toma conta de nós,
habitantes,
fantasmas das musas anémicas,
a maldição a pulsar na alma,
desgrenhados.

Aqui te vim procurar por palavras,
actos e pensamentos.
Inventei uma imagem
a partir do teu nome.

Fui expulsa desta cidade,
ao fim ao cabo,
por tentar trincar a maça concreta,
o bicho gémeo da ameaça.

Na beira da estrada
ainda espero
a boleia de regresso
a Sylvia.

E se voltar,
que mais irei encontrar
nos calabouços
de mim?

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Inteligência Artificial



Pode um engenheiro 
(pode?) 
algo esperto
inventar 
o algoritmo certo
(pode?)
com algum ritmo
(pode?)
vencer um rito perto
(pode?)
fazer o que é recto
(pode?)
criar asas
(pode?)
à nossa máquina íntima
de voar?