terça-feira, 5 de julho de 2016

vingança

no sonho
foi melhor
que na carne
e no osso
a minha
mais dura
vingança

Sylvia

Ilustração de Goya


Nesta cidade tudo é ideia,
nevoeiro.
O Mayor é uma quimera
que toma conta de nós,
habitantes,
fantasmas das musas anémicas,
a maldição a pulsar na alma,
desgrenhados.

Aqui te vim procurar por palavras,
actos e pensamentos.
Inventei uma imagem
a partir do teu nome.

Fui expulsa desta cidade,
ao fim ao cabo,
por tentar trincar a maça concreta,
o bicho gémeo da ameaça.

Na beira da estrada
ainda espero
a boleia de regresso
a Sylvia.

E se voltar,
que mais irei encontrar
nos calabouços
de mim?

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Inteligência Artificial



Pode um engenheiro 
(pode?) 
algo esperto
inventar 
o algoritmo certo
(pode?)
com algum ritmo
(pode?)
vencer um rito perto
(pode?)
fazer o que é recto
(pode?)
criar asas
(pode?)
à nossa máquina íntima
de voar?


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Alergia


Seated Pierrot, Pablo Picasso

Quando o  pingo
ultrapassa
o muco
e corre  desenfreado
à entrada
da dupla porta
lanças a mão ao lenço
em urgência,
onde está,
no bolso da calça?
Depressa!
E já a ameaça do rio
escorrendo,
onde está,
na bolsa de alça?

O ar todo entra
de repente no peito,
depressa,
depressa,
o reino por um lenço,
onde está?
Chega por fim
o estrondoso alívio
chuviscoso.
Lembras-te
dos espirros
dos Pierrots.


quarta-feira, 1 de junho de 2016

uma pedra sobre o assunto


The Sleeping Beauty, Arthur Rackham



Não sei se desisti
ou fui derrotada.
A pedra aterrou
sobre o assunto.
A sela pousou
suave
sobre o cavalo
indomável.
Vi o fundo
do poço sem fim.
A cal viva
barrou
o teu corpo
para sempre
adormecido.



quinta-feira, 26 de maio de 2016

CÃO É CÃO

Beckett, o meu cão


Farto-me de rir quando oiço dizer, a propósito do bem estar animal, que hoje em dia se humaniza demasiado os bichos. Fico a pensar que estas pessoas estão a ver o filme todo ao contrário. 
Eu gosto muito de cães, sempre gostei, mas nunca confundi estes animais com pessoas. Muito pelo contrário, sei ver muito bem as diferenças.
Um dia tinha eu quinze ou dezasseis anos, andava pelo quintal dos meus avós com um cachorro ao colo, achando que seria a coisa mais natural do mundo, diz-me um tio assim:
- que andas tu a fazer com esse cão ao colo, não vês que não é uma pessoa?
- E desde quando é que me vê andar por aí com pessoas ao colo?
Foi a primeira vez que me apercebi do erro fundamental desta gente que embirra com quem gosta de bichos, da confusão que lhes vai na alma. Uma pessoa não tem de dar qualidades humanas a um animal para gostar dele. Ainda para mais quando esse animal já tem qualidades de sobra. Isso não quer dizer que não se goste de pessoas. Eu gosto de pessoas, eu vivo rodeada de pessoas. Mas ainda assim, se não existir um cão, pelo menos, na minha vida, há qualquer coisa que falta, e não descanso enquanto não preencher esse vazio.
A relação entre uma pessoa e um cão é única. Existe uma ligação, uma confiança, um consolo que não se retira de nenhuma outra. Um cão olha para nós com benevolência, com abnegação. Não lhes interessa toda a panóplia de defeitos que qualquer humano carrega consigo, como uma cruz. Desde que lhe retribuía o afecto o cão vai estar sempre do seu lado, dê por onde der.
Depois há outra coisa muito importante que o Paulo Varela Gomes descreveu numa das suas magníficas crónicas sobre animais, o estado de felicidade de um cão é muito bom de testemunhar.
Sem cães só conseguimos perceber o que é a felicidade em teoria. Porque somos, por natureza, criaturas insatisfeitas e inquietas, sempre à procura de alguma coisa que nos escapa.
Um cão, desde que tenha as suas necessidades básicas atendidas, comida, água e cama confortável, alcança a felicidade facilmente, através do afecto que lhe damos. Passamos a ter o privilégio de ver um ser feliz todos os dias quando chegamos a casa e nos recebe com a cauda a abanar e os olhinhos agradecidos. Sabemos que a vida é perfeita para ele. Pelo menos ver, ter um exemplo, da tão sonhada Felicidade. Afinal ela mora mesmo ali ao nosso lado, quando já pensavámos que talvez fosse apenas do domínio do imaginário.