sábado, 21 de maio de 2016
Babel conjugal
Azucrinava-me os ouvidos. Disse-lhe: cala-te pá, esquecendo-me que era francês. Falou toda a noite. Falhando-me.
sábado, 14 de maio de 2016
Coisas com bichos
Fico perplexa com a reação de algumas pessoas à mudança do regime jurídico que costumava considerar animais como coisas. Parece que há quem tenha apanhado um susto e reaja com um certo terror. Mas será que ainda não tinham desconfiado que os animais não eram coisas? Nem uma suspeiçãozinha pequena, uma pulguinha a trás da orelha, nada?
Esta reação
remete-me para a época vitoriana, quando o Charles Darwin apresentou o seu
"A Origem das Espécies". Também aí elas e eles se passaram
completamente pensando que a sua humanidade iria ser rebaixada ao nível dos
macacos. Elas com medo que lhes desatasse a crescer o buço e eles em pânico de
ficarem com as costas felpudas como o Tony Ramos.
Faz-nos falta,
talvez, um batalhão de Carls Sagans que venham explicar em programas de
televisão o quão fabulosa e única é a nossa espécie, aqui neste pequeno ponto
azul, na periferia do Universo. Como é belo o nosso código genético e excitante
é a nossa História ao longo de milhões e milhões de anos no Planeta. Para que
não nos sintamos diminuídos quando tentamos dar às outras espécies,
especialmente às que nos estão mais próximas, e que partilham connosco esta
imensa Casa, uma vida melhor.
Faz-nos falta um
pouco mais de autoestima, um pouco mais de confiança. E combater este absurdo
medo de sermos ultrapassados em direitos por outrem.
terça-feira, 10 de maio de 2016
AMO MÃE TE
Há
uns anos atrás, num livro de crónicas da Martha Medeiros, descobri
um texto que me ficou na memória: "Vende Frango-se".
Gostei do modo sério, isento de chacota com que a cronista abordava
o tema da comunicação e da sua eficácia e eficiência, partindo
deste anúncio na montra de uma churrascaria. Nunca mais consegui
dizer "frango". Digo sempre "frango-se". O que é
o almoço, perguntam os miúdos? Frango-se! E só quem me conhece bem
sabe porquê. Aquilo que lemos e o que nos fica dessas descobertas
torna-se parte da nossa intimidade.
Foi
com alegria e espanto que descobri o meu "Vende Frango-se"
em forma de amor filial: AMO MÃE TE.
Demorei
algum tempo a perceber a mensagem pois nem todas as perspectivas
permitem ver as 3 palavras ao mesmo tempo. Primeiro lia AMO MÃE e
imaginava que o TE estava por baixo do AMO escondido pela vegetação.
Passados uns dias, caminhando em sentido contrário dei de caras com
o TE que me pareceu fora do contexto. Mas ontem percebi tudo, a frase
completa, a declaração de amor que surgiu exactamente no dia 1 de
Maio, o dia em que o "meu" marco geodésico se transformou
num monumento dedicado a todas as mães. Está escrito de uma forma
um pouco alternativa? Sim, mas a mensagem está lá e chega-nos de
forma absoluta. Cá para mim, há algures uma mãe que está a criar
um poeta.
sábado, 7 de maio de 2016
poemas putas
sexta-feira, 6 de maio de 2016
quarta-feira, 4 de maio de 2016
OS GATOS de FIALHO DE ALMEIDA
É um livro de contos do Fialho de Almeida com selecção e introdução de Maria Antónia C. Mourão e de Maria Fernanda P. Nunes. Já tinha lido dois livros deste autor que considero imprescindível e gostei imenso desta introdução que ocupa cerca de um quarto do livro e que nos dá a conhecer a vida e personalidade do escritor que pelos vistos não era propriamente um santinho, como aliás ele aqui dá a entender, neste primeiro texto da colectânea que aqui vos deixo:
"MEUS SENHORES, AQUI ESTÃO OS GATOS!"
"Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.
Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para para os indiferentes, e terrível com agressores e adversários.
- Um pouco lambareiro talvez perante as belas coisas, e um quase nada céptico perante as coisas consagradas; achando a quase todos os deuses pés de barro, ventre de jibóia a quase todos os homens, e a quase todos os tribunais, portas travessas. - Amigo de fazer jongleries com a primeira bola de papel que alguém lhe atire, ou seja um poema, ou seja um tratado, ou seja um código. - Paciente em aguardar, manso e apagado, com um ar de mistério, horas e horas, a sortida de um rato pelos interstícios de um tapume, e pelando-se, uma vez caçada a presa, por fazer da agonia dela uma distracção; ora enrolando-a como um cigarro, entre as patinhas de veludo; ora fingindo que lhe concede a liberdade, atirando-a ao ar, recebendo-a entre os dentes, roçando-se por ela e moendo-a, até a deixar num picado ou num frangalho.
Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato- isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque, e o animal de humor e fantasia- porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.
Razão por que nos acharás aqui, leitor, miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca."
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